8 ou 80 – 9 a 16 de outubro de 2001

por Mauro Beting em 16.out.2009 às 14:43h

O blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em outubro de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contam um pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos.

10 de outubro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Brasil ainda não havia garantido a vaga em 2002

Tudo muda em meros 90 minutos de jogo

Romário acabou. Romário é seleção. Alexotan. Alex é craque. Edmundo é genioso. Edmundo é genial. Fora Eurico Miranda! Eu quero um Eurico no meu time! A Liga Rio-São Paulo sai até quarta-feira ou eu faço o Paulistão. O futebol paulista está com a Liga e não abre. O esquema com três zagueiros é defensivo. A defesa da seleção fica muita exposta com apenas dois zagueiros. Uh! Marcelinho! Xô, Marcelinho! Celso Burroth! Au, au, au, o Roth é genial! O Flamengo vai ganhar a Libertadores. O Flamengo não tem time para o Brasileirão. O São Paulo é favorito. O Tricolor é um timeco. O Corinthians não tem time. O Timão vai a Tóquio! Denílson só joga 45 minutos. Denílson é Deus!

O futebol é a incoerência em 90 minutos. O time que mais joga, que mais chuta, que mais cria, que mais ataca, que mais tem a bola, que melhor passa, que menos faltas faz, que melhor defende, que mais tudo, pode acabar com nada. O que era lei vira papel passado em um chute. O certo do início é o errado do apito final. O bagre do primeiro tempo é o craque do segundo. O salvador da pátria é o pária que só se safa.

O torcedor pode e deve raciocinar assim. O diretor de piscinas do clube também. O porta-berro da arquibancada pode fazer o mesmo no rádio e na TV. Mas quem é pago para ver, para treinar, para fazer, para analisar, esse não pode ir com a maré da bola. Sobretudo num futebol cada vez mais igual, e, portanto, cada vez mais diferente de um jogo a outro.

12 de outubro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Felipão era cobrada por comparar o presente pobre com o passado rico do futebol do Brasil

Amarrando cachorro e enchendo lingüiça

Parreira foi mal entendido quando disse que “o gol era um detalhe” no futebol. Dentro do contexto da explicação, o que disse o então treinador da seleção brasileira era um outro detalhe daquilo que pensava, e muita gente boa concordava – ao menos aquela que pensa, e não vai na valsa sem visão dos que só ouvem falar. E não vêem.

Mas a frase pegou. Eu mesmo adorava repeti-la para atazaná-lo. Coisa de criança. Soube, ou melhor, entendi só depois o que Parreira tentou explicar. Mas não foi feliz. Embora tenha sido mais correto que muitos que pegaram as letras, extraíram o contexto, e mandaram lenha.

Felipão se dá pior com as palavras em público. Internamente, não há boleiro que não goste dele. Quem o conhece também se admira pelo sujeito simples e franco, amável e bondoso, do mesmo jeito que é bronco e simplista, coberto de manias e fobias de perseguição.

Foi o Felipão infeliz no trato com as letras que falou do futebol de 58 e 62 como o do tempo em que “se amarrava cachorro com linguiça”. Não foi exatamente isso que o treinador quis dizer. Ele, como qualquer bípede, ama aquele futebol, aquele time, aquele jogo. Se tivesse os 11 que Feola tinha, não faria diferente do que fez o treinador de 58.

Felipão só tentou dizer que, agora, o futebol é outro. Não é tão bonito, não tem tanto espaço, não tem tantos gênios, nem tantos com talento. Enfim, coisas que qualquer quadrúpede reconhece. Mas nem sempre está disposto a falar. E quando um técnico competente põe o bigode para bater, ainda que dando de canela, deve ser entendido.

Só que o mundo não é assim. E o treinador da seleção, seja qual for, deve saber disso tanto quanto das armas dos times rivais.

14 de outubro de 2001

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Treinadores são gente como agente

Há quem veja em Felipão um pé armado do Taliban em nossos campos. Alguns acreditam que Luiz Felipe Scolari signifique Osama Bin Laden em árabe. Fontes do Planalto dão conta que o antraz estaria sendo feito em Canoas. Tem quem garanta que Felipão se refere às traves como as “torres gêmeas”.

Menos, gente. Muito menos.

Felipão é um técnico como tantos, mas melhor que a maioria. Está onde está por mérito, embora não esteja conseguindo o que ele esperava. Como quase todos, é um admirador do bom jogo, do futebol brasileiro na sua essência. Mas, como a imensa maioria que gosta de Sinatra, Monet, Mozart e Pelé, não consegue botar em prática aquilo que acha perto da perfeição. Tenta algo parecido, mas acaba ficando como o Zezé di Camargo, o Buchecha, um grafiteiro de viaduto, e o Jacozinho.

Treinador daqui ou do Haiti gosta das coisas boas. Daí a buscá-las, porém, o passo é gigantesco. E passa pelas deficiências dos jogadores, pelo passionalismo dos cartolas, pela cobrança das arquibancadas, pelo açodamento da imprensa, pela (in)cultura do resultado. Tudo atrapalha o trabalho do técnico. Tanto quanto seus temores, suas limitações, e a necessidade de sustentar a casa.

O jornal argentino “Clarín” mostrou como o treinador do mundo gosta dos bons times e dos bons jogadores. Como ele pensa como você. Eles escalaram o melhor time da hora. Uma equipe formada por Córdoba (?); Cafu, Nesta, Samuel e Roberto Carlos; Zanetti e Verón; Raúl, Zidane e Rivaldo; Batistuta. Um timaço, e com reservas como Figo, Owen, Thuram…

Nenhum volante. Só o ala Zanetti, convertido como tal, e o armador Verón, que desarma como os tantos volantes, mas arma como poucos meias.

Um time como o seu.

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    “Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades…” Parabéns por persistir no “diferente”, Beting!