Era Dunga – Crepúsculo

por Mauro Beting em 04.jul.2010 às 19:29h

Antes do balanço do treinador na Copa:

Por que, pela primeira vez em 21 anos, a CBF trabalhou num domingo?

Por que, pela primeira vez na história do site da entidade, uma nota tão importante publicada num domingo?

Por que um profissional sério (por vezes demais) e correto (nem sempre) foi demitido pela internet, no dia em que chegou ao Brasil, e depois de duas linhas lacônicas e muito mal educadas, que desrespeitam qualquer pessoa, ainda mais alguém que desde 1983 serve tão bem o futebol brasileiro?

Mas, no fundo, qual a surpresa?

Ricardo Teixeira é isso. Ouve o clamor das arquibancadas e o clarim da imprensa só para colocar um treinador no cargo. E o despede sem se despedir.

Não é novidade.

Qual o melhor nome para o lugar de um Dunga que não deveria ficar – e nem ser demitido assim?

Felipão.
Mas, homem de palavra, o penta mundial fica na nova-velha casa palmeirense.

Quem, então, para 2014?

Como Ricardo Teixeira, quase sempre, não tenho a menor ideia.

Só sei que precisa ser razoavelmente rápido o anúncio do novo treinador – preferencialmente, alguém que não seja tão novo assim. O Brasil precisa se preparar como Brasil para 2014. E mais ainda: para ser campeão onde só ele, campeoníssimo mundial, não foi: em casa. E depois de duas decepções de Copas. E sem Eliminatórias a disputar, o que é sempre muito ruim.

Mas ainda o potencial futebolístico brasileiro é enorme. Ainda é o maior do mundo. Mesmo quando tenha sido reduzido pela ideia um tanto tacanha do comandante. Que fechou demais um grupo, não o abriu para necessárias e salutares renovações, e acabou perdendo um jogo perdível. Perdendo gente importante, sem ter com quem repor pelas limitações severas de seu crédito bancário. Boas opções em 2007 que não se repetiram em 2010. Como, aliás, quase todo o mundo que já foi brasileiro esperava pelas infelizes escolhas do selecionador Dunga.

Pai Dunga exagerou na paternidade e na mão firme do grupo. Se ninguém se perdeu pela língua nas entrevistas exageradamente regradas e fechadas, também pouco se viu de alegria e relaxamento nas folgas espartanas. Atleta também é gente. Futebolista brasileiro também é artista. Precisa esticar os membros. Precisa folgar para não parecer aquela mistura de Robinho com Demônio da Tasmânia e Doutora Havanir contra a Holanda. Ou, em resumo, não precisa trocar as bolas e os ossos rivais como um Felipe Melo sem freio. Campeão absoluto do prêmio Ferro-Play da Fifa.

Se Dunga acertou ao não conceder privilégios, erraram com ele ao não dizer que alguns privilégios eram contratuais. Se Dunga sempre quis o melhor para o Brasil até para evitar o circo de Veggis, errou ao armar um cerco que enclausurou a família. Se evitou rusgas, criou atritos desnecessários que só acirraram um ambiente de fato bom. Melhor até mesmo que o futebol que acabou devedor em 45 minutos fatais.

Como acontecem com as boas famílias, Dunga.

Como também aconteceu com aqueles times que você não gosta, os de 1982 e 1986.

Equipes, porém, que saíram melhor que a de 2010.

E deixaram muito mais lições e imagens positivas.

Mas, mesmo assim, para um treinador iniciante, o saldo final é muito bom.

Só não é melhor porque não há como vencer sempre.

Mas, no Brasil, sempre será mais fácil vencer jogando brasileiro. Com alegria. Com comprometimento. Com coerência. Com tudo que você bem sabe, Dunga. Mas que, infelizmente, nem sempre acontece num time e numa Copa. Ainda mais com alguns nomes incertos. Com algumas atitudes nem sempre felizes.

Não há como vencer sempre. Mas sempre parecia haver um jeito de vencer melhor com essa geração. E com boa gente que ficou de fora, no Brasil. Como o Brasil ficou de fora do mundo, em 2010.

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