Vaia no estádio sempre vale



Não adianta, torcedor de futebol não é como um frequentador de cinema, teatro ou museu. Embora o jogo da bola com os pés seja, por muitos, visto como manifestação artística – para arrepio e desgosto de alguns intelectuais que vivem de pose -, é um tipo de manifestação que se dá pela eleição, pela preferência e, assim, pelo apoio ou pela rejeição. A palavra já deixa explícito sem amarras: o sujeito torce, e muitas vezes se retorce. Não é um mero espectador a apreciar sorridente um espetáculo ou fazer caretas silenciosas de desagrado. O sujeito é um protagonista. Esses populares tanto interferem no rumo das coisas que jogadores e técnicos adoram festejar quando podem decidir um duelo em casa. Alçapões, bomboneras, caldeirões existem por eles. Não há gladiador sem os urros da massa. Não há consagração sem o apaixonado e radinho colado no ouvido e palavras de baixo calão coladas na língua.

Por isso tudo é ilegítimo quando jogador reclama de vaia. Torcedor não é cabo eleitoral. Arquibaldos e geraldinhos (estes últimos condenados à extinção pela pós-modernidade besta) são, acima de tudo, estóicos. O cidadão enfrenta ôninus superlotado, linguiça vencida em pão dormido, banheiro sujismundo e concreto frio para verbalizar da forma que preferir. E ainda vê o gogó ir para as calendas ao gritar com o lateral grosso ou o atacante pé torto. Sem agressão física, como na vergonhosa semifinal em Goiânia, e limitado aos brados em alto som, o direito tá com ele. Jogador que queixa-se de vaias é, no fundo, um mimadão. É lengalenga de quermesse esse negócio de que torcedor tem que apoiar em todos os momentos. Vá catar coquinho!

Vai aqui meu manifesto a favor das vaias. Na sociedade de massas, todo mundo quer participar do BBB e ser aplaudido. Só vale o apoio. A crítica é vista como arma de destruição em massa. No futebol isso ganha acentuação aguda. Luxemburgo, por exemplo, é rei em dar bronquinhas em torcedor em entrevista coletiva, como se o sujeito que ganha salário mínimo vá ver seu time, por ele comandado com bolso milionário, para reverenciá-lo bobamente. Precisa ter um ego maior que um iceberg antártico para agir assim. Alex Silva, zagueiro do São Paulo, fez seu muxoxo esta semana com o festival de “uuuuus” da torcida no jogo contra o Avaí. Ao fazer som cavernoso, o torcedor demonstra seu descontentamento e, no fundo, tenta fazer o time reagir. Quer transformar os jogadores em feras feridas, capazes de responder com um jogo mais qualitativo.

No caso das arquibancadas, a máxima criada pelo genial Tom Zé está errada. Vaia de bêbado vale sim. De bêbado, de sóbrio, de lixeiro, de executivo, de jardineiro, de empresário, de porteiro, de carcereiro… De toda essa turma que vai a estádio para torcer, não para assistir placidamente a um espetáculo!



MaisRecentes

Alemanha x Brasil: aprendizado por linhas tortas



Continue Lendo

Messi ameaça driblar o tempo



Continue Lendo

Do Majestoso e suas armadilhas



Continue Lendo