Infinita Paixão Centenária

por Mauro Beting em 01.set.2010 às 12:56h

Infinita paixão centenária

Vitor Guedes, Colunista do Agora São Paulo

Quem é corinthiano, e só quem é corinthiano, sabe a dádiva que é ser corinthiano, tem ciência de que não há momento oportuno ou mais importante para ser Corinthians. Todo ano, todo mês, todo dia, todo minuto, todo segundo é a sagrada hora de ser Corinthians do ser Corinthians. Em todos os cantos do mundo. O importante é que, em qualquer tempo, em todas as maternidades de São Paulo, do Brasil, da América Latina e do planeta, novos seres humanos maculados pelo dominante e benigno gene do corinthianismo chegam orgulhosamente ao mundo. Já chorando, ritual de iniciação ao sofrimento intrínseco do ser corinthiano.

Seja rico ou pobre, more bem ou seja suburbano, caipira ou urbano. Vencer, perder e empatar são para os outros, para as outras torcidas de inveja embebecidas, entorpecidas pela incredulidade de constatar a nossa instintiva felicidade. Alegria que de tão corrosiva arde. Ser Corinthians não é opção, é herança, bonança desde bem criança, um estado de espírito. Evoluído como o de Chico. Abençoado destino, sublime desatino. É o passaporte para um mundo de emoção em regime de comunhão vitalícia e total de bens com 30 milhões de irmãos, manos e minas. Que de forma irmã se congratulam desse amor infinito. Muito mais bem sentido do que dito. Bendito. Nada é mais bonito.

Ser Corinthians é fazer parte do mundo todo e viver à parte, com mosqueteira arte. Destilar estilo. É ter o peito marcado, viver com o coração apertado, ganhar o seu suado, enfrentar busão apinhado, trem superlotado e não se sentir estorvado.

Ser Corinthians é crer no dogma do impossível. Acreditar sempre que tudo é possível, crível, verossímil, embora, orgasticamente, sempre mais difícil.

Ser Corinthians é democrático, é para qualquer um, não descarta nenhum, não é ser um qualquer. É viver na base do bem-me-quer.

Ser Corinthians é vivenciar Corinthians, não condicionar, sempre estar Corinthians, viver apaixonado, amar e se sentir continuamente amado. Sentimento mais do que desejado. Guardado, cravado no coração com indomável devoção. Fidelidade cultivada com religiosidade.

Ser Corinthians é o alvinegro e cristalino sinal de civilidade que não tem idade. Não exige reciprocidade. Do recém-nascido à melhor idade, perpétuo compromisso com a felicidade, é dominar a rua, o bairro, toda a cidade.

Ser Corinthians é extravasar fronteira, assumir a dianteira, ser sempre a primeira. Em presença, decência, é respeitar a dócil sina de popularidade com respeitosa indulgência ao pobre coitado que pensa o contrário. É ser popular sem apelar para o popularesco. É ignorar o dantesco, o nababesco, é ser povo único, genuinamente pitoresco. Multiplicai-vos, essa é a missão da nação corinthiana. Quem sai dos seus não degenera. A alma vocifera à vera. O corinthiano é mortal, a razão de sua existência, não.

Infinita paixão centenária. Vida eterna ao Corinthians! Afinal, a própria vida é você!

ADENDO DESTE BLOGUEIRO –
Quem, como eu, não sabe o que é Corinthians, ouviu em São Paulo, e deve ter ouvido em outros lugares, o foguetório na virada de agosto para setembro. O barulho centenário corintiano.
Quem, como eu, não esteve no Anhangabaú, não sabe o que perdeu. Se é que se perde algo com imensa paixão.

Parabéns, mais uma vez, ao centenário Corinthians. E também ao centenário Noroeste.
E a quem torcendo alguém que escreve, pensa e sofre, graças a Deus, como o caríssimo Vitor Guedes.

ADENDO DA JORNALISTA MARILIA RUIZ

100 anos de Corinthians? Não, não…

O centenário é dos corinthianos, com “h”, como todos que são sabem bem escrever.

O centenário é do povo que foi lembrado desde o primeiro segundo da vida do Sport Club Corinthians Paulista, quando o primeiro presidente profetizou naquela madrugada, sob a luz de lampião, ladeado por outros operários, no bairro do Bom Retiro (São Paulo), que aquele clube seria “o time do povo” e o povo faria a história alvinegra.

Não se trata de uma amor de torcedor qualquer. O Corinthians não tem torcida como qualquer outro rival. É a torcida que tem o time. E esse é o segredo da fé.

E é essa fé fiel inabalável que comemora hoje um centenário de um amor unilateral, irracional, dolorido e recompensador.

Ninguém se torna corinthiano. Ou se é ou não – azar.
Corinthiano nasce.
Corinthiano é… corinthiano.
Sofre e não esmorece.

Ama – com tudo (ama muito) ou nada em troca (ama ainda mais).
Ama na vitória e ama mais na derrota.
Ama na alegria e ama profundamente na tristeza.
Ama na saúde e cuida amando mais ainda na “doença”.

Nunca, nunca abandona.

O amor alvinegro é narcisista.

Corinthiano não gosta de futebol-arte. Gosta de Corinthians.
Corinthiano não gosta de goleada. Gosta de Corinthians.

Corinthiano gosta do Corinthians corinthiano: do povo, guerreiro, vez e outra desequilibrado, maloqueiro, provocador, protagonista.
Corinthiano gosta de um Corinthians raçudo.
Gosta do Corinthians de Basílio. Do Corinthians do Casão. Do Corinthians do Neto. Do Corinthians que joga aos 47 minutos do segundo tempo como se não houvesse amanhã.

Hoje é dia da festa do centenário desse sentimento.
Dessa adrenalina que só quem é abençoado por São Jorge possui .
Ah, que bobos aqueles que pensam que o ano é do “centenada” _referência à ausência de títulos em 2010.
Claro que todo corinthiano sonha com faixas, títulos e glórias. Não conheço nenhum, entretanto, que ame menos o clube. Ao contrário, bem ao contrario.
Mas só quem é me entende. Só quem é sabe o que é.
Em nome do Pai, do Filho e de São Basílio, pé-de-anjo. Amém.

ADENDO DO BLOGUEIRO KADJ OMAN

http://manihot.wordpress.com/2010/09/01/cem-anos-sem-solidao/

Sempre que me perguntam como eu me tornei torcedor do Corinthians, eu conto a historinha oficial: meu pai, carioca, me explicou os times de São Paulo e se ofereceu pra me levar em um jogo de cada. No primeiro, São Paulo 1 x 2 Atlético-MG, no Palestra Itália. Não gostei. No segundo, não lembro onde nem contra quem, fui ver o Corinthians. E acabei não vendo: a torcida me ganhou tanta atenção que na memória ficaram só o som e as imagens trêmulas daquela imensidão de gente cantando e dançando. Ali, sempre digo, me tornei muito mais que torcedor: me tornei corinthiano.
Hoje, quando o Corinthians completa 100 anos, percebo que talvez seja hora de reparar essa versão. Porque não me tornei corinthiano ali, pelos idos de 1989 ou 1990. Foi antes. Bem antes.

Eu não era nascido em 1910, 1914, 1916, 1922, 1930, 1954, 1968, 1976, 1977. Mas hoje, quando eu abro qualquer um dos vários jornais que comprei pra mostrar aos meus filhos o dia em que fiz 100 anos, me vejo nas imagens daquelas épocas e sinto algo estranho, algo talvez indizível. Estou ali, contra as leis do tempo cronológico. Estamos ali, eu, meu pai, minha avó e tanta gente mais que por 100 anos escreveu por linhas diversas uma mesma história. Não essa história por vezes chata e oficial, cheia de números. Uma história de pessoas, de lágrimas, sorrisos, abraços e brigas. Uma história que tem os olhos marejados de meu pai em 1993 tentando conter meu pranto, os gritos de minha vó ao telefone em 2005, o chute no armário que quase quebrou meu pé em 2008, as longas horas de volta de Porto Alegre em 2007, o título em silêncio com meu pai em coma em 2009. Que tem minhas gatas, minha cachorra, minha mãe – sempre – e meus irmãos palmeirenses. Que tem minha irmã são-paulina. Uma história que não dá pra diagramar, analisar ou relatar: uma história de contos, de boca a boca, riso a riso, olho no olho.

O Corinthians não é um clube de futebol, tampouco uma religião, como brincam. O Corinthians é o Corinthians. Um sentimento, como o amor, a tristeza, a saudade. Um jeito de ser, de falar, de ouvir, de cantar, de dançar. O Corinthians não é nada sem mim – ou sem qualquer um dos 30 milhões de corinthianos – e eu não sou nada sem ele. O Corinthians não é família, nem lazer de fim de semana, nem festa. O Corinthians é. Simplesmente é.

Levantei neste primeiro dia de setembro de 2010 sem saber direito como comemorar 100 anos de Corinthians. Como se comemora o fato de ser? Passei o dia remoendo isso. Percebi que é só continuar sendo. Como sempre. Porque o Corinthians é. E nós somos. Como um verbo, um imenso verbo que eu aprendi a conjugar sempre no plural desde que um dia, na Grécia Antiga, um filósofo de nome Sócrates avistou um bando de loucos dançando e cantando aparentemente sem motivo e disse “Vai, Corinthians”.

Hoje, fazem 100 anos que nós respondemos: vamos.

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