Ganhar o mundo e não a Copa

por Mauro Beting em 10.jun.2010 às 20:52h

 

É possível conquistar o mundo sem ganhar a Copa. Desde que se faça real o impossível. Como fizeram os sul-africanos que conquistam os visitantes com uma simpatia de constranger. O que eles fizeram pelas ruas de Joanesburgo para saudar a própria e frágil seleção antes da estreia não tem paralelo, precedente e nome. Ou tem, a partir de agora: se dizem que um insuportável calor é “senegalesco”, uma alegria pelo futebol, pela Copa, pela própria alegria de respirar precisa ser chamada de “bafana bafana”.

Dizem que foram 200 mil os que cercaram o hotel da seleção da África do Sul e fizeram a festa que contagiou até figuras sisudas e na dele como Parreira, que estava com o corpo para fora do ônibus celebrando a alegria consagradora. Uma onda que não é de “confiança” na equipe que é a pior mandante da história. Mas um tsnunami de alegria. Acho que não tem outra palavra. Eles são alegres pela natureza que foi só menos cruel que o apartheid. Eles estão ainda mais alegres por viver o momento no próprio quintal que segregava pela cor, e, agora, é um jardim de cores do mundo.

Tem quem vai dizer que eram tantos porque mais de 20% não têm emprego nesta terra que tem pedaços melhores e mais ricos que os nichos brasileiros, e latifúndios piores e mais pobres que os lixos do Brasil. Tem quem vai achar ridículo fazer festa por nada, para uma seleção frágil, que ainda teve o azar supremo de ficar no mais equilibrado grupo da fase.

Mas quem está por aqui fica contaminado. Não existe vacina para a febre bafana. Torço pelas vuvuzelas roncando além da primeira fase, até pela longa preparação, e pelo bom momento de Pienaar, Tshbalala e Modise. Mesmo sabendo que o México vem forte, o Uruguai é respeitável, e a França, ainda que correndo sérios riscos pelo que não tem jogado, ainda é a França. Mas nada é mais adorável que este povo que ri sem saber o porquê. Que torce sem saber por quem. Que faz festa porque sabe que vive um momento único.

Que sabe o que é sorrir, gargalhar, cantar e dançar como um Desmond Tutu na festa de abertura que quase vira a de encerramento pelo longo tempo gasto em Juanes e outros bichos que pouco têm a ver com a África – esse tal de Juanes esteve em mais Copas que Américo Faria! -, com alguns poucos artistas que pouco têm a ver com a arte musical. Mas que foi uma beleza como Fergie, Shakira, Alicia Keys e as cantoras africanas de secar gargantas e encher e encharcar os olhos. Que foi contagiante como K’Naan e suas Waving Flags coloridas, Black Eyes Peas e seu pop contaminante.

Mas que não foi nada perto do que foi sentir e ouvir a presença mesmo ausente de Madiba. Nelson Mandela. O rei presente da noite. O presente de todos os novos dias da África do Sul.

Confesso que até mudei o coração – não a cabeça – em relação a 2014. Se conseguirmos ao menos fazer no Brasil um evento que alegre, que honre, que festeje o brasileiro, já terá valido a pena os muitos pesares e dólares torrados por quem não sabe – ou até sabe demais da conta gastar o nosso dinheiro. Não tem preço o sorriso sul-africano. Um país que até pode não saber fazer a Copa ideal. Mas já conquistou um lugar na história justamente por saber o que sempre deveria ser um Mundial: um congraçamento. Uma reunião. Uma festa.

Nem começou a Copa e já bem sabemos quem a conquistou. O povo sul-africano.

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