8 ou 80 – 2 a 8 de setembro de 2001

por Mauro Beting em 08.set.2009 às 16:56h

Toda semana, o blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em setembro de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contam um pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos.

2 de setembro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Brasil de Felipão precisava vencer a já clasificada Argentina em Núnez, pelas Eliminatórias-02

Empatar é o que vai nos importar

O Brasil vai empatar em Buenos Aires. É um chute, uma tese, uma torcida. Antes de tudo (e como será tudo esse clássico), é dever dizer que, por definição, um clássico equilibra as coisas. Por mais que a tabela, a balança e a bola se inclinem pro lado deles, a tradição, a história e até mesmo a classificação já assegurada para o Mundial dão aos argentinos menos obrigações e ganas para o jogo de quarta-feira. Somando tudo, incluindo nossas subtrações técnicas, táticas e organizacionais, as coisas ficam iguais.

E para que elas sejam mais iguais no campo, o Brasil vai ter de encarar a Argentina como um time superior. Não adianta a Seleção jogar de igual contra um time que está diferente, está muito melhor. Talvez o único pecado (mais pelo placar que pelo jogo) dos argentinos nas Eliminatórias foi jogar no Morumbi como se estivesse em Nuñez, na vitória do time de Luxemburgo por 3 a 1. O de Bielsa atacou o Brasil de igual, e sofreu nos contra-ataques os gols da derrota. Como se o estádio do São Paulo fosse o campo do San Lorenzo.

Não adianta atacar os hermanos como índios. O Brasil, até por ser um time imprevisível e indefinido, precisa primeiro se ajeitar como equipe para, depois, atacar. Vamos ter de marcar primeiro e, se der, tentar marcar os gols. Pode parecer uma retranca deslavada, mas é a estratégia mais coerente para o momento ruim que vivemos, e para a fase excelente do rival. O que não significa, porém, jogar todo o time atrás, com uma tropa de volantes numa trincheira no meio-campo, e um exército de zagueiros atrás deles. Há uma diferença que pode ser letal.

3 de setembro de 2001

O melhor time do mundo joga ao lado

Treze jogos depois da brilhante estreia contra o Chile, o esquema tático do time de Bielsa é o mesmo, o treinador também, e a equipe é praticamente igual. Se o Brasil escalou 59 (!?) de um grupo de 78 chamados para as Eliminatórias, a Argentina só jogou com 26.

Em Buenos Aires deverão estar como titulares cinco dos 11 que venceram o Chile na estréia. Mais não estarão pela suspensão do craque Verón (o melhor jogador das Eliminatórias); Batistuta fica fora pela teima de Bielsa em não chamá-lo para a (merecida) reserva de Crespo; outras trocas se devem ao crescimento técnico e tático do zagueiro Vivas e do ala Sorín. No mais, é o time que mais venceu, mais gols fez, mais jogou, e mais alterou taticamente a equipe sem mudar os nomes dos escolhidos.

Um simples recuo de Verón e de Ortega (ou Aimar) pode fazer a Argentina mudar taticamente de três modos. Um posicionamento mais recuado de Ortega e Kili González modifica a criação, o ataque e o cerco ao rival. A passagem de Sorín pela esquerda pode fazer a equipe jogar com mais um armador, um novo volante, ou até mesmo um lateral-esquerdo ortodoxo. Tudo sem mexer um nome, só o time.

Bielsa

Chegou à seleção por exclusão, e levou um ano para achar um time e um jeito. Mas insistiu nele até quando nem a bola dava mais pelota a ele.

Ninguém estuda, trabalha e tenta entender mais o futebol que o técnico argentino. Chega a ser chato de tanto que cobra e se cobra. Até por isso tem algumas rusgas com o elenco.

Bielsa funciona muito bem no trato rápido e intenso com um grupo que já sabe o que quer e o que ele deseja. Talvez num torneio longo o desgaste seja maior. Daí…

5 de setembro de 2001

Eduardo Costa, Cris e o Brasil

BUENOS AIRES – Vai dar empate. Mas vai ser um jogo de arriar as meias. Os primeiros 15 minutos serão históricos. O Brasil vai atacar como se não houvesse amanhã, a Argentina vai responder como se tudo fosse hoje. Prepare os corações já calejados. O mês vai durar 90 minutos.

Não vejo as soluções táticas e as questões técnicas com os mesmos olhos de Felipão. Ele diz não ter um zagueiro-esquerdo confiável (Antonio Carlos?) e, por isso, vai de Cris no lugar de Juan – o de melhor potencial. Troca a fase irregular de Vampeta ou a fluidez de Juninho pela solidez de mais um volante (Eduardo Costa). Em vez de usar quatro zagueiros no bloqueio aos três atacantes argentinos, Felipão aposta nos três atrás, provavelmente espaçados e muito distantes para tamanha tarefa.

São detalhes essenciais para um jogo que vai se definir além deles. Muito se tem escrito a respeito de como o Brasil pode parar a avalanche argentina, e quase nada se tem dito de como a seleção pode ganhar o jogo. Sinal dos tempos. O time deles é muito melhor, e o nosso não tem tanta gente para ganhar um jogo. É a mediocridade dos dias, e a solução para hoje. Ou, como diz o treinador, e repetem como papagaios os nossos canarinhos, “o Brasil precisa se classificar para, depois, jogar futebol”.

É o ponto (perdido) a que chegamos. Ganhar pontos não é sempre sinônimo de jogar bola, ou fazer o “jogo bonito” dos brasileiros. Jogar futebol e ganhar os jogos não tem sido redundância. A técnica não tem sido a mesma, os técnicos foram cinco em três anos, 140 jogadores foram convocados depois da Copa, e a seleção formou um bando debandado a cada derrota. Vencendo ou não, que Felipão possa manter uma base. Se a tiver encontrado, claro.

Notas

7 de setembro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Brasil de Felipão perde de virada para a Argentina por 2 a 1 e segue com dificuldades para se classificar para a Copa-02

Das falhas deste solo és mãe gentil

BUENOS AIRES – É normal perder um jogo aqui na Argentina. É natural um time melhor vencer um pior. Só não pode ser normal uma seleção tetracampeã fazer um gol pela cabeça de um argentino, e perder um jogo pelo pé de um brasileiro, nos dois gols contra do clássico. Pode menos ainda o Brasil só pensar em se defender, se é que se pensa quando só se defende.

Ayala e Cris trocaram os sinais. Fizeram o que o solitário Élber e o tridente do ataque argentino no segundo tempo não conseguiram. Gols. As bolas foram todas trocadas. Foi assim na hora do almoço na Plaza de Mayo: uma bateria bem tocada e sincopada mandando bem um batuque brasileiro. Mas era só um piquete de bancários argentinos, pedindo o que os nossos também exigem. É a globalização total. Mas, nessa, quem cantou a bola não viu a cor da mesma no segundo tempo.

O Brasil foi imitado no batuque da manhã e no jogo da noite. A Argentina sentiu a falta de Verón. Respeitoso, Bielsa só escalou dois atacantes nos primeiros 45 minutos. E, também por isso, o Brasil marcou muito bem, equilibrou o meio-campo, e contra-atacou com método e velocidade. Ganhou um gol, mas poderia ter ganho o jogo.

O segundo tempo foi o esperado. Bielsa voltou ao 3-3-1-3 ultraofensivo, e o Brasil voltou a jogar mal. Isolou Élber. Perdeu Rivaldo e Marcelinho Paraíba. Não segurou a bola à frente, não catimbou, não trocou a bola, e não trocou os jogadores como deveria. Faltou Lúcio na área no gol de empate, sobrou Cris na área no gol da virada.

A derrota fora de casa é do jogo. Mas essa bola que os nossos têm mostrado não é do nosso jogo. Culpa do técnico, também. Mas é muito mais da nossa técnica. Tão virtual quanto a inteligência artificial de nossos cabeças.

Culpado?

Felipão não sabe mais o que fazer. Sei que muitos vão dizer que ele já não sabia antes. Mas, com o que tem nas mãos, é isso que dá para ser feito.

Se nossos treinadores têm muitas responsabilidades na formação dos atletas e na deformação dos times, os nossos boleiros é que resolvem (sic) as questões no campo

Felipão é franco demais para um cargo tão político. Ele fala o que pensa e, por isso, nem sempre pensa no que fala. O desgaste vem daí. Tanto quanto os placares.

8 de setembro de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Quando assumira o Brasil, em 2000, Leão convocou o volante Leomar (Sport), e disse que era um típico “jogador nota sete”. Embora não passasse da média cinco. Raspando…

140 leomares, e nenhum nota dez

Você já deve ter lido e ouvido todo tipo de impropério para o segundo tempo do fraco Brasil (desfalcado de Ronaldo, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Djalminha, Juninho Paulista, Émerson, Edílson, Rogério Ceni e outros tantos nomes possíveis) contra o ótimo time argentino (privado de Verón, Riquelme, Batistuta, Saviola e outros menos que jogam ou têm jogado mais que os nossos).

Já ouviu barbaridades contra os métodos, os modos, as manhas, as manias, os medos de Felipão. Do OVNI da Tiazinha às cestas básicas da Jenifer, tudo tem o dedo e o bigode do treinador para muita gente boa. Gente que viu a nata da bola, mas que teima em não tirar a nata do leite quando ele azeda. Sobretudo quando as vacas andam magras em nossos campos.

Felipão não é um gênio da raça. Mas não é burro. É dos melhores treinadores do Brasil. Dos melhores do continente. Dos melhores do mundo. Não tem tanta gente boa lá fora nos bancos, não. Tem muito treinador do nível do nosso técnico da Seleção. Todos eles do mesmo nível de uns 100 jogadores do Brasil. Um bom nível. Mas ninguém muito acima da média.

São muitos treinadores nota 7 em tudo. Nenhum ganha um 10. É a conta exata dos 140 jogadores que nossos quatro treinadores convocaram em três anos: vários jogadores nota 7. Nenhum 10. Na média, é esse futebol abaixo da própria que a seleção tem jogado por aí.

A virada de Buenos Aires tem muito da tática acanhada do Brasil e da estratégia ofensiva da Argentina. Mas tem muito mais da debilidade técnica de um time que não sabe o que fazer com a bola e a vantagem nos pés. Por mais que o técnico tenha as suas responsabilidades, a culpa, mesmo, é dos que estão lá no campo. Sempre.

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