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Holanda 2 x 0 Uruguai – Copa 1974

por Mauro Beting em 05.jul.2010 às 12:21h

Trecho extraído do meu livro “AS MELHORES SELEÇÕES ESTRANGEIRAS DE TODOS OS TEMPOS”, pela editora Contexto.

Cruyff temia a estreia na Coap de 1974:

– Estávamos muito nervosos na concentração holandesa. Além de nunca termos atuado juntos, cinco jogadores estreavam em novas funções. O goleiro Jongbloed era novo na equipe. Perdemos nosso zagueiro Hulshoff – por contusão. Haan e Rijsbergen não haviam atuado daquela maneira – formando a dupla de zaga. Jansen demorou a chegar ao elenco, e atuava como Neeskens, no meio… Teve, então, de jogar na função de Haan, como volante. O próprio Neeskens teve de se sacrificar e fazer várias funções. Eu não estava 100% fisicamente… E tudo isso junto, num só jogo, o da estreia, contra uma seleção bicampeã mundial, quarta colocada na Copa anterior… Não sei como tudo funcionou tão bem. Antes da estreia em Hannover, não tínhamos um time; quando acabou o jogo, tínhamos uma senhora equipe.

No livro “Futebol Total”, escrito logo depois da Copa da Alemanha de 1974, Cruyff tentou explicar a inexplicável explosão de uma equipe. A Holanda não jogava um Mundial desde 1938. O Uruguai tinha elenco experiente, qualificado por craques como Pedro Rocha e o goleiro Mazurkiewicz. Porém, um time envelhecido fisicamente, e taticamente ultrapassado. Não aguentaram o tranco. Foram 17 chances holandesas contra apenas uma uruguaia.

Não fosse mais uma atuação digna do goleiro que atuava pelo Atlético Mineiro, a goleada teria sido histórica. Nas palavras do meia são-paulino Pedro Rocha, “tomamos um vareio. Dois a zero foi pouco.”O Uruguai foi vítima da ignorância de seu treinador – Roberto Porta. E de quase todo o mundo que não tinha como se conectar para saber informações dos rivais. É dever dizer, porém, que nem a Holanda havia se conectado como a máquina de jogar bola – não necessariamente de fazer gols. Fala Pedro Rocha:

– O nosso treinador só sabia que eles tinham bons jogadores… Pediu atenção especial para “o 14”… Montero Castillo, nosso volante, disse para ”deixar com ele”, que o Cruyff não iria andar… Pois é… No intervalo, perguntei ao Castillo porque não conseguira fazer o prometido. . Ele me disse: “Mas, como? Corri atrás do 14 o campo todo e ele não parou! Não dava nem para dar porrada nele”!. De fato, tanto “deu” Castillo que foi expulso, aos 22 do segundo tempo.

O concerto futebolístico não aconteceu por essa diferença numérica. Desde o primeiro gol, aos 6 minutos (o ponta Rep, de cabeça, como se fosse centroavante, em cruzamento do lateral Suurbier – como se fosse ponta…), a Holanda chegou com ao menos quatro dentro da área celeste. Pareciam 20 holandeses contra cinco uruguaios do time de 1950 (com a idade que tinham em 1974…).

Não era só questão técnica. Era tática. Era física. Era numérica. Era o fim de uma era no futebol sul-americano. Vírgula, no futebol mundial. O Uruguai bem (mal) que tentou. O lateral-direito são-paulino Forlán manteve a fama de mau. Com três minutos, quase esfolou Neeskens. Faria mais três faltas violentíssimas (só levou um amarelo, quando deveria receber três vermelhos e mais uma voz de prisão pela solada na coxa de Van Hanegem, aos cinco do segundo tempo). Ele e quase todo o Uruguai bateram sem dó. A Holanda respondeu na bola.

Aos 22 do primeiro tempo, o lance que notabilizaria a Laranja Mecânica: recuo para o uruguaio Jáuregui lançar o meia Mantegazza; no bote para recuperar a bola, dez (!?) holandeses se adiantaram e fizeram um arrastão sobre o zagueiro. Numa área inferior a 15 metros, um borrão laranja deixou no bagaço toda uma escola, que ficou oprimida, impedida ou simplesmente deprimida. Foi a primeira das vezes em que a Holanda fez o arrastão na Copa-74; só um desses lances deu em gol rival – da Bulgária; só em uma partida não foi usado – na final perdida para a Alemanha.

Esse bote era a fotografia do Futebol Total: todos marcando. Ou melhor, no caso, todos partindo ao ataque, comprimindo espaços, inibindo até psicologicamente o rival, deixando adversários impedidos, e começando o contragolpe lá na frente. O comandante da linha de impedimento (ou de “ataque”) era o zagueiro da sobra Haan.
Com um minuto do segundo tempo, o imenso Pedro Rocha teve a única chance uruguaia. Depois, foram 14 europeias. Os três atacantes de Michels receberam o apoio adiantado dos meio-campistas Jansen, Neeskens e Van Hanegem, e mais o lateral-esquerdo Krol, que aproveitou o cansaço do veterano ponta Cubilla para entrar livre. . “Esgotamento” que não se viu na Holanda. Aos 7 minutos, , Cruyff desarmou Espárrago na lateral direita holandesa. O 14 holandês parecia uma franquia no gramado de Hannover. A impressão é que havia uns três dele em campo – e, no máximo, uns cinco uruguaios. Aos 22, sobraram dez, com a expulsão tardia de Montero Castillo. Na única vez em que conseguiu acertar Cruyff, o atingiu sem bola. Como o zagueiro Masnik havia chutado Neeskens e pulado sobre o pé esquerdo do rival caído, dois minutos antes. Nada fez o árbitro. Naquela época “romântica” (sic) do futebol, também se batia demais. Mas a memória é seletiva. Só lembramos o lindo que fez a Holanda. O que é ótimo. Mas não real.

Irreal parecia aquele time que não “existia” antes de a bola rolar na Copa-74 jogar tudo aquilo na estreia. Aos 28, um golaço de Cruyff foi mal anulado por jogo perigoso inexistente do craque, depois de receber (mais um) lançamento preciso de Van Hanegem. Um crime lesa-bola a invalidação de lance de um gol que seria dos mais lindos da Copa e se perdeu na história.

Aos 32, pela primeira vez (e das raras desde então), uma linha de impedimento causou um “ohhhhhh!” do estádio. Mais um arrastão comandado por Haan originou assombros e aplausos. Não era comum. A Holanda diminuía o campo e as chances dos rivais. Mas continuava criando as dela. Aos 41, o cerebral Van Hanegen deu um belo toque às costas de Forlán para Rensenbrink, em ritmo de treino, rolar para a marca penal. Rep só tocou para o gol vazio, de pé direito.

O 2 a 0 foi placar mínimo para a máxima diferença entre o futebol “do futuro” contra as sombras de um passado glorioso. Ainda teve um pênalti não marcado sobre Rep, aos 46. O árbitro Karoly Palotai foi bonzinho com os sul-americanos. Como húngaro, bem poderia proteger a equipe que revitalizou o legado técnico, tático e físico dos compatriotas de 1954.

O massacre de Hannover mostrou ao mundo novas armas de destruição em massa: pelas laterais (pontas?), o direito Suurbier (que foi até centroavante) e o esquerdo Krol; no meio, o meia convertido em volante, mas com vocação de atacante – Jansen; o múltiplo Neeskens, o melhor e inesgotável parceiro de Cruyff; o hábil Van Hanegem, canhoto um tanto lento, mas que fazia a Holanda correr com seus lançamentos; e os atacantes Rep e Rensenbrink, que formavam com Cruyff a linha de frente já conhecida há meses. Mas que resolveu jogar naquela Copa o que pouco se viu em décadas de futebol.

A Laranja Mecânica era orgânica por fora, mecânica por dentro.

  • Paulo Sérgio

    PARABÉNS, MAURO, MUITO BELO E POÉTICO SEU TEXTUAL FUTEBOL ESCRITO, RELATOR DO FUTEBOL DE MEIO CRÍTICO CONTEXTUALIZADO. ACOMPANHO SEUS TEXTOS E COMENTÁRIOS HÁ ALGUNS ANOS, E ACREDITO QUE É UMA DAS RELÍQUIAS NO DESERTO DE COMENTARISTAS ESPORTIVOS QUE TEMOS ATUALMENTE. GOSTARIA, SE POSSÍVEL VER NESTE BLOG, COMO JOGAVA A(S) ETERNA(S) ACADEMIA(S) PALMEIRAS DE 60,70 E 90. PODERIA SER COMO ESTE BELÍSSIMO TEXTO SOBRE A FANTÁSTICA HOLANDA DE 74, QUE INFELIZMENTE NÃO ERA NASCIDO PARA ACOMPANHAR, ONDE VOCÊ DESCREVE PASSO-A-PASSO O SINGULAR FUTEBOL APRESENTADO!!!
    ATT. PAULO