MANO A MANO – ALEMANHA X ESPANHA

por Mauro Beting em 06.jul.2010 às 11:17h

KLOSE X PIQUÉ + PUYOL – Klose não é Ronaldo, mas pode superar o craque brasileiro com 15 gols em Copas. Klose também não é Gerd Muller, Der Bomber, também alemão, multicampeão de clubes e pela Alemanha, na Euro-72, e no Mundial, em 1974. Em 13 jogos de Copas, marcou 14 gols. Klose, por ora, fez os mesmos 14 gols, mas em 18 jogos. O que é inegavelmente um mérito para um atacante bissexto. Joga demais (ou faz gols demais) em Copas. Pelos clubes, nem tanto. Um mistério tipicamente alemão, por mais que, de berço, Miroslav é polonês. Para marcar o atacante do Bayern, melhor a dupla catalã do Barcelona jogar tudo, e um pouco mais. Piqué é muito mais zagueiro que Puyol. Mas ambos fazem uma boa dupla. Por vezes adiantada demais, pela escola espanhola de zaga, ela fica muito vulnerável. O que acaba facilitando um time tão rápido e intenso como o alemão. E até justificando a opção do treinador Vicente del Bosque por dois volantes mais pegadores no meio-campo como Busquets (mais atrás) e Xabi Alonso (um tanto mais atrás).

PODOLSKI X SERGIO RAMOS – Outro atacante polonês que joga pela Alemanha que atua melhor em Copa e na Seleção que pelo clube. Podolski joga como o terceiro meia pela esquerda, no 4-2-3-1 de Joachim Low. Mas chega muito bem como atacante, com velocidade, boa técnica e potência da cacetada de canhota. Foi assim que fez o primeiro gol alemão na Copa, nos 4 x 0 contra a Austrália. É assim que compensa a falta de um bom lateral-esquerdo ofensivo alemão. Para marcá-lo, um lateral de bom nível, que também joga na zaga. Mas que talvez não mereça todo o cartaz que tem no Real Madrid e na seleção espanhola. Sergio Ramos aparece bem à frente, atacando pela direita, ou mesmo chegando por dentro. Mas, na defesa, vai ter de ser o que não tem sido para ajudar a conter o poderio alemão.

OZIL X BUSQUETS – O volante do Barça, como todo o time espanhol, não joga tudo o que sabe e o que pode. Parece(m) cansado(s). E vai ter de correr ainda mais para conter a melhor revelação da Copa, para não dizer um dos maiores jogadores do Mundial. O meia-atacante centralizado do 4-2-3-1 alemão é um filho de turcos nascido em Gelsenkirchen. Joga bem pelo Werder Bremen. Mas não tudo isso que está jogando pelo time alemão. Nem precisou brilhar tanto na colossal goleada sobre a Argentina. Ainda assim, é o jogador que precisa ter um pé a ajudá-lo como o de Xabi Alonso.

TROCHOWSKI X CAPDEVILLA – O lateral-esquerdo do Villarreal não é daqueles para se confiar. Não assume as responsabilidades criativas, e nem marca tanto assim. Sofreria demais com Muller, outro moleque que honra o sobrenome e a camisa 13 alemã. Mas, suspenso, a Alemanha perde. Outro polonês deverá vir para o jogo. Trochowski, de 26 anos, do Hamburgo. Ele chegou a Hamburgo, com os pais, de origem alemã, aos 5 anos. A região polonesa onde nascera havia sido da Alemanha até 1919, e voltou a ser entre 1939 e 1945. Obteve a cidadania alemã, mas, de coração, sempre foi mais polonês que alemão. Tanto que a mãe enviou muitas cartas na adolescência de Trochowski para a Federação Polonesa de Futebol, pedindo que observassem o filho para eventualmente convocá-lo. Sem resposta alguma, optou por tentar a sorte pela Alemanha. E, pelo visto… Três irmãos também jogam futebol, e um primo, rubgy, pela seleção alemã. O estilo de Trochowski, porém, é mais técnico. Gosta de driblar, partir para cima, e tentar um chute de longe, com boa pancada de direita, mas se vira bem de canhota, também. Mas não tanto quanto Muller.

SCHWEINSTEIGER X XABI ALONSO – Um dos grandes legados táticos, para não dizer o maior, da Copa e da Alemanha, é a qualidade de jogo dos armadores que viraram volantes com Joachim Low. Tese que ele já adotava com o volante-esquerdo do Bayern (Schweinsteiger) e com o lesionado Ballack (Chelsea), que perdeu a Copa por uma entrada cavalar do ganês Kevin Prince Boateng, meio-irmão do lateral-esquerdo Boateng. Mas com a saída do mais supervalorizado bom jogador do planeta, Ballack, o time se saiu muito melhor com Khedira na função, pela direita. E com Schweinsteiger saindo mais para o jogo, como voou contra os argentinos, numa das melhores atuações individuais e coletivas desta e de todas as Copas. Ele não só marcou muito, como armou demais, como no lance do terceiro gol. A tarefa árdua espanhola deverá ser exercida por Xabi Alonso, ótimo volante madridista, que chuta muito bem de fora da área (e até do meio-campo). Mas que não marca tanto, e não parece ter a velocidade suficiente para cercar Bastian se ele estiver do jeito que esteve contra os argentinos.

KHEDIRA X XAVI – O espetacular todocampista do Barcelona parece cansado. Não se movimenta com a eficiência e constância usual. Tecnicamente erra passes que ficava meses sem errar. Com ele, toda a Espanha cai. Não é mais aquele supertime da Euro-08, nem a seleção que, de fevereiro de 2007 até hoje, só perdeu dois jogos. Por vezes fica muito preso pelo esquema tático de Del Bosque. Poucas vezes tem entrado na grande área rival. Enfim, está longe de ser o muito o que é. Diferentemente de Khedira, que talvez seja o volante que mais chega à área rival. Com intensidade, velocidade e boa técnica. Outro dos pilares da grande seleção que se forma. Hoje, com a eliminação argentina, é a maior favorita ao título.

BOATENG X INIESTA – O lateral-esquerdo alemão foi Badstuber. Agora é Boateng. Mais forte, mais rápido, um pouco mais técnico, é a melhor opção. Mas é um dos pontos frágeis de uma ótima Alemanha – do meio para frente. Pode ser explorado com o grande Iniesta por ali. Outro imenso todocampista espanhol. Outro que joga muito mais. Não apenas porque vem de contusão. Mas é outro que não está parece confortável taticamente no 4-1-4-1 espanhol. Pode e deve rodar e jogar muito mais. Talvez por dentro. E, então, poderia entrar soluções mais interessantes, comentadas no tópico de Fernando Torres contra a zaga alemã.

LAHM X VILLA – O melhor lateral-direito (e poderia ser o esquerdo) da Europa e da Copa x o melhor atacante do Mundial, e um dos melhores do planeta. Uma das questões da Espanha ainda não ter apresentado o futebol que o elenco mais completo e equilibrado passa também por Villla estar muito distante da área. Mas não do gol. O novo reforço do Barcelona, na minha opinião, foi o melhor jogador da Eurocopa de 2008. Entre os grandes do planeta, é o menos citado. Inversamente a Torres, mais badalado do que deveria. Seria melhor apostar em Villa na de Torres, como solitário atacante, e abrir o jogo como meia pela esquerda com Navas (ou ele à direita, e Iniesta à esquerda). Silva também seria opção. Pedro, idem. Em menos escala e qualidade, Mata. Deixando Torres no banco. Seja qual for o duelo, o alemão vive momento brilhante. Mas Villa tem sido o desequilibrante espanhol. Até pela fase irregular e, agora, a lesão de Fábregas.

MERTESACKER + FRIEDRICH X TORRES – A zaga alemã não é grande coisa. Mas Mertesacker, um zagueiro de 1m96 que sobe meio centímetro, jogou demais contra os argentinos. Friedrich também foi bem e até fez gol, o zagueiro-esquerdo. Se Torres fosse o da Euro, quando fez o gol do título contra os alemães, a vantagem seria espanhola. Mas El Niño volta de lesão, e está sem ritmo e sem bola. Melhor seria Villa como centroavante. Ou mais próximo de Torres, deixando o esquema à base de um 4-1-4-1 para algo próximo ao 4-4-2. Torres, claro, tem potencial para tentar ser o que foi Paolo Rossi, em 1982; quatro partidas pífias iniciais, e as três decisivas marcando seis gols, e se transformando em artilheiro e craque da Copa. Mas Torres não parece ser Rossi. Outra opção seria Llorente, de menor técnica e movimentação. Mas melhor seria ele como jogador para o segundo tempo.

NEUER x CASILLAS – O melhor goleiro alemão morreu em 2009 – Enke. O reserva fraturou costelas – Adler. E nenhum deles era uma sumidade. Sobrou Neuer. E não é muita coisa. Até, como todo o time, jogou bem contra a Argentina. Mas não é a garantia que sempre foi o espanhol Casillas. Que pega quase tudo. Dentro e fora de campo. E, parece, a repórter Sara Carbonero não o tem atrapalhado. Nesse ponto, a Espanha ganha de goleada.

CHUTE – A Espanha era favorita na Euro e ganhou com brilho. Hoje, pelo que fez contra a Argentina, a Alemanha é favorita ao tetra. Também por ser Alemanha. Também por ser tricampeã. Também por semifinalista há três Mundiais. E por estar apresentando o melhor, o mais eficiente, o mais contudente, o mais bonito e ofensivo futebol da Copa. Algo que a Espanha, que tem melhor elenco, não consegue jogar.