Dunga comentarista – Copa-06 – Brasil 1 x 0 Croácia

por Mauro Beting em 06.maio.2010 às 13:49h

Dunga foi meu companheiro de Bandsports, na Copa de 2006. Comentou os jogos do Brasil ao lado de Luciano do Valle.

 

O Dunga comentarista era o mesmo Dunga volante e o Dunga treinador. Seco, mas direto. Por vezes bronco, bronqueado, mas com muitas razões. E as teimas típicas de todos os comentaristas e palpiteiros.

Com os diferenciais de quem esteve lá. E de quem defende as ideias e ideais tão caros. Defende bastante os amigos e ex-companheiros. E, como comentarista que se preza, adora não gostar de alguns nomes.

Desde a estreia contra a Croácia, ele mal falou de Ronaldinho Gaúcho. E, quando comentou, falou mal. Até quando elogiou, lembrou que o então maior do mundo precisava sorrir. Jogar mais solto. Driblar mais. Criar mais. Assumir mais. Jogar muito mais. E Dunga estava mais que certo.

 

Jogo a jogo, vamos ao primeiro. A estreia em Berlim. O tempo em que o então comentarista dava os seus pitacos.

 

6min31s       Primeiro comentário de Dunga – Os volantes Emerson e Zé Roberto estão solitários na marcação, e Ronaldinho Gaúcho tem de assumir mais a armação, saindo da ponta esquerda para criar mais por dentro.

15                 Dunga pede para Roberto Carlos chutar mais de fora da área. “É um bom jeito de abrir a zaga deles, por que alguém tem de sair na marcação ao lateral”.

17                 Pela segunda vez, Dunga quer que Ronaldinho saia da esquerda e venha articular por dentro.

21                 Elogia a qualidade física do jogador brasileiro em geral, sobretudo Emerson, Zé Roberto e Kaká. “Não é só a técnica admirável dos nossos atletas”.

23                 Pela terceira vez Dunga pede para Ronaldinho recuar, armar o jogo e eventualmente marcar o volante rival. Até agora, nenhum elogio para o então maior jogador do mundo.

25                 Elogia Emerson e Zé Roberto pelas recuperações de bola e ocupação de espaços.

27                 Reclama dos homens de criação do meio-campo, que estão muito estáticos. Mas não cita nominalmente Ronaldinho Gaúcho.

30                 Quer que o Brasil trabalhe mais a bola, e não seja tão ansioso “em um ou dois toque” (sic). Quando a Seleção acerta um lance depois de troca de bola, Dunga costuma contar o número de toques: “Quando o Brasil chega com 10, 11 toques, a jogada sai”.

32                 “O grande inimigo do Brasil é a pressa em querer chegar até o gol com rapidez”. No dunguês, o termo “rapidez” é tanto velocidade quanto pressa ou afobação.

34                 “Que partida do Emerson! Recupera a bola e passa com perfeição”.

34                 Elogia Ronaldo que se finge de morto e, na hora certa, dá o bote e faz o gol. E ele chama o gênio de “Fenômeno”. Mas Dunga não comenta e nem critica a má forma física do atacante. O que ele não parece muito propenso a elogiar Ronaldinho Gaúcho, Dunga dá a impressão de sempre defender  “Ronaldo Nazário”, como ele o chama na transmissão do Bandsports

35                 Critica o posicionamento tático de Kaká e Ronaldinho Gaúcho – e com razão. “Eles não precisam estar lá na frente. Eles precisam chegar com a bola, vindo de trás”. Dunga também está preocupado com lado direito defensivo. “Não está definido se o Emerson tem de fazer a cobertura ou se é o Lúcio que tem de sair da área”.

39                 Dunga pede mais triangulações pelos lados.

41                 Insiste que Kaká e Ronaldinho Gaúcho estão muito à frente, muito abertos pelos lados, e que “deveriam jogar mais atrás, mais centralizados”. Não deixa de ter razão.

 

43min27s     GOLAÇO DO BRASIL. 1 X 0. KAKÁ. DE FORA DA ÁREA.

 

45                 Reclama que o time está muito bonzinho no gramado. “O Brasil tem de ser mais malandro. Não pode só o capitão Cafu reclamar do árbitro. Tem de chegar uns quatro ou cinco em cima do juiz e fazer pressão!”.

 

 

 

INTERVALO       

 

Comentário intermediário de Cafu detona o oba-oba do grupo e da mídia: “Criaram uma atmosfera de que tudo é fácil, que vamos golear todo mundo… Não é assim”. Ele também não gosta do esquema brasileiro, um 4-2-2-2 bastante ofensivo, com os dois meias muito abertos, e uma distância grande entre os volantes Emerson e Zé Roberto, sobrecarregados na marcação, “O Brasil  não pode ficar todo à frente. Não tem quem estar com os quatro lá na frente toda hora. Tem que chegar com os dois meias vindo de trás”.

 

Dunga tinha razão.

 

 

 

SEGUNDO TEMPO –

 

 

3 minutos     Os meias continuam muito à frente, lá no ataque. “Não tem ninguém para fazer a ligação e triangular”, reclama Dunga.

8                   “O Brasil fica com duas linhas de quatro. Uma lá na frente, e outra aqui atrás. O Emerson tem de marcar, levar a bola pros meias que estão nas pontas, e ainda tem de marcar pelo lado. O Kaká e o Ronaldinho não estão recompondo a marcação sem a bola.”

10                Insiste para que Kaká e Ronaldinho joguem mais por dentro, e que o Brasil troque mais a bola.

12                 Reclama e se pergunta o porquê de o Brasil não reclamar mais do árbitro, não o pressionar mais.

20                 Critica a Seleção: “O Brasil não é compacto, não joga em bloco, está muito espaçado, e ainda não reclama do arbitro”.          Ele insiste: “Ninguém pressiona o juiz! Todo mundo faz isso, menos o Brasil!”

25                 Conhece razoavelmente bem os adversários do Brasil, citando características dos jogadores croatas.

34                 “O Brasil tá sendo muito bonzinho com o árbitro!”. Dunga também reclama, com razão, que o time joga mudo. Ninguém fala, ninguém grita. Ninguém dunga!

39                 Reclama que o ataque agora está isolado. “O Adriano está sozinho contra quatro da Iugoslávia (sic).”

 

 

FIM DE JOGO

 

 

O balanço do comentarista Dunga, recheado de razão:

 

– O Brasil precisa melhorar a marcação, trocar mais a bola, chegar com mais velocidade ao ataque. O time está muito previsível. Está faltando mais armação e criatividade ao time. Precisamos entrar mais ligados, mais concentrados. Fizemos muita festa antes da hora”.

 

Dunga elegeu Kaká e Emerson como os melhores em campo. E não fez elogio algum a Ronaldinho Gaúcho. Antes, durante e depois.

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