Internacional bicampeão da Libertadores – De 2002 ao futuro

por Mauro Beting em 19.ago.2010 às 2:33h

23h25.
Quarta-feira, 18 de agosto de 2010.
Rafael Sóbis tenta passe de cabeça para Kléber e dá a bola pro mexicano, no Beira-Rio. Torcida vaia e chia em mais um erro do atacante que iria ser sacado em seguida. Mas… 42 segundos depois, é dele o pé salvador, como em 2006, no Morumbi, para empatar a decisão, depois do passe de Kléber.

23h37. Leandro Damião estreia na Libertadores, enfim substituindo Sóbis, como já deveria ter acontecido. Com 20 segundos, na primeira bola, num acidente de jogo, rasga a testa de Tinga, que sai ensanguentado do gramado. O Inter fica com um a menos.

23h40. Leandro Damião conclui seu quarto toque na bola para dentro do gol mexicano. Em 3 minutos e 17 segundos, faz o golaço da virada, desde o meio-campo.

23h42. Tinga retorna com o calção vermelho de sangue. Outro campeão predestinado que voltou para gritar o que berrara em 2006.

23h54. Giuliano fecha o ciclo dos iluminados marcando o mais belo gol da festa. Pés quentes e calibrados dentro e fora de campo. Mais um belíssimo nome na galeria de Gabirus gaudérios.

23h58 – Começa a festa. O Inter é bi mais que merecido da Libertadores. É o maior campeão da segunda metade da década.

0h29 – O Libertador Bolívar ergue a taça.

2h13 – Coloco o ponto final nestes minutos e segundos do primeiro da América.
Mas quem pode terminar com essa história?
É só o princípio para um clube que beirava o precipício há oito anos.

Voltemos ao começo de tudo. Quando nada se esperava.

17h22.
17 de novembro de 2002.
Mangueirão.
Paysandu 0 x 0 Internacional.
BR-02.
O resultado rebaixava o Colorado para a Série B de 2003. Até Fernando Baiano escapar pela direita e bater cruzado para Mahicon Librelato entrar de canhota e marcar o último gol dele. Morreria 11 dias depois, num acidente de carro.

Mais três minutos no calor de Belém, aos 16 do segundo tempo, Fernando Baiano chutou transamazônica falta que o goleiro Robson aceitou. O 2 a 0 encaminhava a salvação colorada. Ainda outros três placares precisavam ser perfeitos. Foram.
17h57 daquele domingo, o Inter estava salvo.
Não caíra de divisão como o rival.
Mas ainda não tinha as mesmas glórias do desporto internacional.

Mesmo salvo, além de perder Mahicon, o Inter não tinha mais elenco no início de 2003. Seis sob contrato em janeiro. A solução era apostar numa molecada combinada com experientes como Clemer, que esteve em Belém, ajudando a salvar o Inter. Goleiro que em quatro anos estaria auxiliando o clube a dar a volta olímpica e futebolística no Japão. Campeão da América e do mundo. Como vai tentar mais um caneco o agora preparador dos goleiros colorados. Bicampeões da América.

Clemer saiu do Mangueirão exausto, em 2002. Os colorados fizeram festa de título no gramado paraense. Só porque não teriam de passar pela vergonha cada vez mais presente de rebaixamento para os grandes. Para muitos, passaram outra vergonha ali, apenas celebrando a obrigação. Para a história, de fato, começava a construção de uma das mais belas histórias do futebol brasileiro.
E sul-americano.
E Internacional.
Mundial.

Colorado que sofreu até a última bola contra o Banfield, este ano.
Que quase não viu o gol embrumado de Giuliano contra o Estudiantes.
Que sofria com um futebol pequeno com Fossati.
Que virou o nariz quando Roth chegou ao Beira-Rio.
Que quase não teve como ver a pressão são-paulina no fim do jogo no Morumbi.
Que quase não teve coração para suportar as duas viradas contra o Chivas.
Colorado que sofreu como tantos para reconquistar a América (como poucos).
Mas tudo isso é quase nada perto da dor daqueles jogos finais de 2002, com cinco derrotas e um empate. Quando o pesadelo virou alívio em Belém para recomeçar um time despedaçado em um clube quase falido.

Hoje, campeão de quase tudo, e maioral entre sócios-torcedores, mais torcedores que sócios. Mais alegres que quaisquer outros na metade final desta década. Gigantes como o Beira-Rio ainda maior. Porém pequeno para tanta taça. Para tanta história e glória que começaram num domingo de dor, em 2002.

Como dizem aquelas faixas que sempre se veem nas arquibancadas, “Librelato Vive”.
Viva o Inter ainda mais vivo.

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