Santos Futebol Clube, 98

por Mauro Beting em 14.abr.2010 às 15:47h

 

Mário Ferraz, Argemiro de Souza e Raymundo Marques. É muito provável que ao menos um deles tenha dado uma bela olhada para o Atlântico, lá de Santos, naquela noite de 14 de abril de 1912. Tinham a felicidade de um sonho real. Os tês haviam fundado o Santos FC. No mesmo dia em que, bem mais ao Norte, começava a afundar o maior navio do mundo. “O insubmersível” RMS Titanic matou 1517 passageiros horas depois.

 

A tragédia de quem pensou grande com enorme irresponsabilidade é típica dos que se acham e, logo, se perdem. Diferente daqueles idealistas que pretendiam fazer do novo clube o maior da cidade. Sem o delírio de ser o que acabou se transformando. O time do Pelé do futebol, o próprio Pelé. O clube que mais gols fez no futebol. O único com duas sedes. O maior campeão de uma cidade que não é capital nem da província. O primeiro clube paulista a marcar 100 gols (em apenas 16 jogos), em 1927. Um clube que não precisaria de Pelé para ser quase tudo isso. Uma equipe que foi muitas vezes montada por filhos da terra e das areias vizinhas. Um clube que soube comprar pelo Brasil e pela América craques que fizeram o mundo cheio de gols e de outros Santos. Mas só um Santos Futebol Clube. Só um time de anjos. Só um clube que honrou todos os Santos e todo o futebol brasileiro e mundial.

 

O Titanic que morreu em 1912 é metafóra da presunção do Homem. O Santos que nasceu no mesmo dia é exemplo de que é possível conquistar o planeta sem perder a raiz. O Santos nasceu para subir a serra, conquistar o mar (e até explorar o espaço com o E.T. Pelé), e tomar e tornar o planeta como se fosse uma rua estreita próxima à Vila Belmiro. Por vezes o clube se perde num provincianismo tacanho, fechando-se em (tantas) Copas vencidas, esquecendo que o mar e o Leão dele não podem ficar confinados. O Santos é maior que Santos. Foi o maior da melhor época do futebol brasileiro e mundial – e não apenas por Pelé, pelo amor de Pelé! Escale os tantos Santos dos anos 50 e 60 para ver que quase tudo era possível para aquelas camisas brancas impossíveis.

 

“O time que ficou 45 minutos sem tocar os pés no chão”, na célebre definição da imprensa portuguesa para o esquadrão que goleou o Benfica, em 1962, no Estádio da Luz. A melhor imagem do maior time do mundo então. Quem sabe o melhor de todos os tempos e campos… Mas, se não for, e daí? Comparar tamanhos é questão menor. Se achar o tal é se perder como tal. É querer singrar e sangrar os mares como o Titanic. O Santos só não nasceu para ser um Titanic. Mas virou um transatlântico de luxo. Leva com ele, desde 1957, no primeiro gol Dele, Pelé, o destino de ser o time que privilegia o gol, a arte, a beleza. Quase tudo que estes meninos que não viram aquele Santos estão fazendo pelas novas gerações. Refazendo o que outros Santos já fizeram.

 

Está no estatuto do clube o gosto pelo gol, o apreço pelo apuro sem preço. O Santos virou reverente referência. É um patrimônio que ficou por mau tempo tombado. Mas que hoje, honrando a tradição, se reinventa e se renova com os Meninos da Vila Reloaded. O Santos não é só dos santistas. É de quem lotou o Maracanã para vê-lo bi mundial. É de quem enche o Pacaembu a cada jogo. É de quem sabe que, naquela noite de abril de 1912, o sonho de três rapazes era real. Mas eu duvido, com toda a razão e emoção, que eles imaginavam o que esse clube faria. Tenho a certeza que colossos do futebol mundial nasceram sabendo que poderiam conquistar o mundo como Titanics da bola. Mas ninguém foi mais longe que o time de Mário, Argemiro e Raymundo.

 

O 14 de abril de 1912 não deveria ser lembrado pela tragédia da companhia marítima White Star. O esporte precisaria louvar eternamente a estrela branca que surgiu nos campos naquela noite.

 

 

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  • Clementino Soares

    Esse time do Santos dá nojo, uma defesa esburacada, mal escalada, contrata laterais para jogarem no meio de campo, tira zagueiro que provou ser bom e coloca outro que está em fim de carreira, tenha dó seu treinador, vê se enxerga um pouquinho mais que o Santos chega lá.

  • Carlos

    Eu amo a história do Santos!

    Eu amo o Santos pois me enche de alegria.
    É o meu combustível de cada dia.
    Muito bonito esse texto.
    Pena que o Clementino não compreendeu que não se fala em determinados times e titulos mas sim em história.
    Desde de 1912 até 2010 (os dias de hoje) o Santos vem fazem cada vez mais história e uma história cada vez mais bonita.
    E isso ainda não acabou…

  • ¢αяℓα ѕαηтσѕ

    Hoje já podemos falar que são 99 anos construindo uma das histórias mais ricas do futebol mundial. Só você parou a guerra, teve o Rei, alterou o horário nacional, coleciona tantos gols e ídolos. Obrigada por fazer parte da minha vida, por dar sentido aos meus dias, e por me trazer amigos tão maravilhosos que também fazem de você sua própria vida. Estarei sempre com você, pois Santos é raça e tradição, é eterna paixão. Vencido ou vencedor, Santos, sempre Santos. Pode ter certeza que nunca vou te deixar, pois você é o meu maior orgulho. Desde 1912 é o maior do mundo, pois você já nasceu grande, revolucionou o cenário mundial futebolístico. Parabéns meu Santos, por ser o que você é, 99 anos de um passado e um presente só de glórias!!! Ser sαntistα é ser αquilo que ninguém nuncα vαi entender, porque é impossível explicαr, e impossível de não sentir!
    ρσя тσ∂α νι∂α ѕαηтσѕ!!!

  • LUIZ ANTONIO ALVES PRADO

    Para escrever asim com tanta elegância, profundidade e eloquência, só poderia ser um colunista, esportista, muito mais que só futebolista, MAURO BETING. Tal pai tal filho.