O ano em que o futebol voltou de férias



Sem frescuras, por favor! Não há razões para ficar de nhenhenhém, poréns, todavias e contudos. O Santos, versão primeiro semestre, foi “o time” deste 2010. Não houve encanto maior (daqueles à Vinícius, que encantasse mais nosso pensamento), nem sombras de competição. A trupe de Ganso, Neymar, Wesley, Robinho, André e adjuntos foi um desses raros fenômenos que se produzem de tempos em tempos no esporte.

Foi um Barcelona que passou como um rio e nossos corações se deixaram levar. Foi uma reprodução do Peixe de Pelé, dos anos 60, com prazo muito menor de validade. Porque é dessa forma, meus amigos, a nossa perversa realidade. Times bons duram pouquíssimo em nossas plagas. O mercado rico, com dentes afiados saliva escorrente, vem e, nhac!, devora as cerejas de nossos bolos.

Fechemos, portanto, as cortinas do ano festejando esse cometa que passou rajante por aqui nos meses de verão e outono. É obrigatório que seja o creme que cobre a retrospectiva anual. Todo mundo saltou às arquibancadas ou aboletou-se nos sofás espumados para vê-lo passar. Os placares eram como os da chamada Era de Ouro, com chocolates de Showbol e resultados incomuns. Em escala evolutiva: 6 a 3 no Bragantino, 9 a 1 no Ituano, 10 a 0 no Naviraiense… E mesmo quando perdia, as redes balançavam sem pudor: 4 a 3 para o Grêmio, 4 a 3 para o Palmeiras, 3 a 2 para o Santo André…

Os amargos, com fel nas veias, tentarão a todo custo relativizar. Para eles, de mentes tumorosas, o time só fez o que fez pela fragilidade dos rivais. Sendo assim, todos os outros deveriam fazer o mesmo. Mas os amargos, com coração imerso em limão, insistem ainda que faltava brilho tático ao time. Não basta atacar, tem que saber defender, dirão. É um semi-árido de pensamento que tenta, em vão, empanar a musa da beleza.

Mas e o Fluminense, do maestro Conca?, me sopram nos ouvidos as ninfas provocadoras. Não dá nem para o cheiro, sedutoras! Foi campeão brasileiro com valor, mas praticou um jogo muriciano, pragmático, de repartição pública. Faltou lirismo! A criança tricolor precisaria de muito arroz e feijão para ter o viço do time de Dorival. O paralelo possível é o do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini: o Peixe foi o futebol poesia, o Flu, prosa.

É certo que aquele Santos, já extinto, ficará para a posteridade. De quebra, deixou-nos as revelações Ganso e Neymar, esperanças de um futuro bom para a Seleção. Mais do que isso: deixou-nos a certeza de que, mesmo no império do resultado, ainda há frestas para a arte penetrar. Sorte, aliás, que os artistas da Vila levantaram troféus, senão seriam acusados de estetas fracassados.



  • Antonio Wilson Rosa Oliveira

    Valdomiro Neto;
    Este seu comentário resaltando o time do Santos Futebol clube, é mais uma prova de que ainda existe no meio futebolistico, jornalista como você que não se deixa levar por escudo, cor da canisa ou paixão pelo seu clube de coração,e que sabe reconhecer o grande momento que passa determinado time. Hoje pela manhã como faça todos os dias, quando estava lendo o Lance, e li a sua matéria fiquei emocionado com cada frase que você fazia com as suas comparações e principalmente aquela do Fluminense.

    Obrigada amigo por exaltar tão bem o nome do meu Santos querido, e a única que faça para te retribuir esta homenagen, é enviando mensagem para todos os Santista roxo para ler o seu comentário.

  • sheep

    brilhante

  • Carlos Muniz

    O mais importatante foi eles teram ganhado os títulos que disputaram se isso não acontecesse seria um prato cheio para os defensores dessa coisa horrorosa chamada de futebol de resultados. 3-5-2 com dois volantões de contenção, 4-4-2 com três volantes sendo dois de contenção, como jogou o Inter no mundial é doze de assistir, tendo meias do quilate de Giulianno, Andrésinho e Oscar no banco. Para quem gosta de um futebol bem jogado o Santos de 2010 foi a melhor coisa não de 2010 mas dos últimos 40 anos.

  • Edson R Santos – Vilhena/RO

    Olá Valdomiro.
    Obrigado mais uma vez, por ser um dos que viram o Santos como uma dádiva do futebol em 2010.
    A gente (nós leitores) precisamos de comentários imparciais, que reconheçam o que há de bom para se lembrar de hoje, e, por vários tempos e gerações. Enquanto houver pessoas como você, que enxergam o futebol como um todo e não como paixão clubística, pois, vocês são formadores de opinião, também, quer queiram quer não, a seriedade do jornalismo esportivo estará salva. Parabéns pelas ótimas colocações. Feliz 2011 para você e todas as pessoas sensatas, principalmente. Que, no ano vindouro você mantenha a mesma serenidade das suas palavras em tão belo post. Parabéns ao Santos, o Novo e Verdadeiro Campeão.

  • Breno França

    Excelente texto, é claro que o fato de ter como enredo o meu querido e amado Santos Futebol Clube contribui para o meu encantamento, mas a forma como diz e trata, e como faz metáforas como se fosse um próprio poeta é realmente encantadora, em poucas linha disse a verdade, o Fluminense foi campeão com todo mérito e justiça, mas sem sobra de dúvidas não teve o mesmo brilhantismo que o time do primeiro semestre que teve o Santos, e mais uma vez vestindo a carapuça de santista, uma vez que não tínhamos mais chances, ver o tricolor das laranjeiras triunfar deixando o auto entitulado todo poderoso, sem ter nada, com o perdão do trocadilho, foi ainda mais saboroso. Você como profissional teve o discernimento de não misturar emoção com a razão jornalística, e mais do que disse o amigo acima, teve um papel de torcedor sim, torcedor do belo futebol brasileiro. Mas uma vez meus sinceros parabéns e também o meu agradecimento! Abraço.

  • Brunodcr

    fantastico o seu post VN, realmente esse time foi avassalador, dava gosto sentar-se em frente a televisão para assistir meu santos jogar…

    mesmo quando perdia o time dava show

    abraço…

  • Carlos Roberto

    Simplismente emocionante e maravilhoso. Como é bom saber que ainda existem jornalistas imparciais na cronica esportiva.
    Parabens e feliz 2011.

  • R

    Falar que o Santos do primeiro semestre, que só jogou um paulistinha contra times ridículos, e diga-se de passagem quase perdeu a final, e uma copa do Brasil capenga, foi um timaço comparado ao BARCELONA é sacanagem.

    Abs.

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