8 ou 80 – 16 a 23 de julho de 2001

por Mauro Beting em 29.jul.2009 às 1:10h

Toda semana, o blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em julho de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contam um pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos.

17 de julho de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Brasil de Felipão venceu o Peru por 2 a 0 na segunda partida na Copa América realizada na Colômbia convulsionada

Traques em vez de bombas e craques

Tudo azul no Brasil. O amarelão do time que tinha medo de tudo foi trocado pela camisa reserva que vestiu uma equipe não muito distante disso. Mas que venceu o Peru. É pouco, quase nada. Mas é um começo para quem só via o fim de tudo.

Nada de bombas, muito menos de craques. Apenas uma vitória simples para minimizar muitos dos nossos complexos. Tudo deu certo para quem errava tudo. Um gol, um belo gol, com menos de 10 minutos de jogo; um adversário ainda mais medroso (com um só atacante, e apenas um armador); atuações individuais medianas ou menos catastróficas; um plano de jogo precavido e bem entendido; uma expulsão no momento de maior sufoco do Peru; um Denílson inspirado – até chutando bem de longe!; uma vitória para aliviar, jamais para celebrar.

Se não tem faisão, vai peru mesmo. O importante era acabar com o jejum. Alimentar-se bem? Depois. Necessário era fortalecer o corpo e o espírito. Agora, com calma, a seleção e Felipão podem respirar um pouco mais, e até imaginar dias e jogos melhores.

A defesa com três zagueiros-zagueiros esteve menos exposta (e, também, quase nada atacada pelo encolhido Peru). Juan estreou bem. Os laterais convertidos em alas, com maior liberdade para compor o meio-campo e buscar o ataque, tiveram seus momentos. A armação de lances também teve um ou outro repetente. Mas a equipe só engrenou com um peruano a menos. Pouco, quase nada. Mas é um começo para quem só via o fim de tudo.

A vitória do Brasil não pode e não deve botar o sorriso na cara de ninguém. Serve apenas para enxugar lágrimas e aliviar rugas. Pelo menos disso essa seleção parece saber bastante.

20 de julho de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Brasil de Felipão venceu o Paraguai por 3 a 1 e se classificou para a segunda fase da Copa América realizada na Colômbia

Denílson foi onze, o Brasil, sete

O 11 foi 10. Deznílson. O ponta jogou pelo expulso Roque Júnior e venceu por todos. Brilhou como berrou o torcedor de Cali. Denílson foi o futebol brasileiro. Aquilo que o colombiano e o venusiano entendem por “jogo bonito”, sinônimo de Brasil.

Denílson fez quase tudo. Alex, Émerson, Marcos e Juan fizeram muito. Quase todos fizeram bastante. O que ainda é muito pouco para quem tanto ganhou. Mas já é o suficiente para olhar a seleção com os olhos de sempre.

O Brasil continuou dando gols, errando passes, marcando passo, perdendo bolas bobas. Mas voltou a jogar com tesão. Assumiu a responsabilidade da camisa (amarela) que veste. Ousou criar. Bolou lances. Variou jogadas. Ao menos tentou.

A seleção criou pelo menos 10 grandes chances de gol. Pelas minhas contas, desde a fácil goleada de 5 a 0 sobre a Bolívia no Maracanã, em setembro de 2000, a seleção não criava tantos lances num só jogo.

Se o Brasil teve a vitória sobre o pobre Peru facilitada pela superioridade numérica, desta vez a nossa inferioridade não pesou. Mérito da estrutura tática da equipe, da aplicação individual, e, mais que tudo, do camisa 11 que jogou por todos os números, desequilibrando uma fatura que a arbitragem argentina parecia propensa a entregar aos paraguaios. Denílson driblou tudo e todos. Deu bolas de bandeja, e ainda deu uma sorte do tamanho do seu talento no gol que ganhou dos céus.

A vitória pode ajudar a reencontrar um novo velho Brasil. Um time arrumado atrás para desarrumar na frente. Uma equipe que começa a driblar os problemas, fintar os adversários, e chapelar os próprios cartolas. Gol de um Brasil que ainda deve muito. Mas que pode mais.

notas

Viradas

Foi a primeira vitória de virada do Brasil desde os 3 a 2 sobre o Equador, em 2000. Em 2001, foi a sétima de Felipão, contando seis com o Cruzeiro. Pelo Palmeiras, foram 9 vitórias de virada de Felipão em 1998. Quinze das 42 vitórias verdes em 99. E mais cinco viradas em 23 jogos pelo Palmeiras em 2000. Haja emoção.

22 de julho de 2001

Grupo fechado? Só na penitenciária

1989. Brasil quebra no Maracanã um jejum de 40 anos sem títulos da Copa América. Depois de quase ter perdido o cargo no meio da competição, Lazaroni ganha o título e “fecha com o grupo convocado”.

1990. Dezesseis boleiros campeões da América não passam da nona colocação no Mundial da Itália. O “grupo fechado” não foi aberto para Neto e João Paulo. O time ficou retrancado com três zagueiros, dois alas presos, dois volantes e um só armador, o “horizontal” Valdo. Romário (baleado), Tita e Bismarck (um reserva do outro no Vasco) ficaram. O time de Lazaroni fez história como o pior desde 1966.

2001. Comissão técnica da seleção dá sinais: caso o limitado grupo convocado por Felipão ganhe a Copa América do improviso, do medo e dos times mistos, esse elenco mediano pode ser mantido como base para as Eliminatórias…

Uma coisa é você ter um grupo na mão, como Felipão sabe deixar seus times no fio do bigode. Quando isso acontece, o mérito do treinador é inegável. É o ideal para qualquer equipe, do CSA ao Palmeiras. Mas esse time é o Brasil. Essa equipe é a seleção. O grupo dos melhores do país do melhor futebol.

A fase é braba. Os melhores já não são os tais. Os adversários melhoraram. O Brasil piorou. Mas não pode, não deve, não precisa descer ao subsolo. Rebaixar-se é enterrar os pés a sete palmos do chão.

Manter um time é necessário. Definir um grupo de uns 30, 35 jogadores, é meta de Felipão, e necessidade de qualquer seleção. Mas fechar esse grupo por suposta amizade e companheirismo, pela tal “união” sempre falada e pouco vista, é perder de vista o talento brasileiro. E pedir para perder outras coisas.

Têm de jogar

Não dá para não chamar o talento e a bagagem de Romário, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu, Vampeta, Djalminha, Marcelinho, França. E Ricardinho. E Edilson. E Antonio Carlos. E Lúcio. E Rogério Ceni. E César Sampaio. E Ronaldinho Gaúcho. E Ronaldo. E Élber. E Serginho. E André Luiz. E Júlio César. E Hélton. E Ricardinho do Cruzeiro. E Edmilson. E Luizão. E Geovanni. E tanta gente de nível que não foi. Mas que pode ir em qualquer lugar.

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  • Guilherme

    Naquela época, tava me dando um receio de ver, pela primeira vez na história, uma Copa sem Brasil. E foi uma das cinco Copas mais com Brasil que houve. Você apontou Ricardinho, e ele foi, no lugar do Émerson machucado. Rivaldo arrebentou, Ronaldo reviveu pela primeira vez, Lúcio foi o melhor zagueiro da Seleção (o que não é difícil quando os outros são Roque Jr. e Anderson Polga), Edmilson fez uma puta Copa do Mundo, Cafu foi o capitão incontestável, líder nato, e Ronaldinho Gaúcho, à época ainda do PSG e com cabelos mais curtos, fez um gol antológico contra a Inglaterra.

    Só não sei o que foi acontecer com Denílson e França. Durante as eliminatórias e amistosos preparatórios, ambos estavam comendo a bola. Denílson acabou indo pra Copa, não lembro se foi o caso do Françoaldo. Só que ambos hoje não desfrutam mais de glórias em grandes clubes. Denílson chegou a ir parar em um clube vietnamita (!!!) e França jogou Segunda Divisão japonesa…

  • http://www.91rock.com.br/blog/futebolecoisaseria/ Cleverson Bravo

    poxa Mauro, você poderia dizer onde cada texto saiu especificamente: qual foi para a web, qual para o impresso
    ou será que o mesmo texto ia para todos os lugares?

    CLEVERSON, os textos foram publicado no “Agora S.Paulo”. Não estavam à época na web.

  • http://shortgo.blogspot.com/ Marconi Andrade de Moraes

    Mauro, o “senhor” escolheu uma época terrível (2001) pra falar de Seleção brasileira. De 98 a 01 foi só decepção.

  • http://www.esquemastaticos.blogspot.com/ Marcelo Costa

    Denílson jogando bem… Interessante como as coisas mudam. Mas Denílson já jogou muita bola, embora haja uma insistência em se dizer que ele era só um malabarista. Lembro-me que ele era o titular para a Copa de 98 até, às vésperas da competição, Zagallo mudou o time titular e ele foi sacado (acho que Geovani, do Santos e do Barcelona, entrou em seu lugar). Acabou sendo reserva.

    Mauro, aproveito o momento “memória” para dizer que estou fazendo uma série em meu blog Esquemas Táticos chamada Esquemas Clássicos. Nela eu analiso taticamente seleções, times e jogos que entraram para a história do futebol mundial. Comecei a série esta semana com a Seleção Brasileira de 1982, especificamente com o jogo Brasil 4 x 1 Escócia. Eu faço o seguinte: assisto aos jogos, faço o desenho tático, desenvolvo um gráfico interativo com os principais movimentos de ataque e defesa observados, coloco um vídeo com os gols da partida e um outro vídeo com gráficos animados da movimentação da equipe.

    Também fiz uma enquete para que os leitores decidam que Esquema Clássico querem ver na próxima semana.

    Espero que gosto. Aguardo sua visita e a sua opinião.

    Abraços,

    Marcelo Costa.

    http://esquemastaticos.blogspot.com/2009/07/classicos-video-tatica-brasil-1982.html

    MARCELO, parabéns pela iniciativa. vou pitacar.
    e espero que vc goste do meu novo livro que também vai nessa área

  • Murilo Souto

    Resposta a :MURILO, muito grato, eu tenho, sim. evidentemente não é preciso dizer como é maravilhoso de ouvir, independente do resultado não menos.

    Pois é Maurão eh uma delicia mesmo , pareço voltar para uma época em que nunca vivi, pena que hoje não cabe mais quase nada dos estilo daquela época como a maneira de torcer, de se ouvir um partida pelo rádio com a forma que se narrava antigamente, de como se jogava futebol….E não estou criticando a atualidade, longe disso, pois existem torcidas maravilhosas, cronistas espetaculares como o Zé Silvério, e times que ainda encantam, mas acho que antigamente havia mais paixão, apesar de que paixão não se mede, mas acho que você me entende e concorda comigo, que havia um algo a mais isso havia…Pois é aqui fica a saudade de um tempo em que não vivi…

    Um grande abraço…e hoje que seja uma boa estréia p/ Muricy em nosso Verdão…

  • http://blogs.abril.com.br/futebolearte André Rocha

    Muito legal a análise do Marcelo Costa! Parabéns!

    Mauro, o boteco fechou?

    ANDRÉ, até o fim de agosto, como vc bem sabe, o boteco será apreciado e escrito com moderação.

  • André Maltempi

    Mauro eu sei q não tem nada a ver o q vou dizer com o texto acima mas não fique bravo comigo e espero q vc ria muito.rsrsrsrs
    ‘’MURICY RAMALHO FOI APELIDADO PELOS JOGADORES DO PALMEIRAS COMO ‘BERNARDINHO’.TROCOU A SELEÇÃO FEMININA PELA MASCULINA”. mas acho q é mentira pq o SP nunca foi seleção…
    hahahahhahahhahahahhaa saudações ALVI VERDE