Obrigado, LANCE! Por tudo e por todos

por Mauro Beting em 01.mar.2016 às 11:59h

Obrigado por tudo e pra todos

 

Gol de placa

 

No sábado fará 55 anos do lance em que Pelé driblou meio Fluminense até marcar o “tento mais bonito da história do Maracanã”. Está assim na placa que um repórter do jornal “O Esporte’” de São Paulo escreveu com o editor Walter Lacerda. Esse repórter esportivo pendurou as chuteiras logo depois. Ele era mais palmeirense que jornalista. Não conseguiu separar as bolas. Foi trabalhar com jornalismo econômico. Acabou virando um Pelé da área.

Sou meio suspeito para falar do jornalista esportivo que, em 1961, criou a placa do gol. Também virei suspeito para falar de Pelé que, em 1999, deu uma placa ao autor da placa que criaria a expressão gol de placa. Sou um dos curadores do Museu Pelé.  Meu gol de placa por estar há 25 anos trabalhando em jornal, rádio, TV, internet, livros, documentários, exposições, museus, videogames. Conquistando via LANCE! e LANCE.COM prêmios jornalísticos que jamais imaginaria receber.

Mas nada do que eu tenha feito em 25 anos de jornalismo esportivo supera o que meu pai fez há 55. A placa do gol de placa de Pelé. Também por ela, quando Joelmir Beting morreu, em 2012, o Santos, pelas mãos de Neymar, deu à família uma homenagem tão linda como a do Palmeiras da família, que entrou em campo com uma camisa com a frase que meu pai escreveu no vestiário do Palestra Italia: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense é simplesmente impossível”.

Meu pai não conseguiu separar o amor incondicional pelo clube do jornalismo esportivo. Há 25 anos eu tento. Sou jornalista futebolístico desde 1990 por ser palmeirense desde 1966. Tenho o dever de não distorcer pelo meu clube enquanto jornalista, mas tenho o direito de ser torcedor dele até além do além. Um dia vou me aposentar do jornalismo. Mas jamais do meu primeiro amor incondicional. Nasci amando meus pais e nosso Palmeiras. Como você talvez seja, e odeia quando eu ataco o Verdão, ou não o defendo. Se você não é verde, talvez tenha gostado dos meus textos para o Corinthians (o do centenário estava na porta da sede da Gaviões). Se são-paulino gostou dos textos de Ceni e dos prefácios de livros. Se santista, não só do Museu Pelé, mas o livro do Neymar, e outros textos. Se Flamengo, o livro de 1981. Se Vasco, ao menos um texto para o site oficial. Tenho textos em livros do Botafogo. Escrevi livro do Galo de 2013. Prefácios do Cruzeiro. Textos oficiais ou não para Inter e Grêmio.

Mas texto difícil, mesmo, é este. O último para o LANCE!. Foram 10 anos de alegria e aprendizado. Companheiros, coleguismo e fé no jornalismo sério feito por jornalistas que não precisam ser tão sérios. LANCE! que me fez ser mais reconhecido pelo meu texto carregado de paixão e, também, pieguismo. Amor é assim. Futebol é ainda mais. Sou um cara de raiz. Difícil trocar de lar para morar e mesmo de casa para trabalhar. Eu me afeiçoo. Ainda mais por um veículo que assino desde o primeiro número. E continuarei fiel, opa, leal leitor. Como o jornal sempre foi um grande colaborador e incentivador do esporte.

Não é fácil separar. Dizer adeus. É preciso driblar meio mundo, como Pelé fez há 55 anos. É preciso tomar decisões, como meu pai, logo depois, fez ao abandonar o jornalismo esportivo. Mas, muito mais importante, é preciso fazer o jornalismo. Buscar a melhor versão possível dos fatos. E, no futebol, ainda que fartos de muitas coisas erradas, e com riscos de infartos e outras doenças, é preciso sair driblando para escrever uma nova história.

Saio do LANCE! hoje. Mas ele continua comigo desde 1997, quando lançado, desde 2006, quando ele me laçou em outro jornal. Não largo o jornalismo esportivo. Tenho ainda bastante coisa a escrever para quando meus netos forem conhecer minha história. Eles saberão que um dos gols de placa que o avô marcou foi trabalhar 10 anos no melhor jornal de esportes do país do melhor futebol do mundo.

Obrigado, LANCE!, pelos meus dez anos nota 10.