O ano em que fui campeão do mundo



Dia 17 de julho de 1994. Lembro-me com clareza. Pela primeira vez via o Brasil ser campeáo do mundo. Nasci em 78 e, portanto, desconhecia esse sabor. Ouvia os relatos de 58, 62 e 70 com certa inveja, posta abaixo da deferência, naturalmente. Mas é incrível como um título mundial fica gravado. Era adolescente e vinha de um trauma em 90. Aquela derrota da trupe de Lazaroni quatro anos antes fora um pesadelo. Lembro-me que criança, em Santos, chorei pintangas e outras frutas após o gol de Cláudio Caniggia. Doeu tanto que recusei-me a ver Alemanha x Holanda, um jogaço, que aconteceria poucas horas depois também pelas oitavas de final.

Voltemos a 94. Cheguei do curso de inglês pronto para acompanhar a estreia brasileira. Os russos seriam os oponentes. Rússia que disputava pela primeira vez um Mundial como país indepenente. Antes, era a principal república do gigante soviético. Raí e Romário estenderam-nos o tapete para a festa. E que festa! O Baixinho, que um ano antes nem era convocado por Parreira. Foi chamado após o clamor popular e, principalmente, o tremor de uma inédita ausência em Copas. E destroçou os uruguaios no Maracanã.

Segundo jogo. Camarões pela frente. Os Leões Indomáveis vinham com os adereços da simpatia de 90, quando foram a grande sensação. E só não conseguiram a façanha de chegar às semi porque resolveram sambar contra os ingleses. Mas em 94 já não eram tão tamborilantes. Os chocalhos foram engolidos pela seleção canarinho. 3 a 0, um baile! A única vitória com sobras daquele Brasil menos brasileiro e mais pragmático.

Para encerrar a primeira fase, os suecos e a briga pela liderança do grupo. E uma novidade. O Brasil faria sua primeira partida de Mundial em um estádio coberto. Algo estranho e combinante com uma Copa nos Estados Unidos, pátria meio avessa ao soccer. Taffarel levava seu primeiro gol na competição do esguio Keneth Anderson. Romário, como havia acontecido nos dois primeiros confrontos, deixaria sua marca. E manteria a invencibilidade brazuca.

Agora era, como diz o clichê galvanesco, tudo ou nada. Mata-mata, quem perde vai para casa… E no dia 4 de julho, data da Independência norte-americana, os rivais seriam os anfitriões. E já não podíamos dizer que eram analfabetos com a bola nos pés. Tinha um zagueiro mais para roqueiro, Alexis Lalas, e muita vibração.Jogo duro, suado. Leonardo, o bom moço, solta o cotovelo e leva o vermelho. Um a menos, mas a camisa prevaleceu. Golzinho solitário de Bebeto e estamos nas quartas. E o que era melhor. Não haveria uma Argentina novamente pela frente. A Romênia, com o maestro Hagi, e o doping de Maradona acabaram com o sonho do tri celeste.

Nas quartas um jogo marcante, dos maiores daquele Mundial. Contra a Holanda, a Seleção abre 2 a 0 com direito ao famoso gol “Embala Nenê”de Bebeto. Mas a Holanda faria dois tentos-relâmpagos e o batimento cardíaco foi aos píncaros. Só que um predestinado Branco, com um movimento bailarino de Romário, faria o gol salvador. E Zagallo indicaria: faltam dois! E outra boa notícia: os tricampeões alemães também estavam fora. Eliminados por uma surpreendente Bulgária, de Stoichikov e Lechkov, que já haviam engolido a Argentina na primeira fase.

Semifinais e um adversário repetido. A Suécia, que tinha superado a Romênia, sensação de torcedores e mídia naquele momento. Jogo nervoso, mas sob controle em time duro e marcador. Gol de cabeça de Romário. De cabeça? É, meus amigos, vencer com gol de cocuruto do Baixinho era sinal de que após 24 anos o título mundial estava destinado pelos deuses àquela equipe. Na outra disputa por vaga, a Itália contava com um Baggio iluminado para romper a Bulgária e montar o tira-teima de 70: Brasil x Itália. Quanta ironia! O país do futebol poderia encerrar o jejum contra a Azzurra, sua vítima última em decisáo e sua carrasca na dolorosa eliminação da Sarriá, em 82.

Quem vê o belíssimo “Todos os corações do mundo” pode testemunhar o fuzilamento de Romário em Baggio na entrada de campo. Era a vocação para o triunfo. Jogo tenso. Primeira final de Copa em que o placar fica imóvel. Chute de Mauro Silva e Pagliuca solta bola fácil, simples. Mas ela, caprichosa, soca a trave e volta para as máos do goleiro. Ele, respeitoso, beija a sua cúmplice. Na prorrogação, quase um herói inesperado. Viola poderia ter feito um gol memorável. Mas tinha que ser nos pênaltis! Emoção ã flor da pele. E que castigou os ídolos azuis. Pois Baresi e Baggio perderam. E eu vi pela primeira vez o Brasil campeão do mundo.



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