Templos mudos do Brasileirão



Serão 380 jogos, uma eternidade, e eles ao relento, como dois ursos hibernando. Uma dupla de concreto, templos  indissociáveis de nossas orações futebolísticas, que passarão ao largo do 41º Campeonato Brasileiro. Talvez chorem baixinho, impotentes, enquanto marretas beliscam suas entranhas cimentosas e jorram o sangue da ausência.  Enquanto andaimes encaixam novos membros em seus velhos e carcomidos corpos, em uma mega cirurgia plástica para ficarem modernosos, à feição dos padrões de um mundo de luxos.

Corpos que abrigaram o supra-sumo de nossa vida esportiva. Em um deles, a síntese de nossas tragédias se desenhou. Isso foi em 1950, quando nossa vira-latisse dava as caras e os uruguaios conosco foram mais destrutivos que o exército brasileiro na saga de Canudos, segundo os escritos de Nelson Rodrigues. Naquele mesmo corpo também se fizeram grandiosos os Fla-Flus, os gestos de Zico e até as conquistas mundiais do Santos de Pelé, o extrato de nossa beleza. No outro corpo, por ora emudecido, a rivalidade mineira se alimentou. Em suas entranhas, Atletico e Cruzeiro deram contornos à bola e engendraram o reinado de Reinaldo, as fantasias de Tostão e Dirceu Lopes.

Mario Filho e Magalhães Pinto são os nomes de batismo desses velhos de guerra. Mas é pelos apelidos, Maracanã e Mineirão, que as massas os reconhecem e aplaudem. Durante as 38 longas rodadas, em que mais um campeão nacional se forjará, jejuarão como dois discipulos da nova ordem. Enquanto passam por reformas e engorda permanente de custos (em uma inflação que atende a interesses vários), a bola rolará em outras novas canchas, com o perfume da novidade e falta de charme. De nossos dois monumentos, no momento, apenas saudade. E assim sacrificamos um pouco de nossa riqueza em nome de riquezas desconhecidas. Os apaixonados de Rio e Belo Horizonte ficam sem seu prazer dominical para que os poderosos tenham seus domingos em mansões nababescas.

Brasileirão sem Maracanã e Mineirão não é bem um Brasileirão. É, no máximo, um brasileirinho, mas com bem menos gracioso que o chorinho de Waldiz Azevedo.

Lembranças…

Das 40 edições do Campeonato Brasileiro, em 13 o título saiu em um jogo no Maracanã ou Mineirão (desde 2003 a competição é por pontos corridos, sem uma final). Confira a relação abaixo:

1971 – Botafogo 0 x 1 Atlético-MG

1974 – Vasco 2 x 1 Cruzeiro

1977 – Atlético-MG 0 x 0 São Paulo

1980 – Flamengo 3 x 2 Atlético-MG

1983 – Flamengo 3 x 0 Santos

1984 – Fluminense 0 x 0 Vasco

1985 – Bangu 1 x 1 Coritiba

1987 – Flamengo 1 x 0 Internacional

1992 – Flamengo 3 x 0 Botafogo

1997 – Vasco 0 x 0 Palmeiras

2000 – Vasco 3 x 1 São Caetano

2003 – Cruzeiro 3 x 0 Paysandu

2009 – Flamengo 2 x 1 Grêmio




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