Rogério sob a sombra das raridades



Rogério Ceni merece ser festejado, e muito, por sua raridade. Em verdade, por suas múltiplas raridades. A começar por ser um sujeito com posições firmes em um universo tão cheio de nhenhenhem e lugares-comuns como esse do futebol brasileiro, em que, ao contrário do provérbio, quem fala a verdade é merecedor de castigo. Depois porque, além de ser um goleiro estupendo no seu ofício maior – evitar gols de adversários com as mãos, pés, coxas e outras partes do corpo -, ainda invade território alheio com maestria: é artilheiro. Chegou a uma centena de gols, recorde absoluto no mundo da bola para um camisa 1, por uma terceira raridade: a obstinação. Nos primeiros anos de carreira, treinava faltas à exaustão, até que o físico começou a reclamar e o forçou a reduzir o suor extra. Os mil gols de Pelé tiveram contribuição decisiva dos treinos de aprimoramento que o Rei fazia (em sua autobiografia ele nos revela!). Os cem de Rogério receberam esse mesmo empurrão. Coincidência?

Não satisfeito com essa tríplice raridade, Ceni tem mais uma: amor à camisa. Sim, aprendi com meus avós e tios que em tempos de antanho se jogava futebol por amor. Se é verdade ou mentira não sei, mas o fato é que hoje em dia isso pouco se faz e não poderei reproduzir a ideia a meus netos e sobrinhos. Ou melhor, poderei dizê-los que havia um rapaz nascido na cidade de Pato Branco que remava contra a maré de meu tempo, quando o troca-troca quase promíscuo de clubes era a regra. Bem-vinda exceção!

Ceni defende o seu São Paulo não apenas debaixo das traves, mas também no discurso. Chega a dar razão ao clube até quando ele não a tem. Coisa de gente passional que, quando a comida é escassa, guarda a maior parte para os seus. Reconheça-se virtude nessa irracionalidade quando o que normalmente vemos é desapego completo. Rogério tem em si um pouquinho de Vinicius: ele (só) sabe que é preciso paixão!

Para muitos, Ceni é um tipo presunçoso.  Esses adoram ser enganados. Preferem o garoto-propaganda, o que vende sua alma para endossar qualquer produto, mesmo aquele que não consome e jamais consumirá. O menino (em alguns casos homem barbudos) que sorri de orelha a orelha para proclamar que tal operadora de telefonia é a salvação da lavoura em nossas vidas. A autenticidade é heresia no século XXI! O tom assertivo das entrevistas do goleiro é visto como máscara. Ora, ora, ora, como buscamos caminhar para trás.

As raridades de Rogério somadas (personalidade + virtuosismo + paixão + obstinação) podem não formar um ser perfeito (é bom que assim seja!), porém produzem algum oxigênio onde o que se respira é um ar cada vez mais rarefeito!

PS: Vale conferir algumas charges do genial do Gustavo Duarte sobre Rogério Ceni – Clique aqui: http://www.lancenet.com.br/galerias/charges-rogerio-ceni-por-gustavo-duarte/



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