Ceni sabe a dor e a delícia de ser o que é



O Ministério da Saúde adverte: o futebol pode provocar confusão mental progressiva. O sujeito tem nas mãos o ofício e nos pés a virtude. Assim, Rogério marcou o centésimo gol de sua carreira contra o cada vez mais arquirrival Corinthians. Três meses depois, toma um chocolate do mesmo adversário, fica com as penas na mão no quinto gol e sai abatido de campo. É, o Ministério da Saúde bem que alertou que o futebol pode dar um nó até na cabeça dos ídolos.

Agora, saboreando a goleada, os corintianos invertem o pêndulo e lambuzam os beiços com um fato improvável: fazer cem gols no mesmo Ceni. Improvável por simples aritmética. Para essa ironia acontecer, precisa o Timão fazer quase 25% dos gols que já fez no goleiro em um tempo curto, afinal a carreira do mito são-paulino caminha para o fim. Mas pouco importa a matemática nessas horas. O humor é a prova dos nove no jogo de bola. O chute perfeito em Barueri e o coroar eterno do camisa 1 na ocasião calaram fundo na alma alvinegra. Com isso, a dor transformou-se em sátira no último domingo.

E essa esquizofrenia, com seus altos e baixos, só é possível por um detalhe a glorificar-se: Ceni é jogador de um clube só. Fosse ele mais um nômade, o centésimo não teria raiz e o rival não veria nele tanta notoriedade assim. Todos os gols que marcou foram com a camisa tricolor. Quase todos que levou (excetuando-se alguns com a camisa da Seleção) foram pelo clube do Morumbi. Uma trajetória rara e que o faz amado pelos são-paulinos e naturalmente odiado por expressiva parcela dos adversários. Eis o porquê de o deleite dos corintianos justificar-se. Conseguiram cicatrizar uma ferida recente. O problema é que, de tempos em tempos, ela se reabrirá nas lembranças do centésimo gol de Ceni.



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