O renascimento de um clássico alvinegro



E não é que o clássico Santos e Corinthians, tão judiadinho por décadas, volta a ganhar corpo! Porque basta uma chacoalhada na memória, com auxílio luxuoso dos arquivos, para ver que do fim da chamada Era Pelé até o início do novo milênio a rivalidade tinha ficado meio frouxa, pobrinha, quase restrita à memória dos mais velhos. A estiagem teve suas interrupções, mas sem efeitos práticos. Sim, não me esqueço que nesse intervalo anêmico houve o gol de Serginho Chulapa que deu ao Santos o título paulista de 84. Mas esse momento fora uma espécie de espasmo em um corpo moribundo.

Nos anos 60, Pelé era uma assombração para os corintianos. O longo tabu sem vitórias contra o rival do lado de baixo da Serra do Mar tinha no Rei o seu maior símbolo. Contou-me certa vez Zito, capitão daquele esquadrão memorável, que em algumas partidas jogadores do Timão botavam o orgulho para escanteio e chegavam a pedir clemência aos santistas: “Deixem-nos ganhar uma! Umazinha, vá!” Talvez tenha lá uma dose de lenda nesse relato, assim como pode ser fantasiosa a história de que Pelé, após sofrer entrada homicida de Ari Clemente, então jogador do Corinthians, no último amistoso da Seleção Brasileira antes da Copa de 58, no Pacaembu, tenha rogado sua praga: “Enquanto eu jogar, o Corinthians não será campeão de mais nada” Conversa da carochinha ou não, o fato é que começava ali o doloroso jejum de 22 anos sem troféus para a nação corintiana.

Assim que Pelé cravou uma estaca em sua carreira, o clássico dos alvinegros passou a definhar. E, sejamos claros, a culpa maior por isso foi do Santos, que viveu longo período de vacas magras em parte dos anos 80 e no grosso dos 90. Uma semifinal no Brasileirão de 98 reacendeu o lume do confronto, só que com pouca força para resistir aos ventos. Mas eis que em 2001, em jogo semifinal do Paulista, um gol de Ricardinho no que os locutores antigos definiriam como “os estertores do espetáculo” vitaminava a velha rivalidade. No ano seguinte, o Santos daria uma banana para 18 anos de infertilidade e levantaria o título nacional justamente em cima do Corinthians. As infinitas pedaladas de Robinho, um ícone daquela campanha, deram ainda mais tempero para o redivivo clássico.

A pimenta sem nenhum refresco nos olhos dos amantes do Peixe viria no dia 6 de novembro de 2005. Tevez e Nilmar conduziram o Corinthians em um 7 a 1 sobre o rival. Uma tarde que a turma da Vila riscou do mapa e o bando de loucos relembra lambendo os beiços. Já com Ronaldo e sua imensa fábrica de marketing, o Corinthians vingaria a derrota em 2002 com requintes de crueldade na final do Estadual de 2009. O atacante, em seu momento mais fenomenal com a camisa do Timão, só não faria chover na Vila Belmiro. Até gol de cobertura teve no duelo que desvirginou os então fraldinhas Neymar e Ganso, que jogavam sua primeira final profissional. E hoje assistiremos à mais um capítulo dessa rivalidade que, ainda bem, está renovada e exibida!



MaisRecentes

Um Dérbi sob o signo da invencibilidade



Continue Lendo

Ceni e Mancini, vítimas de cartolas inconvictos



Continue Lendo

Cristiano Ronaldo, uma máquina de obstinação



Continue Lendo