8 ou 80 – 24 a 30 de julho de 2001

por Mauro Beting em 30.jul.2009 às 23:27h

Toda semana, o blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em julho de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contam um pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos

25 de julho de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Brasil de Felipão perdeu para Honduras por 2 a 0 e foi eliminado da Copa América na Colômbia convulsionada

Para algo serviu a Copa América-2001

Copa da Paz. Copa da pá de cal na euforia afoita trazida no fio do bigode de Felipão. Não é de técnico o problema, é de técnica. A solução da seleção passa pelo túnel, mas é questão dos treinadores da base (que não formam boleiros) e dos “supertécnicos” (que deformam os times). Perder de Honduras é mérito deles, também. Mas demérito de quem só sabe de técnica, mal conhece tática. De quem sabe o que faz com a bola, mas não sabe como recuperá-la. De quem veste uma camisa tetracampeã, mas joga como se estivesse nu. De quem não sabe se joga de amarelo ou azul, se joga como Brasil ou Samoa. De quem não sabe mais nada.

A derrota, mais uma, teve de tudo. Não sobrou nada. A seleção começou armada para aprender a jogar com três zagueiros, mesmo que à frente só estivesse um hondurenho. Como Felipão ainda não tinha segurança no esquema e nos homens, meteu mais dois volantes no meio. E o Brasil ficou desgovernado, carente à frente, superprotegido atrás, perdido em todo o campo. Prato farto para o azedume dos que não querem ver três zagueiros nem pintados de amarelo. Ou azul. Sei lá.

Segundo tempo, Felipão tira como deveria um dos zagueiros. Em 11 minutos o Brasil cria mais, ousa mais, chega mais. Em alguns segundos a zaga toda bobeia, Honduras abre o placar. A seleção perde o prumo e prima pelo ridículo. Jardel vai ao jogo e a bola não vai a Jardel. O tetracampeão do mundo depende das bolas levantadas na cabeça de um poste, que só recebe o vento dos cruzamentos pela linha de fundo. Prato cheio para os que defendem que não há como o Brasil se defender bem sem um terceiro zagueiro.

No frigir das bolas, quem tinha razão era o Mauro Silva, que não foi para a guerra vergonhosa.

Salada

Em pratos limpos, o Brasil empatou muito mal com três zagueiros, e perdeu muito feio com apenas dois. A questão não é de números. É de letras.

Tá mal…

Tanto faz jogar o Brasil titular de amarelo ou o reserva de azul; estrangeiros que ganham em dólar ou nativos que perdem os reais; medalhões carimbados ou figurinhas fáceis; catedráticos de Luxemburgo ou scolaris de Passo Fundo; bandidos ou santos; três zagueiros ou 11 atacantes; 3-5-2 ou 4-4-2. Tem dado tudo no mesmo, no nada.

Ectoplasmas

Felipão dirigiu um trem assombrado e deu de ficar vendo fantasmas em suas expulsões e nas arbitragens da Copa América. Menos, Felipe.

Más novas

De Felipão: “essa é a forma como vamos jogar contra o Paraguai”; “o segundo tempo foi ótimo”. “Perder um jogo de futebol para Honduras não é vergonha”.

Boas novas

Mais Scolari: “é horrível (perder um jogo para Honduras)”; “80% desse grupo vai jogar contra o Paraguai”. De Guilherme: “ nós (jogadores) somos os únicos culpados”.

26 de julho de 2001

Somos todos os pais das crianças

A culpa é da bola, que entra na meta brasileira mais vezes do que antes, e que entra menos na “goleira” alheia – como se diz no Sul. A culpa é do grama (a unidade de medida), que faz a camisa amarela pesar mais do que antes (e até a azul). A culpa é da arbitragem, que não marca mais pênaltis discutíveis para a gente, e só anula um gol legítimo deles. A culpa é da Conmebol, que desmarca e marca um torneio sem a menor vergonha e faz a gente passar outras tantas. É também culpada pela suspensão furreca do Murtosa, que não podia ficar no banco, e ficou do mesmo jeito.

O culpado foi o telefone sem fio (não o celular), que fez cada instrução de Felipão passar pelo auxiliar, pelo preparador de goleiros, pelo coordenador, pelo massagista, até não ser entendida pelo jogador da Seleção. A culpa também é da altitude de Manizales, da baixitude de Cali, do nível do mar de Montevidéu, do fuso do Japão… É do calendário. É do tempo para treino. É da safra de jogadores. É da cifra dos jogadores. É da cepa dos treinadores. É da selva dos cartolas. É dos selvagens das arquibancadas. É dos senhores dos patrocínios. É dos jornalistas que vendem, dos que se vendem, dos que são vendidos. Dos que não vendem, não se vendem, e não estão no mercado.

É culpa de tudo. De todos. E da gente que se acha mais que todos, que tudo. O Brasil não invade mais ninguém como se fosse Granada. Todo jogo é Vietnam. Não é fácil para quem faz as coisas difíceis. É tempo de botar o melhor time possível em campo. E, no gramado, fazer com que ele encare todo jogo como se fosse o final não de uma Copa, mas do próprio mundo. É hora de o Brasil jogar como Honduras. Para não perder como se fosse igual.

A propósito: já perdemos com os titulares, com os reservas, com bons técnicos, com treinadores nem tanto. Já tivemos quatro técnicos desde 1998, mais de 100 jogadores. E só um cartola.

29 de julho de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Discutia-se se o Brasil deveria jogar mais vezes com a camisa amarela ou com a camisa azul – que estaria dando sorte…a

A solução é tirar o que tem pesado

Se a camisa da seleção pesa. Se a cor – amarela, azul, de burro-quando-foge, de bagre-quando-joga – não importa mais. Se ninguém mais respeita a amarelinha, a azulzinha, o amarelão. Se não existe mais amor à camisa – de qualquer cor, de qualquer time. Se a camisa é um outdoor… Então, que se jogue sem! Seleção descamisada. Sem cor, sem lenço, sem documento.

Que o Brasil jogue nu. Sem camisa. Pelado. Como se joga pelada. Um time com camisa, de qualquer cor, e outro sem camisa. Nem colete, que isso é coisa de escolinha de futebol. Que se jogue pelado como nas peladas de rua, de campinho, de terra, de grama, de areia, de qualquer coisa. Futebol que todos esses que estão de mal com a bola um dia já jogaram. Um jogo descompromissado, desinteressado. Passatempo. De criança.

Futebol brasileiro, enfim. Sem camisa. Sem chuteira. Descamisado e descalço. Sem amarras. Para ver se a gente vai pra 2002, na marra, sem medo. Pode parecer poesia de telenovela, mas é do resgate da alma que a gente resolve problemas que a nossa cabeça não sabe equacionar.

O time é esse aí. Não adianta praguejar, lembrar craques de antanho, ou mesmo bons jogadores que ainda estão por aí. É fácil repisar todos os nossos erros, citar todos os acertos dos outros. Nem é preciso lembrar das bolas e boladas levantadas pelas CPIs, e das contas que devem ser pagas pelos que ainda não foram pegos. Nada disso vai resolver o que a Seleção precisa começar a reverter em 15 de agosto. Vencer o Paraguai em Porto Alegre. Ganhar três pontos para chegar a oito da classificação para 2002. E, daí, continuar a revolução de modos e nomes. Só não pode ser um paredão amplo, geral e irrestrito. Essa “chacina” poderia fazer perder quem ainda tem muito a ganhar.

Emerson

O volante da Roma não é o fino da grossura como muita gente boa diz. Também não é o “novo Falcão” saudado pelos romanos. Émerson é só um bom jogador. Merece ser o capitão da Seleção. É o exemplo perfeito e acabado (mais acabado que perfeito) do momento do futebol. Sem tirar (uma bola) nem pôr (um passe).

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