Aí, aqui é 1 a 0, meu filho!



Advirto que os fatos relatados neste texto são ficcionais. Qualquer semelhança com a realidade é meríssima coincidência:

A cena descrita abaixo passou-se no vestiário santista, no intervalo do jogo contra o Cerro Porteño, no Pacaembu, pela partida de ida das semifinais da Libertadores.

Muricy senta no banco ao lado dos chuveiros e dá sua clássica bufada:

– Fuuuuuu…. Já temos o resultado que a gente precisa. É isso aí, vamos lá – sussura para si mesmo antes de virar mais um copo plástico de água guela abaixo.

Eis que Zé Eduardo passa ao lado esfregando uma toalha nos cabelos, cobre o rosto com ela e lamenta o seu longo jejum de gols:

– Não é possível que essa p… de bola não entre. É brincadeira!

Neymar, com seus trejeitos malacos, chega perto do companheiro de fanfarras e diz:

– Po, moleque… naquele carrinho mais um pouco e você acertava a bola, heim? Igualzinho aquele lance na semana passada. Azar, moleque.  Mais um pouco e você acabava com essa macumba, meu velho! To sentindo que hoje a urucubaca vai embora – diz a Joia santista enquanto passa gel para firmar o moicano, sua marca registrada.

Muricy, ao entreouvir o diálogo, fecha o semblante, aproxima-se dos dois e adverte:

– Moçada, que história é essa de pensar em fazer mais gols? Vocês tão de brincadeira, né? Não entenderam ainda que 1 a 0 é o bicho? Não tem falha, meu! Faz 1 a 0, segura as pontas lá e vamos nós. Futebol não tem segredo. Assim a gente chega lá. Ficar tentando mais gols não tá com nada. Vamos ficar expostos e se tomamos um a coisa complica. Ai não é fácil não. Então parem com esses pensamentos aí, meu!

Neymar, arrumando a último espeto capilar, ainda tenta arejar a cabeça do comandante:

– Professor, mas se a gente faz 2 a 0 fica melhor, heim?Não acha não? E três então, nem se fala. To driblando esses paraguaios todos. mais um pouco e a bola entra. Os zagueiros deles ficam loucos quando eu chego. Deixa, vai! Só mais um então..

– Neymar, tu é novo, não sabe nada da vida ainda não. Tem talento, moleque, mas ainda precisa aprender as coisas. Quem muito quer com nada vai ficar, dizia meu avô. Nada de ganânica, cara. 1 a 0 tá ótimo, entendeu? Quer ser campeão ou não quer, bicho?  Contra o América foi assim, um a zerinho em casa e depois foi só segurar lá no México, lembra? E contra os colombianos, esqueceu? Outro 1 a 0 na casa deles e aqui foi só empatar. Quando ficamos tentando fazer mais gols quase tomamos o empate. 1 a 0 é o placar, cara…

Neymar dei uma risada conformada e cochichou para Elano, que passava ao seu lado:

– O professor vai ver. Vamos fazer 2 a 0 e ele vai se convencer que é melhor que um…Po, Elano, se a gente pode fazer dois, três, por que fica nesse um aí?

Foi então que Muricy convocou o grupo, bateu umas três palmas e advertiu:

– Agora é defender, moçada. O time deles fica ali tocando a bola e tentando achar espaço. Vamos fechar esses buracos ali no meio. O placar tá lindo, uma beleza. Um a zero e só segurar na casa deles. Vamos recuar e congestionar ali a intermediária, viu Arouca? Para de sair pro jogo, cara!. E olha aqui você, Adriano, morde até onde puder. Edu e Durval vão ficar ali na cobertura. Léo e Pará, você doios  no cangote dos caras que eles não aguentam..Agora é fechar tudo. Elano e Neymar dão uma ajuda ali pra entupir os espaços

Elano, mais experiente, pediu a palavra:

– Professor, não é melhor eu jogar mais adiantado e a gente tentar fazer o segundo pra matar o jogo? Contra o São Paulo fizemos 2 a 0, na semifinal do Paulista, e eles não tiveram mais reação..

– Elano, meu filho… Aquilo lá foi um acidente. A gente foi pro segundo tempo com os caras pressionando e tava 0 a o. É diferente. Agora estamos no 1 a 0, essa coisa linda que o futebol nos dá. Você já viu um placar mais bonito, mais perfeito que 1 a 0. Olha lá o Coritiba! Meteu seis no Palmeiras e agora os caras da imprensa quer que fique repetindo isso. A cobrança fica grande, filho. Quem goleia fica muito0 pressionado. Ganhei quatro vezes o Campeonato Brasileiro tendo o 1 a 0 como meta. É bem melhor! Todos concentrados. Aqui é 1 a 0, meu filho!

Então, os jogadores viraram-se para escadaria e começaram a subir o túnel rumo ao campo. Edu Dracena encostou em Durval e soprou no ouvido do parceiro:

– É, bicho, estamos fritos mais uma vez. Temos que segurar esse 1 a 0 de qualquer jeito e depois suportar a pressão lá no Paraguai.

Durval estreitou os lábios em expressão afirmativa. E lá foi o Santos na direção de seu destino moderno: de 1 a 0 em 1 a 0 o Peixe enche a pança e Muricy sorri, feliz da vida!



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