8 ou 80 – 18 a 30 de setembro de 2001

por Mauro Beting em 08.out.2009 às 18:48h

O blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em setembro de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contam um pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos.

22 de setembro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Brasil de Felipão se preparava para enfrentar a seleção argentina, em Buenos Aires, pelas Eliminatórias-02–

Promessas que não são cumpridas

Nikiforov. Al-Shamrani. Lamptey. Duah. Kanu. Oruma. Caiu a ficha? Então vamos com o artilheiro Witeczek. Osundo. O goleiro Will. Addo. Kathiri.

Não, né? Pois é. Todos esses nomes foram ou campeões ou os melhores jogadores de um Mundial sub-17. É cedo ainda para saber o que a molecadinha de 93 para cá pode fazer nos campos do planeta. Mas já passou da hora para a turma de 1985, ano do primeiro mundial (então sub-16). Um torneio que acabou não revelando um jogador sequer na campeã Nigéria, e menos ainda na vice Alemanha (então Ocidental).

É muito cedo para cobrar bola de garotos de 17 anos. Mas é ainda mais apressado enxergar craques em qualquer time. O melhor brasileiro de 85 foi o canhoto William, meia do Vasco. Aquele mesmo que parou antes da hora; o melhor de 91 foi Adriano Gerlim, o Codorninha, que tinha alguns dos defeitos do nosso Neto que escreve aqui ao lado, e poucas das virtudes; e por aí vão tantos nomes que se perderam no campo e no tempo.

Pinçar promessas é fácil. Craques, não. Poucos são como Ronaldinho Gaúcho, que tive o privilégio de dizer o que viria a ser em menos de 45 minutos de transmissão, no Sub-17 de 97. Posso fazer o mesmo em relação a Leandro Bonfim, armador que o Vitória já perdeu para o PSV holandês. E dá para arriscar com o ponta-de-lança santista Diego. Ainda posso citar mais uns cinco desse ótimo time armado por Sérgio Farias, que há mais de ano montou essa excelente base.

Mas ainda é muito cedo. Tão prematuro quanto só enxergar virtudes nessa molecada promissora, e tão apressado quanto o futebol do Brasil, que não consegue segurar essas chuteiras imberbes, levadas ao primeiro assédio pelos dólares dos clubes da Europa.

23 de setembro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Felipão convoca o quase recuperado Ronaldo, ausente dos gramados desde abril de 2000

Demorou, e agora ele voltou antes

Ele voltou. Não sei que Ronaldo retornou aos campos. Nem ele sabe. Só sei que vai voltar outro. Não será mais aquele centroavante histórico que vazava defesas como lança. Mas tem tudo para ser um atacante diferente. Menos muscular, mais cerebral, ainda especial. Único.

Mas eu não teria feito o que Felipão arriscou. Sei que a convocação dele ainda não é definitiva, que a CBF, pela regra da Fifa, tinha de chamar ontem todos os estrangeiros possíveis para o jogo das Eliminatórias. Mas, mesmo assim, não teria levantado uma questão que parece fora de discussão. Ronaldo vai ser o titular absoluto do Brasil em 2002, e, certamente, na Copa que será dele, a de 2006. Mas ele não pode sequer ser reserva contra o Chile. Se a situação da seleção pede qualquer reforço, a de Ronaldo pede todo repouso.

Não levaria Ronaldo para uma seleção que pode ter França, que pode voltar com Romário, que até pode insistir com Élber. Mas não pode apostar na volta de quem não voltou.

24 de setembro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Fui bem… Simplesmente não citei o futuro campeão brasileiro entre os 8 (!!!) que estariam na fase decisiva…0

Quem é que sobe?

O Brasileirão é tão confuso que a metade não é o meio. Tem time que tem 14 jogos, a maioria, 13, e, ainda assim, a metade “exata” de 27 jogos não é 13. Nem 14. É algo no meio disso. É como todo o BR-01. Um meio muito confuso para se entender a inteira bagunça do nosso jogo.

E o G-8? Quem fica para a próxima fase ?

Arrisco já, sem a ordem definida: Palmeiras, Atlético Mineiro, São Caetano, Santos, São Paulo, Fluminense, Grêmio e mais um. Qualquer um, menos América, Santa Cruz, Gama, Botafogo paulista e Sport.

Sub-zero

O Brasil sub-17 jogou mal e perdeu para a melhor França do Mundial. Acontece. Mas como anda acontecendo com o Brasil, não? Jamais um sub-17 havia se preparado tanto e tão bem para um Mundial. O promissor time de Leandro e Diego não pode pagar faturas que não são deles.

Quem?

O Grêmio vendeu o volante Luís Fernando para o Lecce. Nunca jogou no time de cima, e já está calçando chuteiras na Itália. É o futebol subdesenvolvido

28 de setembro de 2001

Quem erra paga na Justiça italiana

Nosso Antonio Carlos, Zago lá na Roma, deu uma cotovelada dentro da área no lateral-esquerdo Vanoli, da Fiorentina.

O árbitro não viu o pênalti, mas a TV italiana registrou a imagem. Isso aconteceu na tarde do domingo. Na noite de terça-feira, depois de ler e reler o relatório do árbitro, e, principalmente, de ver e rever a prova de vídeo, o juiz esportivo Maurizio Laudi suspendeu Antonio Carlos por três rodadas do Campeonato Italiano.

Menos de três dias depois da infração, o jogador foi julgado e condenado. Sem reuniões prévias, sem defesas indefensáveis dos advogados de porta-de-vestiário, sem liminares dos membros dos tribunais esportivos, sem entrevistas para as rádios, sem julgamentos para as câmeras das TVs, sem nada. Errou, pagou. Só volta a campo quando cumprir a suspensão decidida em rito sumário, porém legítimo.

Enquanto por aqui se fala em tanta liga que não cola, poucos são os que defendem profundas e essenciais mudanças nos códigos, nos processos, nos tribunais, em suma, na justiça esportiva brasileira (com todas as minúsculas letras). Mudanças legais para legitimar o jogo jogado no campo, e não as jogadas de bastidores de gente que vive do futebol, mas por ele não morre.

29 de setembro de 2001

Vamos deixá-lo doendo em paz

Dona Helen, que sabe de futebol tanto quanto a grã-fina do Nelson Rodrigues, não quis acreditar. “Esse Ronaldinho que se machucou é o Gaúcho, né?”, perguntou no café da manhã. A resposta foi mais desanimada que o meu espelho matutino. “Não. Foi o mesmo”. Eu iria falar o “de sempre”, mas achei que os meus botões iriam me abotoar até a língua pela maldade, por mais real que fosse.

Mas o fato é que até a patroa passou a patrola num fato tão redundante como o futebol é uma caixinha de surpresas, o nosso calendário é uma bagunça, e ninguém tem dinheiro para nada. Ronaldinho se machucou. Ponto. Pouco importa que seja uma dor banal para um jogador de futebol, e normal para quem volta depois de dois anos à prática. O fato é que a dor foi na coxa direita, a alguns centímetros do tendão patelar que você só sabe que existe – ou que se chama assim – pela dor do “fenômeno”, assim designado com mais pressa do que Pelé foi entronizado como “rei”.

A proximidade do tendão roto com a coxa mordida dá um calafrio nas almas mais puras semelhante ao encontro com um barbudo com turbante num elevador de edifício de negócios. Não é nada, mas você agora teima em achar tudo. Não há maldade, nem preconceito. Há um temor que eu diria humano, na acepção que remete às raias da imperfeição e do erro, tão naturais quanto os meus cabelos.

É bonito ver tanta gente se preocupar com os joelhos, coxas e músculos de nosso maior ídolo. Mas é justamente essa preocupação doentia que deixa doer ainda mais o corpo e a alma de Ronaldo. Vamos deixá-lo doendo em paz. É o que melhor poderemos fazer para a saúde dele.

Além, claro, de esquecê-lo para as próximas convocações da seleção do Brasil. E não de Ronaldo.

30 de setembro de 2001

E, para variar, um pouco mais dele…

Pedi para deixar Ronaldo num canto, e olha o colunista sem assunto voltando ao tema de 11 em cada 10 chutadores esportivos. Mas não quero falar das dores do maior atacante do mundo. Quero elogiar os prazeres do menino de Milão.

Ronaldo comentou a contusão na Romênia com uma frase que deveria ser recortada e colada na porta do armário de vestiário de cada boleiro deste mundo que, em 2006, Ronaldo vai dar pra gente novamente. Disse o craque: “eu estava me sentindo bem na partida, me divertindo, quando…”. Não importa o resto, nem a análise da própria atuação. O que vale do que disse Ronaldo é o que deveria valer para qualquer jogador de futebol, daqui ou do Haiti: ele estava se “divertindo”. Ele estava “feliz” jogando bola.

Pode ser um discurso ensaiado com a Nike, uma frase ensinada por um dos tantos assessores, sei lá. Só sei que quem mais sabe neste planeta ainda se “diverte”. Ou pelo menos tenta (se) divertir em campo. Também sei que o profissional que tem um contrato vitalício com a Nike tem mais é que só pensar em festa até em velório e convenção do PFL. Mas que outro craque ou bagre raciocina do mesmo jeito, com a perdão da expressão?

Você só escuta que o time estava com “pegada, determinado, unido”, que o jogador tal “cumpriu o que o professor pediu”, que no futebol de hoje é preciso “compactar, diminuir os espaços, equilibrar o ataque e a defesa”, e tanto lugar-comum que nos deixa à beira da vala comum.

“Divertir-se” em campo? Só Ronaldo. Pode até ser que ele não faça exatamente isso, nem pense assim. Mas se outros ao menos tentarem fazer algo parecido, tudo aquilo que machuca o joelho dele e os olhos do mundo vai se perder pela linha de fundo.

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