Petkovic, o herói de uma nação maior que a sua



Esse gringo não é mole não, arrebatou uma nação! O sujeito deixou as raízes deitadas lá na antiga e multifacetada Iugoslávia para ganhar holofotes no ensolarado Rio de Janeiro. No nome, seu inegável timbre leste-europeu, com seus “vics” característicos. Nos pés, um talento digno de Zico. Não à toa, fez a fama envergando o sagrado manto 10 do Galinho de Quintino. Petkovic, um forasteiro deitado eternamente nos braços dessa linda gente rubro-negra. Neste fim de semana, dará seu doloroso adeus à nobre massa no Engenhão. É verdade, advertem os bruxos da bola, que ele  merecia o Maracanã como palco do ato final.  Foi nos domingos caudalosos desse templo do futebol nacional, por ora emudecido, que construiu suas lindezas.  No auge da carreira fez um dos gols da minha coleção pessoal de perfeições. Em 2001, naquela decisão do Carioca. Aquela bola na forquilha, inapelável para o goleiro Helton, do rival Vasco, teve toques de incredulidade. Heroi de um tricampeonato com traços de posteridade.

Carinhosamente chamado de Pet, adquirindo assim o toque de intimidade típico do nosso Brasil dito cordial, o meia teve a precisão como companheira. No toque de bola, no chute curvado, no escanteio venenoso… Ganhou de tal forma os corações flamenguistas que nem mesmo o fato de ter passado pelos rivais  Flu e Vasco foi capaz de apagar a chama. Os deuses do futebol, inclusive, deram-lhe uma prorrogação gloriosa ao permiti-lo ser protagonista do título brasileiro de 2009. É como se dissessem, lá do Olimpo: Quando trata-se de gênios, damos a eles um universo que conspira a favor.

Imaginem vocês que a Sérvia, país que cultiva um futebol com jeitão brasileiro, tem população de pouco mais de 10 milhões de habitantes. O Flamengo, como mostrou a última pesquisa LANCE!-Ibope, tem 33 milhões de amantes. Trocando em miúdos, Petkovic conquistou corações de três vezes mais gente que seu país-natal abriga. Com sua voz aguda e sotaque caricatural, é ídolo inconteste na Gávea. Tente projetar isso na sua vida. Você sai da sua terra e suas tradições, cruza o oceano e, anos depois, é amado ardentemente pela maior torcida do  país que mais títulos mundiais detem. Um feito raro!

As cortinas se fecharam, Pet, e é hora de ir embora. Vá viver como homem comum. Deixe à cargo das lembranças rubro-negras e dos milhares de amantes do jogo bem jogado a sua trajetória em nossos campos.

PS: Curiosa mesmo essa vida. Enquanto um general sérvio-bósnio de  nome Ratzo Mladic é entregue ao Tribunal Penal Internacional por ser o mentor do maior massacre em território europeu após a Segunda Guerra Mundial (Srebrenica, onde morreram oito milhões de homens e meninos bósnios, em 1995), um outro homem de mesma nacionalidade é notícia por ter dado alegria a tanta gente, a milhares de quilômetros de distância. Por isso, o futebol é, ou ao menos deveria ser, uma incrível ferramenta de prazeres.



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