Tevez, um jogador do povo corintiano



Tevez tem a cara do Corinthians. Negar isso é busca pelo em ovo. Para entender essa identificação não precisa de esforços demasiados. Na Argentina, o atacante é tido como o jogador do povo. Afinal, é o cara que vem lá da base da pirâmide social, corre feito um camelo em campo, suando às bicas, e passa a impressão de que jamais se acomodará. O Corinthians é um clube do povo por motivos óbvios. Os corintianos adoram esse rótulo e o estampam nos estádios. No jogo contra o Inter, quinta passada, uma faixa orgulhava-se disso. Não há que se recorrer a sociólogos para entender o fluxo de origem que percorre as veias alvinegras. Tevez tem o sangue compatível com o dessa gente. É uma questão de quantidade mesmo, de multidão, de um ser em muitos.

Por isso, a iminência da volta de Tevez somente cinco anos após deixar o clube é um epifania para os corintianos. Parece que foi ontem que ele conduzia a equipe ao seu último título nacional, com a filha miúda no colo e ensaios de cumbia (dança típica latino-americana) a cada gol marcado. As memórias nessas horas provocam sensações prazerosas para quem delas desfruta. Os dentes desalinhados e a fala ininteligível só ajudaram na paixão dos milhares que sentam no cimento encardido e pulam loucamente de hora em hora. Esse elo é que ergue ídolos.

Claro, a presença sinistra do iraniano Kia Joorabchian no negócio provoca meia dúzia de calafrios. Esse empresário com timbre mafioso simboliza um período negro da história do Corinthians. Mas o jogador Tevez, o homem Tevez, a figura Tevez respira também por si só, ou não? Sua raça não depende da vontade de um agente, seu futebol não foi forjado por ele. É da sua natureza. Não devemos ser permissivos com falcatruas e negócios espúrios. Mas também não devemos negar aos açúcares o seu gosto próprio, sem o sal alheio. A rara e evidente identificação do argentino com as gentes mosqueteiras é viva como o sol que nos alumia. Ela tem mais a ver com similaridades, com essa coisa da luta insistente, da raça mesmo. É aquilo que os argentinos denominam de “ganas de vencer”. Isso é representativo. Em um time com grande adesão popular há, naturalmente, a sede da ascensão, da melhoria de vida, do ganha-pão em várias mentes e corações. O futebol é um terreno alegórico disso tudo. O cara entende quem no campo age como ele no cotidiano.

Esse tipo de ligação comove e sempre comoverá. Alguns dizem que Tevez é um problema, que tem espírito nômade, querendo sair sempre do lugar que está. Os fatos são fardos difíceis de contornar. Mas, assim como aconteceu no Boca Juniors, seu clube primeiro, o Corinthians é um berço para Tevez, não uma ponte. É muito mais acolhedor que projetor. Dá a ele o afago necessário, já que advindo de muitos e muitos. Um afago que na sua infância deve ter sido escasso, lá no famélico bairro do Fuerte Apache, na charmosa Buenos Aires. Para ele é compensador ser querido das massas e, por isso, o Timão é um palco perfeito, onde pode suprir toda a carência vivida em tenra idade. Todo amor que não desfrutou nas idades iniciais agora pode experimentar em tempos de madureza. Por isso há tanta expectativa neste momento. Seria um reencontro entre o guerreiro e sua multidão ansiosa.



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