Auriverde pendão de minha terra



Um, dois, três, quatro… Assim, de tijolada, sem dó nem piedade. Uma quarta-feira negra para os times brasileiros na Libertadores. E as previsões, essa marotas, eram opostas. É aquela coisa: no futebol a saliva é gasta e, no mais das vezes, improdutiva. Mais vale uma bola beijando a rede que um blablablá na mesa redonda. O campo golpeia, mostra as unhas, sempre muito afiadas e vermelhíssimas. E no mata-mata, como diz a canção da dupla Caetano-Jorge Mautner, “morre-se assim, como num atchim, e de supetão lá vem o rabecão”. Nem sempre o melhor vence.! Aliás, nem é tão comum o melhor vencer. Quantas vezes presenciamos as Termópilas dando as caras, quando os 300 de esparta resistem bravamente a exércitos mais pujantes. Por isso, além de complexos e psicologias de botequim, é preciso ver o espírito de luta, os meandros, os detalhezinhos. Isso faz toda a diferença.

As dores do pavilhão de minha terra começaram a arder mais cedo, com o Inter do Falcão que abriu as asas e capotou em plena decolagem! O tal elegante ex-jogador viu o paletó sair amarrotado de um Beira-Rio febril que saiu choroso, testemunha da ressurreição desse Peñarol fibroso lá pelas tantas dos anos 60, 70… Assim já soçobrava a ânsia por um inédito Gre-Nal em um torneio com cara de Gre-Nal. Nem mesmo a parte Gre da conjunção sobreviveria. Verdade que neste caso aconteceu o esperado. Depois de uma derrota silenciosa no Olímpico, em Santigo a Universidad ensinou mais uma vez aos seus alunos. Renato, seja ele gaúcho ou Portaluppi, viu, assim como Falcão, sua idolatria virar pó,  ao menos  por algumas horas.

Mas Fluminense e Cruzeiro, que haviam vencido na remada de ida não iriam encontrar maré braba, marola nenhuma, né não? Mas o pranto deles, na versão antiga de Vinicius de Moraes, rolou. E rolou em Assunção e na nova figurante de nossas tabelas: Sete lagoas, interior das Minas Gerais. O Libertad, time do xerife dormente da Conmebol, foi inapelável: 3 a 0. O Flu, carregando as costas o epíteto de guerreiro, foi esquartejado por um time com ares de Átilo, o Huno, embora com uma torcida minguante e sem o carisma de Cerro e Olimpia. Mas o Cruzeiro, cujo destaque foi o cotovelo de uma cuca maluca, depois de tantos gols na primeira fase e fama colhida em poucos meses, virou estrela cadente, perdeu seu cruzeiro do sul. O Once Caldas vinha com o dissabor da derrota e a necessidade do épico. Mas o Cruzeiro tinha Roger disposto a deixá-lo manco, sem vísceras. E deu no que deu…

Um quarteto infausto na mesma noite. Uma noite em que Deus foi pouquíssimo brasileiro e resolveu falar espanhol. Uma noite em que mais uma vez deu-se a sentença do futebol, que é mais rigorosa que nosso palavrório, que as análises táticas que muitas vezes perdem-se nas pranchetas.  E, apoiando-se mansamente no Navio Negreiro de Castro Alves, eu me despeço:

“Auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança

Estandarte que a luz do sol encerra, e as promessas divinas da esperança

Tu, que dá liberdade após a guerra, foste hasteada dos heróis na lança

Antes te houvesse roto na batalha, que servires a um povo de mortalha”



  • Tiago

    Cara, foi uma tragedia, concordo.
    Mas se vc ta escrevendo pro povão que gosta de futebol, muda, porque ta dificil de te entender.
    fikdik

  • Ivo Aldo Brondino

    Não é possível como vocês comentarista de futebol, endeusam nossos jogadores, não da mais para jogar só com o nome, precisamos mostrar mais raça, estamos em decadência total no futebol. Em tempo, se tivéssemos jogadores como Cleber do Palmeiras, Chicão do Corintians, Fabrício do Cruzeiro e história dos times na libertadores seria outra.
    Um abraço —Ivo Brondino

  • O extermínio em massa dos brasileiros na Libertadores não foi obra do acaso. Muito menos do sempre culpado sobrenatural. A não ser que você queira engolir o papo estranho dos experts do ramo que apontam o mau agouro, as bruxas e outros seres imaginários como os maiores responsáveis pelo caos generalizado de ontem à noite.Pois, então, expliquemos.

    Em 1998, o Vasco entrou em campo para a final da desejada competição continental contra o Barcelona do Equador com Carlos Germano no gol, Mauro Galvão na zaga, Juninho Pernambucano no meio-campo e Luizão no ataque. Todos, comprovadamente, jogadores em nível de Seleção Brasileira. Número que poderia ser maior, caso Felipe não desperdiçasse seu talento se escondendo nas Arábias e Pedrinho não convivesse durante a carreira com o drama das seguidas contusões. E estatística semelhante é obtida se viajarmos um ano à frente, quando o Palmeiras triunfou na América contando com nomes do calibre de Júnior Baiano, Roque Júnior, Júnior, César Sampaio, Zinho, Alex e Evair, também marcados por passagens na “Amarelinha”. Qualidade refletida, por exemplo, na final do Mundial Interclubes, onde o Verdão dominou o Manchester United, perdendo a partida em uma infelicidade do ídolo Marcos. Padrão de jogo bem diferente do adotado por São Paulo e Internacional que, embora tenham ganho, atuaram acoados diante de Liverpool e Barça, respectivamente. Fruto da debandada de nossos melhores jogadores para o exterior, que enfraqueceu severamente nossas equipes. Pois, pense bem, qual atleta dos clubes que passaram vergonha na quarta-feira de cinzas da bola é presença unânime nas listas de Mano Menezes? Neymar e Ganso, e só.

    E é disso que precisamos nos conscientizar. O futebol brasileiro, pelo menos o jogado aqui, não assusta mais ninguém. Premissa que deveria servir para que respeitássemos e procurássemos conhecer melhor nossos adversários. Nos dias antecedentes aos confrontos decisivos, foi impressionante como desconsideramos o peso da camisa do Penãrol, as “matreirices” do perigoso futebol colombiano e o fato do paraguaio Libertad ter sido o segundo time em termos de aproveitamento na primeira fase. Parecíamos ainda desfrutar da genialidade de Garrincha, que transformava qualquer rival em mero João.

    Mas, a conversa não para na irresponsabilidade irreverente do saudoso Mané. Porque um substantivo tem seus vários sinônimos. E a irresponsabilidade de Roger, Cuca e Mariano está longe de significar algo de tom ingênuo. Ora, é impressionante como técnicos e jogadores do país se desestabilizam emocionalmente com facilidade. Ontem, o que para certos loucos expressa raça, transformou o sonho azul em pesadelo preto e branco. Sensação semelhante a que o torcedor tricolor sentiu à época da tola expulsão de Fred contra a LDU, na final da Copa Sul-Americana. Comportamentos que acabam demonstrando uma certa falta de comprometimento dos profissionais em relação a quem lhes paga o salário.

    Indiferença traduzida na entrevista de Araújo após o apito final, em um discurso simplista, do gênero “não tô nem aí, a vida continua”. Reflexo exato da falta de identificação dos atletas com as camisas que vestem, e, pior, indicador do total descompromisso com a causa de milhões de fanáticos, a verdadeira sustentação de suas vidas regadas a caviar. Mas, falar em valorização das divisões de base nesse universo parasitado por empresários e interesses comerciais, infezlimente, tornou-se imensa piada. Até quando seremos obrigados a aturar esses estorvos, que voltam dos confins do terceiro mundo da bola ou em fim de carreira, enganando nossos corações órfãos dos grandes craques e do verdadeiro futebol pentacampeão?

    Estilo-arte definitivamente assassinado pelos incautos amantes do puro resultado. No Defensores Del Chaco, foi ridículo assistir ao campeão brasileiro atuar em meia faixa de campo. No Beira-Rio, coitados dos colorados aturarem Andrezinho na criação. No Grêmio, quem poderia salvar o Imortal do desastre? Não há camisas 10. Sobram “professores” adeptos do “defender e, se possível, atacar”. Espalham-se também aqueles que gostam de trocar os “professores” a toda hora.

    No Inter, a culpa era de Roth? O quanto resistirá o ídolo Falcão?

    No Flu, quem é que manda? Fred ou Enderson?

    Ontem, esse blog indagou a seus leitores se eles acreditavam que era possível algum dos brasileiros da Libertadores conseguir derrotar Barça ou Manchester. E eu respondo não, não é. Muito embora, se deixássemos de lado nossa pedância, pudéssemos, ao menos, diminuir não só a diferença técnica, mas toda disparidade no entorno.

    E não sei se aqueles que me acompanham com frequência perceberam. Mas minha crônica de pós-jogo, de costume marcada por um tom poético, hoje foi pura técnica. Porque, me digam, como rir, amenizar ou transformar em verso tão deprimente a realidade? Ora, se já não bastasse não termos estádios, convivermos com a violência nas arquibancadas e a corrupção nos bastidores, agora, nem times decentes temos.

    E que paremos de nos enganar e ajamos logo. Está na hora de aceitarmos que o futebol brasileiro está morrendo aos poucos. E, por isso, todos nós, de mão dadas, “tamoliminados” da Libertadores.

    Diz o ditado, a sorte sorri àqueles que trabalham…

    Boa quinta!

MaisRecentes

No bipolar Brasileirão, o futebol é obra inconclusa



Continue Lendo

Guttman, uma bela e vitoriosa trajetória



Continue Lendo

Palmeiras x São Paulo: rivais contra o vexame



Continue Lendo