8 ou 80 – 9 a 17 de setembro de 2001

por Mauro Beting em 17.set.2009 às 15:45h

O blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em setembro de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contam um pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos.

10 de setembro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Flamengo e Corinthians já eram desmanchados pelo mercado estrangeiro

Você estão mesmo seguros disso aí?

O zagueiro Marcelo fez um gol de falta. O meia Renato fez outro em sua estréia. Anderson esteve bem na zaga. O lateral Ângelo manteve o bom nível mostrado no jogo de Minas.

Pergunta valendo menos que o salário somado de todos: onde atuam esses quatro jogadores de futebol?

Se você respondeu Corinthians, sem pedir ajuda aos atrapalhados universitários do Silvio Santos, pode responder a esta questão. Em que time formou a seguinte zaga titular no último domingo: Alessandro, Anderson Alves, André Bahia e Anderson?

Se você acertou Flamengo, parabéns. Ou você não tem tido muita coisa a fazer nos últimos tempos, ou está mais antenado que muito treinador por aí (nenhuma das duas situações merece felicitação, porém).

Falamos de Corinthians e Flamengo, campeões estaduais de 2001. Linhas de montagem de vários jogadores de nível, e de muita tranqueira, também. Os dois mais populares times do país. Equipes que incensam craques indiscutíveis e bagres indescritíveis.

Mas tanta gente nova junta, isso só é notícia pelo bizarro. Mesmo que quase todos os acima citados já tenham passado pelas seleções sub-17 e sub-20, mesmo que o corintiano Renato não seja tão jovem, é muita gente desconhecida. Muita chuteira imberbe para pagar uma conta que não é dela.

A renovação é saudável. Na atual fase da bola, e no momento crítico dos cofres, é essencial. Mas sem método e juízo, todos esses peixinhos podem ser arrastados pela draga que vivemos.

Tem muita chuteira madura e sem emprego que poderia dar um pé nesses times.

13 de setembro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – A coluna falava do 11 de setembro e da Seleção Brasileira que corria risco de não se classificar para a Copa-02. A coluna do 12 de setembro fala só da dor. Que fique em paz.

Era uma vez, num país muito belo…

Ninguém achava que aquele império poderia ruir de uma hora para a outra. Impávido colosso, deitado eternamente em campo esplêndido. A terra prometida. Fazia a história como bem entendia, passava por cima dos adversários com engenho e arte, era admirado e respeitado por todos.

Todo o planeta estava de olho nele, nos seus passos, nas suas posses. Esse gigante gostava mesmo era de atacar. Dominar. Subjugar. Não tinha pra ninguém quando ele invadia a área adversária. Era o modelo. Era a epítome do espetáculo.

Sabia-se que não tinha lá tantos cuidados e modos com a defesa. Pelo espírito do seu jogo, pela tradição de suas vitórias em todos os campos, o ataque era sempre a melhor defesa. Ninguém parecia desafiar a sua autoridade conquistada de modo imperial e inexorável.

Mas até que um dia alguém tentou tirar uma lasquinha. Conseguiu. Teve sucesso usando as mesmas armas do todo-poderoso. O ataque.

Por ele se viu que a defesa era pior do que o imaginado. O gigante não sabia como resolver uma situação como aquela. E, quando acordou, baixou o nível. Saiu atirando como caubói de saloon, acertando os copos, mas não a garrafa. Pareceu perdido onde só via vitórias. Não sabia como lidar com o contra-ataque, para não dizer que não sabia mais era atacar, mesmo. Insinuar. Ousar. Buscar alternativas, descobrir falhas alheias.

A estratégia que não teve para se defender também não teve para bolar um contra-ataque. Perdeu o rumo e o jeito. Virou saco de pancada de quem só apanhava. Teve um jogo virado que era só dele, mas que foi copiado, entendido e colocado em prática pelo rival.

A bola não imita a vida. Mas o Brasil poderia imitar o Brasil dentro de campo.

14 de setembro de 2001

Pão, circo, e o imenso picadeiro

Nestes dias de cinzas concretas o cidadão precisa de abstrações luminosas. Um beijo, um sorriso, um abraço, uma canção, uma palavra, uma cor, um gol. Um ponto para se firmar, para mirar, para gozar. Um quê de não-sei-quê para não precisar perguntar mais nada, nem responder qualquer coisa.

O futebol é pão, é circo, é tudo a respeito do nada. O problema é que a gente que está no campo separa o joio do trigo, mas escala o joio. Arranca a grama e deixa a erva daninha. Joga o acessório e manda pra escanteio o essencial. Na grande área, no banco de reservas, na tribuna de imprensa, na de honra, no escritório do parceiro, no barzinho do procurador, o futebol virou quitanda de abobrinhas. Um negócio só. E ainda mal gerido por tanta gente que só quer meter a colher na cumbuca.

A responsabilidade dos irresponsáveis donos das bolas e boladas é maior que os bolsos deles. O cidadão precisa ter em quem e no que confiar. Precisa de algo para torcer e esquecer o memorando que a vida manda a toda hora por e-mail, por pager, por recado de secretária eletrônica. Um dos jeitos da gente se ligar para poder desligar é num campo de futebol. Atividade que pode ter bastante arte e muita competição e, ainda assim, não significar nada além da vitória da criança que ficou velha, mas não cresceu.

O futebol não é ópio, não é válvula de escape, não é alienação. É o melhor modo da gente se abrir. “O esporte não constrói o caráter, ele o revela”, escreveu Heywood Hale Broun. É pelo futebol que amamos de menino que a gente se reencontra com o moleque que foi perdendo a inocência a cada derrota que não se explica, a cada maracutaia que não se justifica, a cada bomba que cai no nosso colo que, no fundo, só quer mesmo voltar pro da mãe.

Petkovic

Ele faz um lance por jogo, às vezes um em tantos jogos. Mas é quase sempre o que decide, o que fica, o que vale pro Flamengo.

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  • Só lembrando que esse corinthians “desmanchado” em setembro de 2001, foi campeão paulista e da Copa do Brasil e vice do brasileirão no ano seguinte.