Coritiba, 101

por Mauro Beting em 12.out.2010 às 13:45h

A pedidos, reproduzo o texto do blag a respeito do centenário.

O Bangu era o Rio na final do BR-85. Todas as bandeiras cariocas se uniram pelo clube do subúrbio. O rival no Maracanã só defendia as próprias cores. Era zebra. Era a sina do Coritiba. É o fardo de qualquer time de Curitiba. Precisa não só vencer os rivais. Também a desconfiança geral.

São tantas barreiras que até o gol do título teve de superar duas delas; a primeira criada pelo competitivo time do treinador Ênio Andrade: dois coxas ficaram à frente da barragem do Bangu. Quando o centroavante do Coritiba correu para fazer história, cada um foi para um lado, a bola foi no ângulo do goleiro Gilmar. Golaço do time dos alemães Hauer. Labsch. Dietrich. Iwersen. Juchks. Obladen. Kastrup. Maschke. Schlemker. Essenfelder. Sobrenomes alemães do primeiro quadro do Coritiba, há 100 anos. Campeão brasileiro nos pênaltis naquela última noite de julho de 1985. Título que começou a ser ganho naquele gol de Índio – nada mais brasileiro.

Rafael. André. Gomes. Heraldo. Dida. Almir. Marildo. Tobi. Lela. Índio. Édson. Onze nomes curtos. Onze gigantes grafados no Alto da Glória. Do primeiro jogo em Ponta Grossa em 1909 à partida da vida coxa-branca em 1985 no Maracanã tem toda uma história. Toda uma torcida que sabe como foi duro ganhar jogos, campeonatos, respeito e admiração. Como é complicado ganhar manchetes no Sudeste. Como é botar um jogador na seleção em três Copas como um 11 que corria pelos 11 – Dirceu. Como é não ter visto um camisa 10 como Alex jogar um Mundial pelo Brasil. Como foi difícil uma bandeira paranaense defender a verde e amarela do jeito que o Coritiba se superou em 1985.

Aquele tiro longo de Índio pareceu levar um século para entrar. E ainda parece que foi ontem. Vieram dores, desamores, derrubadas. Rebaixamentos no tapetão, puxadas de tapete do Clube dos 13, quedas no campo. Acessos no gramado, acessos de raiva por desatinos e destinos mal traçados e bolados. Barreiras que puderam ser superadas com fé. Com coração. Nas coxas bravas e brancas.

De um clube que vence preconceitos. O time dos alemães que foi o maior do Brasil com um gol de Índio numa falta sofrida pelo negro Tobi. O meia foi derrubado por um banguense de camisa branca no estádio Mário Filho, jornalista autor de “O Negro no Futebol Brasileiro”, clássico da literatura esportiva que explica um dos tantos motivos do sucesso brasileiro nos campos – a rica aquarela étnica do país de coxas brancas, pés negros, pernas mulatas, cabeças amarelas, sangue vermelho, e coração verde de esperança.

Bangu pioneiro na escalação de negros entre as elites alvas do Rio e do Brasil no início do século passado. Bangu que vestia todas as cores cariocas na decisão do Brasileirão de 1985, no Maracanã. Foi o Rio inteiro contra o primeiro finalista paranaense do Brasileirão. O Coritiba de campanha irregular, de saldo de gols negativo, que tinha de enfrentar o colosso do Maracanã como zebra. Como um time que superara rivais melhores – ou mais “qualificados” nas manchetes, não no gramado. Um time que venceria nos pênaltis mais um “favorito”. Calando mais uma vez os gritos contrários. O “quinta-coluna” dos anos 40 de guerra mundial era o primeiro do Brasil na redemocratização da Nova República em 1985. Nascido no Dia da Padroeira do país, em 1909.

Parece mentira. Como era “mentira” o apelido do craque daquele ano, o ponta-direita Lela. Tinha perna curta. Coxa grossa. E era coxa firme. Como foram de corpo e alma Fedato, Duílio, Krüger, Bequinha, Miltinho, Zé Roberto, Alex, Ivo Rocha, Tostão, Hidalgo, Leocádio, Tonico, Neno, Nilo, Jairo, Pizzatto, Pizzattinho, Rei. Nomes e apelidos estrangeiros e brasileiros. Rima que foi solução. Que virou seleção. Que virou campeão. Com garra, força e tradição.

Parabéns, Coritiba. Parabéns pelos próximos 100 anos. Estes já são história. E quantas histórias.

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  • http://futdodih.blogspot.com/ Diego Oliveiras Freitas

    Parabéns Coritiba, um dos maiores entre os menores.

  • http://www.flanews.com.br Anderlei – Blogueiro do Flanews

    Um fato triste: o Coritiba caiu para a 2ª divisão justamente no ano do seu centenário.

  • Luiz Fernandes

    Parabéns Mauro pelo texto brilhante para um clube brilhante. o Coritiba é campeão das Séries A e B e é SIM um clube grande do futebol brasileiro. É tão grande quanto Botafogo, Fluminense, Atlético MG, porém recebe menos destaque pela mídia favorecedora do Rio Sampa Minas.

    Coritiba um clube centenário, meus parabéns…

  • sidnei

    Parabens por lembrar do aniversario de um clube que não é do eixo rio são paulo.
    sou de curitiba, mas não sou coxa branca, mas tenho simpatia pelo time pois é o time de coração de meu falecido pai. quando ainda torcia por um time do Brasil, torcia pelo parana clube, desisti de torcer por times daqui a partir do momento que no meio do brasileirão os melhores jogadores iam
    para o mundo arabe ou leste europeu, um ou outro para um grande clube.
    agora torço de coração para o barça e tenho o coração azul grená desde pequeno sinto isso!
    mas sempre é bom ver um futebol bem jogado e a historia de todos os times do brasil lembradas, não apenas os do eixo rio são paulo !
    parabens admiro muito seu trabalho

  • Renato Mascarenhas

    Saudades do boteco. Quando volta?

  • Rafael

    Parabéns Mauro, sensasional o texto, e diz muitas verdades. Eu tive a sorte de nascer no ano do título brasileiro do Coritiba, e meu nome é em homenagem ao goleirasso Rafael. Concordo que o Coritiba precisa de mais respeito e reconhecimento. O maior, mais tradicional e vitorioso clube do estado do Paraná, homenageado na bela camisa dos 101 anos, merece sim destaque como o Galo, o Flu, Botafogo. Em conquistas, temos praticamente as mesmas. E olhem para este ano de 2010, a superação do Coritiba, Campeão Paranaense pela 34ª vez, uma das maiores supremacias estaduais no Brasil, e no Brasileirão da Série B, teve que jogar dois terços dos jogos fora de casa, e é líder isolado da competição, que mesmo que pensem diferente, é de alto nível e tem grandes clubes. Pode ser esse ano o quinto título nacional do Coxa, o primeiro clube do sul a conquistar um título nacional, o Torneio do Povo de 1973. Coxa, clube do Alto de tantas Glórias, time de alma guerreira, torcida que nunca abandona. Parabéns Mauro, parabéns Coritiba, que venham mais 101 anos de vitórias.

  • Pedro Ferreira

    Parabéns ao COXA maior Alvi-verde do Brasil né Mauro? rsrsrs

  • http://www.youtube.com/watch?v=-URSktKdrWo elias

    parabens hó glorioso com é bom te ver campeao de novo. 101 anos de glorias e de tristeza pelo rebaixamento mais esse ano vc estara de volta foi só um passeio la na segundona pra ensinar eles como é ser um time de primeira na segunda até breve

  • VITALINO LOURENÇO BONACIN

    Mauro: Parabéns pela matéria e ao GRANDE VERDÃO COXA BRANCA. Dá-lhe coxa!!

  • nelson

    MEUS PARABÉNS AO COXA, MAS NÃO MERECIA OQUE A SUA TORCIDA FEZ NO ANO PASSADO É SIM 1 TIME GRANDE DO BRASIL, MAS TEM 1 TORCIDA UNIFORMIZADA COM MENTALIDADE ATRAZADA E PEQUENA QUE DEIXOU 1 MARCA TERRIVEL NESTE CLUBE TÃO HONRADO E DIGNO DE HOMENAGENS…..

  • http://twitter.com/lucaspierref Lucas Pierre

    Excelente texto. Vida longa a Mauro Beting. Vida longa ao Coxa!

  • Paulo

    Diego Oliveira Freitas

    Muito infeliz o seu comentário,vc não deve sequer atleticano,vc deve ser anti futebol !
    ou alguem muito magoado com o Coritiba

    Ao Mauro parabêns pelo comentário,pois isso é o minimo que nos desportistas de verdade esperamos de um Jornalista imparcial de verdade !

  • Milton de Oliveira

    Mauro Beting, meu chapa.

    Nada em relação ao Coritiba, mas sim a alguns trechos de alguns comentários postados aqui.

    Que critério um analista utiliza para chamar esse ou aquele de ‘grande’?

    Às vezes a coisa embola.

    Um exemplo, o Atlético Mineiro tem um título brasileiro com mais de 30 anos. Uma segundona nas costas. Sempre é incluído entre os grandes. Nesse caso o critério é torcida?

    Se o Atlético Mineiro é grande, o Atlético Paranaense, por exemplo, é maior.

    Também é campeão brasileiro, tem estádio, torcida e já disputou final de Libertadores.

    Aí, nesse caso, o Coritiba é grande, também.

    O Bahia, sem ter ganho nada foi colocado entre os grandes pelo clube dos treze na época da Copa União.

    Um ano depois, foi campeão. Tinha estádio, torcida e caiu. Continua grande?

    É uma discussão…

    Para mim, grande é quem tem pelo menos três títulos nacionais (brasileiro e copa do Brasil), e que não tenha caído mais que uma vez.

    Os critérios são duvidosos, mas são os únicos que tenho no momento.

    Como você definiria um ‘grande’?

    MILTON, excelente questão.
    Honestamente, são muitos os critérios.
    sabemos que são grandes os 4 do Rio (o América foi grande, e merece ainda fazer um “clássico” com os demais cariocas), 4 paulistas (a Lusa entra nessa história, mas com muito mais força, os 2 mineiros (o América também, entre o carioca e a Portuguesa), os 2 gaúchos.
    G-12.
    Mas os dois maiores do Paraná podem entrar em alguns quesitos. Ba-Vi também. Goiás. O trio elétrico pernambucano…

  • RODRIGO

    1985 E 2001 JUNTAMENTE COM TITULOS DE CRICIUMA, PAULISTA E SANTO ANDRE SÃO AS MAIORES ZEBRAS DO FUTEBOL BRASILEIRO DE TODOS OS TEMPOS