Muricy, o ex-novo treinador do Brasil

por Mauro Beting em 23.jul.2010 às 17:17h

Sim. Mais uma vez nada soubemos de Ricardo Teixeira.

A imprensa. O Polvo Paul. E até Muricy não tinha a menor ideia de quem seria o novo treinador da Seleção. Provavelmente, e como sempre, o presidente da CBF também não sabia. Esperou ver quem liderarava o BR-10 até a noite de quinta-feira e fez a escolha. Brincadeira, claro. Mas vindo de onde veio, não duvido nada.

Muricy Ramalho, o Mujica para os poucos amigos íntimos, e para os muitos colegas de bola, é um sujeito sério. Boa praça. Excelente para conversa de bar, não para coletiva de imprensa (algo que ele precisará aprender urgentemente. Porque, sabidamente, não é bom brigar com jornalista. No Fluminense, no Barradão, ou na CBF).

Ele é ético. É sério. É ótimo. É trabalhador. É estudioso. É apaixonado pelo que faz. É ranheta. É bravo. É fechado. É desconfiado. É de pouca conversa. É de nenhuma conversinha. É independente. É impaciente. Não se dobra. Multiplica-se. Sabe reformular com inteligência um grupo (sem aquela burrice teixeriana de jogar fora tudo que deu errado – e até o que deu certo – em 2010). Sabe se adpatar às dificuldades. Sabe trabalhar e planejar a longo prazo.

Mas precisa aprender a contar até dois.

No Inter vice-campeão brasileiro de 2005, a base do time na arrancada final era um 4-2-2-2, com dois meias como laterais (Elder Granja e Jorge Wagner), dois meias (Tinga e Ricardinho) que compunham bem o meio-campo nas tarefas mais defensivas. Mas, em grande parte do campeonato, Muricy usou um esquema com três zagueiros. Base do São Paulo tricampeão nacional. Em 252 jogos pelo São Paulo, de 2006 a 2009, Muricy usou um esquema com três na zaga em 187 jogos. No Palmeiras, de 2009 até fereveiro de 2010, foram apenas nove das 34 partidas pelo clube. No Fluminense, em 12 jogos, apenas em quatro ele se utilizou do esquema com três na zaga. Muito mais para resolver questões de criação no meio-campo, ou pela característica dos laterais, muitas vezes muito mais ofensivos que defensivos. Muito mais alas que laterais.

Ainda assim, no São Paulo, Muricy conseguiu fazer com que o ala-direito Ilsinho aprendesse a marcar pela lateral. Outro ponto forte da carreira do competente treinador. Ele sabe preparar jogadores jovens. Até para desempenharem funções distintas. Foi assim que adaptou o meia Hernanes como volante, em 2007. É assim que pauta a carreira vitoriosa. Não costuma moldar seus times às ideias pré-concebidas. Como inteligente e trabalhador treinador que é, Muricy sabe que precisa se adaptar ao elenco que tem. Como selecionador, poderia demonstrar que sabe montar elencos competitivos e fortes. A questão é saber se conseguiria aliar a reconhecida capacidade de formar equipes compactas e rápidas ao apelo por um time mais ofensivo e, digamos, “brasileiro”.

Uma coisa seria diferente do time de Dunga, em 2010. Muricy não gosta de atuar com apenas um homem à frente. O 4-2-3-1 de Dunga na Copa não é esquema dileto de Muricy. No São Paulo, por exemplo, apenas 17 vezes usou essa formação.

Seria um bom nome para o Brasil. Não o ideal, como Felipão. Mas um bom nome. Porém, assim como o palmeirense, Muricy é homem de palavra. Havia empenhando na véspera com o Fluminense. E a manteve, apesar do convite quase irrecusável. Mas recusado. Se por ele ou pelo Flu, pouco importa.

Muricy pode ter feito o que fez Dino Sani, em 1970, ao não aceitar substituir João Saldanha, amigo e a quem auxiliara no comando da Seleção. E para o lugar de Dino foi Zagallo, campeão mundial quatro meses depois.

Como fez Felipão, em outubro de 2000, ao não se achar preparado para assumir a Seleção em crise, dois meses depois de começar a dirigir o Cruzeiro. Felipão que, em junho de 2001, resolveu assumir a bucha. E, um ano depois, celebrar o penta mundial.

E agora, Ricardo?

Reitero: como o presidente da CBF, não tenho a menor ideia do que fazer.

Só sei que saio mais fã de Muricy. Muito mais do homem que do treinador.

P.S.: Só uma coisinha: não era mais fácil Ricardo Teixeira ter conversado na casa de Muricy, ou na de um amigo em comum? Evitaria o desgaste de todas as partes. Sobretudo do treinador e do clube que disserem “sim”, agora.
Mas se já errou uma vez, que ao menos o presidente da CBF espere estar tudo certo para dar entrevista para quem de fato e de direito.

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