Joel não compreendeu os ânimos do torcedor



Na mesma hora lembrei da Fafá de Belém berrando: “Há uma nuvem de lágrimas sobre meus olhos.” Só faltou o queixo do Joel Santana dar aquele tremelicada ao olhar para a torcida com cara de desalento. Para mim era um dramalhão dos bons, mas sem acompanhamento de violino. Foi no domingo passado, no Engenhão, quando ele fez uma substituição contra o Vasco e a torcida do Botafogo o vaiou (não comporta aqui avaliar se acertou ou errou). No dia seguinte, o técnico, dono de um inegável carisma, pegou o boné e foi embora de General Severiano. Assim como Vinicius,  no belo poema Pátria Minha, o treinador viu, no dia seguinte, “a luz, o sal e a água que elaboram e liquefazem” as suas “mágoas em longas lágrimas amargas”.

Joel, na hora, pode ter pensado: “Coitados, eles não sabem o que fazem. Dei tanto para eles, um título carioca, um bom desempenho no Brasileiro, e olha como me devolvem…”

Ou então, numa versão mais ególatra: “%$$%#&&*.. Quem esses caras pensam que são?”

Joel, apesar dos fartos anos de lida, não compreendeu que o torcedor é ingrato mesmo. Ele vai do amor ao ódio em meio piscar de olhos. Quando completa um inteiro, já experimentou a adoração e a aversão. E, ao ser contrariado, é uma criança mimada que faz de seu “uuuuuhhhhh” uma forma de pirraça. Mesmo com sua prancheta plena de rabiscos, esquemas táticos diversos, em um desfile de racionalidades, o técnico perdeu a esportiva e cedeu aos caprichos da emoção. Sentiu o roçar da faca nas suas costas e não suportou, gemeu! Em sua cabeça, no futebol também deve valer o dito do amor com amor se paga. Mas não é assim. Nos campos prevalece a ideia de que a vitória é que recebe o amor como forma de pagamento. Quantas divindades não cairam do olimpo após sucessivos insucessos nos gramados? Com a palavra, Muricy Ramalho, que carrega a bandeira de que ser técnico é padecer na terra: “Na hora de julgar ninguém lembra do seu histórico”.

Pois é, Muricy está pleno de razão. Nenhum torcedor, nem aqui e nem no Nepal, cata um caderninho do bolso e consulta os resultados pregressos de um técnico antes de vaiá-lo. Não existe reflexão, ela fica para o mundo acadêmico e para alguns dalais. O instinto é quem reina nas arenas. O futebol imita a vida com intensidade cruel. Vigora o presente, é ele o soberano. O passado é quadro na parede e histórias em revistas velhas. O futuro é uma “caixinha de surpresas”.  O soar de “burro, burro. burro” emana da arquibancada para qualquer um, sem distinção. Basta contrariar a visão de quem torce. Quem cede, perde. Quem cala, consente. Não há solução, apenas decisão.



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