Talento, o demônio da vez no futebol



Do lado direito soprava-lhe o anjo, tutor da retidão: Meu filho, faz o simples, não inventa! Toca a bola sem joguetes ou firulas. Seja humilde e respeita o teu próximo! Do lado esquerdo, vermelho qual pimentão, rangia-lhe os dentes o diabete: Vai, Valdivia, manda um chute no vácuo, deixa teu adversário com cara do tacho e dê à plateia um pouco de circo! E o Mago seguiu a linha que o diabo gosta. Pimba! Perna para o ar e músculo a rogar. Castigo divino pela diabrura.

Assim, em uma fábula celestial, deu-se a ironia que deixou um pouco mais felizes os caretas. Para estes monges do futebol, o jogo de bola deve correr como em quintal de seminário. Qualquer gracinha é pecado, desrespeito ao companheiro de profissão. Fazer da bola um brinquedo é uma heresia daquelas. Por isso, comemoraram a desdita de Valdivia. São capazes de acreditar que a ira divina caiu sobre as costas do chileno por seu malabarismo fora do script. Ignoram apenas que o futebol só existe porque brota na infância, em que as molecagens se dão com meias, tampinhas de refrigerante e bolinhas de papel.

Faz tempo que em nossos campos driblar virou sinônimo de blasfemar. E assim, vamos perdendo o rebolado, a cintura vai ficando dura e nosso futebol perde sua veia mestiça. A patrulha contra o gingado quer transformar nosso espírito de pelada em procissão às escuras.  Outro dia apareceu um menino foca, que fazia embaixadinhas com a cabeça e assim driblava meio mundo. Logo vieram alguns brucutus a bradar: Isso é um desrespeito total! A ousadia do talento é vista por essa gente como desdém. Sendo assim, nas famosas quatro linhas, prefiro os que dão ouvidos para os diabinhos e ignoram os anjinhos porque infernizar é preciso, rezar não é preciso!



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