Com tabela de clássicos, CBF joga pá de cal na ética



“O homem é bom por natureza, a sociedade é que o corrompe”. Assim o teórico iluminista francês Jean-Jacques Russeau, no já longinquo século XVIII,  descreveu o ser humano, naturalmente bom porém contaminado pelo meio (curiosamente formado por outros originalmente bons que ficaram maus porque outros bons que viraram maus os corromperam.. ufa!).  Bem que a CBF poderia tomar emprestado esse pensamento e apropriá-lo antes de divulgar a tabela do Brasileirão com reta final estadualizada,  como uma espécie de anexo de interesse público: “Os jogadores são bons por natureza, a rivalidade é que os corrompe”. Que tal?

Muita gente está aplaudindo a medida de encher de clássicos a última rodada do Brasileirão deste ano. Para eles, a entidade que comanda nosso futebol (comanda mesmo?) está tomando uma medida profilática, evitando ‘marmeladas’ na hora agá de times que não querem ver rivais históricos campeões, classificados para a Libertadores ou então queiram vê-los no inferno da Segunda Divisão. Mas eu vou remar contra a corrente por achar que a decisão empobrece nosso espírito, suja nossa honra, estende a alma do futebol no varal do nojo. É a admissão de que os profissionais do esporte não prestam e  que se virem uma oportunidade enfiam a mão na lama com gosto. Ou seja, que o meio já os corrompeu há muito tempo.

Os que defendem a medida, além de entregarem os pontos e não esperarem mais um pingo de honra na humanidade, dizem que não há como punir os supostos entregadores, pois estes atuam no terreno da subjetividade. Afinal, como provar o desinteresse de um atleta por uma partida sem sair do achismo? Ah, correu menos, chutou para fora de propósito, fez gol contra porque quis. Só mesmo a confissão do sujeito é que permitiria saber que há manipulação e assim punir os responsáveis. Dessa forma, em um raciocínio didático é o mesmo que para evitar o roubo de um relógio o seu proprietário decida não usá-lo. Sem ele no pulso, não há como ser roubado. Com clássicos regionais na rodada final não há como prejudicar o próprio rival.

É curioso notar que a mesma CBF que resolve impedir as supostas sacanagens argumentou em sua defesa na condenação da Máfia do Apito que “o futebol não tem interesse social relevante e contribui para a desinformação do povo, já de si mal aparelhado intelectualmente”. Se não tem interesse social por que agora essa tentativa de impor a ética a fórceps? Por que não deixar que acreditemos na hombridade de cada um e paremos de colocar todos no mesmo barril? Será que a entidade quer ser vanguardista na arte de provar que a humanidade está falida?

Seria bom perguntar ao goleiro Deola, vaiado pela torcida do Palmeiras por impedir gols do Fluminense que beneficiavam o Corinthians, o que ele acha dessa medida. Porque basta pensar na essência para notar que com essa tabela antifraudes a CBF colocou todos no mesmo bueiro, inclusive o jogador palmeirense, que não parece muito afeito a marmeladas.



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