Eu Não Sabia – Botafogo campeão do RJ-10

por Mauro Beting em 19.abr.2010 às 13:39h

 

 

“Eu não sabia”. Se fosse torcedor do Botafogo, teria levado o cartaz ao Maracanã. Eu e a torcida alvinegra, para não dizer a brasileira. Um limitado Botafogo venceu um supervalorizado Flamengo e ganhou antecipadamente (para não escrever inesperadamente) o estadual.

 

João Moreira Salles, brilhante botafoguense, num dos melhores textos que já li sobre futebol, definiu bem o que é ser alvinegro: “Enquanto todos os outros torcedores vão ao jogo de futebol para escapar da vida, nós, botafoguenses, vamos ao estádio para entendê-la melhor”. Duro é compreender o que se passou em 2010.

 

 

 

Mas será assim tão ruim O time que aprontou a maior surpresa de todos os estaduais que vi desde 1973? Ou o esporte que não anda nada bom é que permite resultados como este: um elenco modesto ganhando os dois turnos, sem a menor contestação de arbitragem, superando rivais pretensamente melhores, e o fardo de três vices consecutivos.

 

 

Há mais de 100 anos e títulos a Estrela Solitária brilha como só Armando Nogueira prosaria. Embora nem Nelson Rodrigues pudesse explicar o que foi este RJ-10. O futebol não foi de cinema, mas foi coisa de filme o que fez o Fogão. Quem apostaria uma bola furada naquele time que, na Taça GB, levou 6 a 0 do Vasco? Nem a chegada do craque Joel Santana – tão folclórico quanto competente – poderia dar jeito numa equipe que, no torneio mais importante, acabaria eliminada em casa por um grande que hoje mofa na Série D.

 

 

Não havia como apostar no Botafogo no primeiro turno. Surpreendente vencedor, era esperado que não mantivesse o pique na Taça Rio, mesmo com reforços interessantes que chegaram ao clube. Afinal, desde 1998 (um campeonato de mais W.O. que futebol), o estadual não era vencido por antecipação.

 

 

Açodados, mais uma vez, fomos todos nós. Jornalistas, rivais, e os próprios botafoguenses. Poucos viram a virada sobre o Fluminense, na semifinal da Taça Rio. Muitos que só sabiam xingar Fahel, Alessandro e Lúcio Flávio (não sem muitas razões) só acreditaram no domingo. Também pelo gosto de vingança contra o Flamengo tricampeão em 2007-0900. Rubro-negro que vencera três equipes do Botafogo muito melhores que o campeão de 2010. Duas derrotas doídas nos pênaltis. Disputa que, nos 90 minutos, também se repetiu no domingo – mas com outro final (como eu, mais uma vez, não sabia, e nem imaginava): Jefferson fez mais uma grande defesa em tiro de Adriano; Bruno não segurou o primeiro pênalti mal batido por Herrera, e não defendeu o parecido com o de Zidane, na final da Copa-06, convertido por Abreu.

 

 

Sim, num pênalti decisivo, Abreu e Zidane se pareceram. Parece sacrilégio. Mas é futebol. O único esporte que parece cada vez mais apreciar vitórias dos piores times.

O futebol do Botafogo-10 não merece ser guardado nos olhos para quem aprecia o jogo. Mas a vitória desse grupo precisa ser acolhida na alma até para quem não aprecia o esporte. Foi uma maiores viradas de jogo e de expectativas da história do Maracanã. Parece até coisa do Botafogo. E como foi Botafogo esse time!

 

 

A final, como quase todo o estadual, não foi das melhores. O Botafogo abriu o placar em lance de chuveirinho que deu no pênallti infantil em Fábio Ferreira. Respondido pelo empate de Love, no fim, em mais um recuo excessivo alvinegro. Joel só arrumou o time, mais uma vez, ao trocar o acanhado 3-4-1-2 do primeiro tempo por um abusado 3-3-2-2, com Caio e Edno pelos cantos, e mais um pênalti tolo e juvenil do experiente Maldonado.

 

 

O empate poderia ter nascido no pênalti menos pênalti da tarde. Mas Jefferson, o melhor goleiro alvinegro dos últimos anos, fechou a porta para Adriano, e abriu o portal místico para um Botafogo impressionte como o futebol.