Corinthians 2 x 1 Flamengo (2 x 2 no agregado, 1 gol fora Flamengo)+

por Mauro Beting em 05.maio.2010 às 22:31h

 

 

Flamengo.

 

Como o Corinthians que venceu e não levou na bela festa no Pacaembu, não há nada que explique.

 

As duas maiores paixões do Brasil têm outra coisa em comum – e ainda mais inexplicável: são usualmente os únicos gigantes brasileiros que vencem rivais quando têm equipes inferiores. E, quando se encontram, conseguem reverter todos os placares e expectativas. Como o Flamengo que mereceu vencer na batalha naval e heroica no Maracanã, quando parecia inferior ao rival paulista. Como o Corinthians que fez o melhor tempo dele em 2010, e em muito tempo, reverteu a desvantagem na primeira etapa, e parecia ter tudo para fazer uma reversão histórica.

 

 

Mas há algo nas águas e nas almas da Gávea que parece conseguir coisas que a lógica jamais poderia imaginar. Antes de a bola rolar, muitos corintianos eméritos, vários ex-jogadores, jornalistas de todas as cores e credos, muitos presentes ao Pacaembu não acreditavam na redenção alvinegra. Nem tanto pelas debilidades corintianas, mas, sobretudo, pela força do contragolpe rubro-negro. E por essa inexplicável aura que reveste a camisa vermelha e preta. Essa que fez um jogo mais que perdido no segundo tempo se transformar numa senhora segunda etapa, e mais um tempo para o flamenguista guardar por todos os tempos. Foram 6 chances rubro-negras contra 4 alvinegras. Nos 180 minutos, o Flamengo foi melhor. E quando o Corinthians tentou, Bruno fez a defesa do jogo, aos 46, numa bela cobrança de Chicão, e numa espalmada antológica dele.

 

 

Abusando de todos os chavões, não foram apenas dois tempos distintos: foram eras diferentes. Merecem separadamente ser analisadas:

 

 

PRIMEIRO TEMPO CORINTIANO

 

 

O goleiro Felipe, voltando de contusão, dividiu duas bolas com Adriano e Juan como se não houvesse amanhã. Uma atrás da outra, no fim da primeira etapa brilhante paulista. Na primeira, sobrou para o Imperador, machucadoa. No contragolpe, Dentinho enfiou A Bola para Ronaldo voltar a ser Ronaldo. Mesmo depois da patética exibição no Maracanã, na coluna de terça-feira, no LANCE!, cravei (com bastante medo de errar): “Só duvido de quem ainda duvida de Ronaldo”.

 

Indiscutível: Fenômeno. Até porque Adriano, o que vira notícia quando vai ao treino, não conseguiu jogar na primeira etapa. O Timão dividiu com a raça de Elias e Felipe, e com a bola que esse time tem – embora nem sempre tenha jogado em 2010 -; em 21 minutos, teve todas as chances que não criou no Maracanã porque não quis. Ganhou de David o gol que saiu dos pés de Danilo (aos 27 minutos) e, mesmo com recuo habitual dos times de Mano, ainda assim foi mais letal. Mais incisivo. Mais corintiano.

 

Rogério Lourenço armou direitinho o sistema defensivo rubro-negro, com ideias mais de Cuca que de Andrade: para liberar Leo Moura e Juan para baterem com os laterais Alessandro (que não voltou bem) e Roberto Carlos. Na marcação, definiu Williams para tentar seguir o iluminado Dentinho do primeiro tempo, com Angelim anulando Jorge Henrique do outro lado, pela direita; por dentro, Ronaldo foi bem seguido por Rômulo, com David na sobra. Danilo foi travado pelo incansável Maldonado. Elias ganhava o duelo pela direita de Vinicius Pacheco, muito mais um volante pela esquerda que o bom meia-atacante que é. Love também estava muito recuado, mais marcando Ralf que tentando jogar com Adriano. Sacrificado taticamente, estava ainda pior tecnicamente. Teve atuação parecida com a de Ronaldo no Maracanã – se é possível.

 

Mas futebol é assim. O Corinthians medroso e tacanho do Rio foi Corinthians valente e destemido no Pacaembu. Não era demérito carioca, era imenso mérito paulista. 2 a 0 foi pouco, com sete chances contra três do rival. Não só foram muitas chances criadas. A movimentação de todo o time, com Ronaldo saindo da área e trocando de função com Danilo, com Jorge Henrique e Dentinho atacando pelas pontas, e Elias e até Ralf chegando muito bem. O time se multiplicava nas divididas. Não parecia haver erro. A classificação estava aos pés. Mas ainda havia um senhor rival pela frente. Um Flamengo.

 

 

SEGUNDO TEMPO –

 

Flamengo.

 

Bastaria isso para explicar o inexplicável. O flamengável.

 

Mas é preciso reconhecer Rogério Lourenço. Eu teria soltado um pouco mais Vinícius Pacheco para o jogo. Esperaria 15 minutos para pensar em alguma alternativa – que não seria Kleberson.

 

E foi o volante pela esquerda que chegou como meia que deu o belo passe para Vágner Love se redimir – a milésima reviravolta do confronto – e diminuir a vantagem paulista, aos 4 minutos, entre Alessandro e Chicão.

 

Diminuir, não. Tirar toda a chance corintiana. Mesmo com a torcida honrando o nome e a postura de fiel, o Flamengo foi ainda mais fiel à sua tradição de dobrar e driblar o imponderável. Love resolveu jogar tudo que não jogara no primeiro tempo. Adriano, mesmo longe do ideal físico, ganhou no próprio físico todas as divididas. Com a companhia enfim notável de Vágner, o Flamengo foi no contragolpe cada vez melhor. Cada vez maior. Cada vez mais Flamengo. Mano tentou retomar o gás. Mas não foi feliznas mexidas. Iarley tentou pela direita o que Angelim não deixou ser. Jucilei substituiu Elias quando Ralf deveria sair. Paulinho entrou no lugar de Alessandro para tentar dar vida à direita.

 

Mas era o redivivo Kleberson quem marcava, armava, e até perdia gols por falta da solidariedade que muitas vezes sobrava a ele e a todo o time. Que marcou com categoria para liberar Leo Moura. Para deixar o Império do Amor deixar de ser motivo de chacota para virar a expectativa e voltar a ser a república de uma paixão mais que centenária.

 

O Flamengo flamengou no segundo tempo. E foi superior ao Corinthians que lutou como Corinthians. Jogou mais que o Corinthians de 2010 no primeiro tempo. Mas faltou algo. Embora tenham sobrado aplausos mais que merecidos ao final do espetáculo. Não teve alambrado quebrado. Não teve um lateral crucificado. Não teve treinador derrubado. Teve apenas uma derrota (vitória…) do futebol. Coisa que acontece.

 

E acontece ainda mais contra quem enfrenta o Flamengo.