8 ou 80 – 1o a 7 de julho de 2001

por Mauro Beting em 10.jul.2009 às 8:06h

Toda semana, o blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em julho de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contam um pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos.

1º. de julho de 2001

N.R.-2009 – Felipão estreava naquele domingo contra o Uruguai, pelas Eliminatórias-02

Povo que precisa de salvador não…

O Brasil tem mais time que o Uruguai. Lá, aqui, em qualquer campo. Se Felipão não pôde escalar o time como queria, Victor Púa, menos ainda. O técnico uruguaio teve mais dias para trabalhar o elenco dele. Mas o grupo do brasileiro é melhor, mais rodado, e com os 11 que começam o jogo como titulares em seus times. Ao contrário de 5 dos eleitos de Púa, reservas em suas equipes européias.

O septuagenário estádio Centenário será lotado por uma torcida tão amarga e exigente como a do quarentão Morumbi. No banco uruguaio estará outro quarentão com cara de sessentão, respeitado pelo bom trabalho nas seleções de base de lá. Na outra “casamata” (como dizem lá na terra dele), estará a alma gaúcha mais amada pelo brasileiro depois de Gisele Bundchen (embora não seja a “alma” objeto de admiração e… vamos ficar por aqui, antes que eu apanhe).

Felipão vem de bomba, cuia e chimarrão para defender o Brasil na fronteira que ele bem conhece, contra um estilo que respeita e até admira. Mas não teme. Esse é o Brasil que ele vai tentar resgatar. Um time que não teme, treme. Uma camisa que não se veste, ganha. Um futebol que não estuda adversário, ensina o rival.

Mas tudo isso virá com o tempo, e, também, com alguns outros jogadores. Felipão não é salvador. Ninguém foi. Ninguém de banco será. Quem resolve as paradas são os que estão lá no campo. Lá no Uruguai o Brasil vai ter gente boa. Nem todos na ponta dos cascos, alguns até que nem deveriam estar por lá. Mas é o que temos. É o que basta para ganhar o jogo. Que a Copa ainda está muito longe.

E se não der? Fica pra outra. Mas que fiquem os mesmos.

2 de julho de 2001

N.R.-2009 – Uruguai joga melhor e vence o Brasil na estreia de Felipão

Veja bem… sabe como é… aí, né…

Falar o quê? Escrever o quê? O de sempre, mesmo que com outros autores, atores, e amores. O Brasil errou passes, confundiu-se em campo, afunilou o jogo, levou um gol em lance de contra-ataque, embolou a partida e a classificação nas Eliminatórias. Em resumo: o Brasil de Felipão foi igual ao Brasil de Luxemburgo e ao Brasil de Leão. O que rima, mas não combina com a tradição da seleção.

Felipão tentou. Deu liberdade aos alas, mas eles jogaram como reles marcadores, ou meros mercadores de ilusões: afunilaram os lances, raramente foram ao fundo (a não ser o do poço). Os zagueiros foram cobertos por mais um deles (Roque Jr.) e um volante (Émerson). O problema é que Roque não foi zagueiro e nem volante – foi armador dos dois melhores lances uruguaios, o do gol, e o de Recoba, no início do segundo tempo. Juninho até tentou, e foi o melhor deles.

Mas e Romário? E Rivaldo? E Élber? E Pelé, e Rivellino, e Zico? Qualquer um que estivesse por lá não receberia as bolas que o Brasil perdeu pelo campo, e pelos passes. Não foi nenhuma grande partida do Uruguai, não, um time apenas limitado. Mas que sabe disso. O problema é que o Brasil foi ainda mais limitado. Ou pior: não foi. É limitado. Menos que eles, sim, mas tem suas limitações.

Não somos mais os melhores, a bola já sabe. É preciso que o Brasil aprenda isso, como até o Uruguai já sabe.

PS: deu impressão de gol a falta que Carini defendeu de Rivaldo. Mas para dar um gol como aquele é preciso ter convicção. E haja convicção e coragem para dar um gol daquele no Uruguai, em jogo de Copa do Mundo. Ou, pelo que andam fazendo Brasil e Uruguai, jogo de Eliminatórias…

3 de julho de 2001

Dever adquirido de jogar bonito

Você já se encheu de ler por aqui que a questão é de técnica, mais que de técnico. Que o Brasil tem o melhor futebol do mundo, mas não tem mais os melhores jogadores do planeta. Que o brasileiro sabe o que fazer com a bola nos pés, mas não sabe como tirar essa bola de outros pés. Que tudo que o Brasil sabe de técnica ele desconhece de tática. Que o brasileiro não dá bola para o jogo sem bola, e que sempre busca a resposta individual à questão coletiva.

Quase tudo isso se viu na irritante derrota para o limitado time do Uruguai. Menos o drible. A não ser duas ou três tentativas de Juninho [Paulista], o Brasil empacou no Uruguai na absoluta falta de inspiração criativa. Esse é um dos tantos pontos perdidos pela equipe brasileira – para não falar da bola nacional como um todo.

A Seleção não é formada só para vencer. Ela precisa encantar. Tem de divertir. Tem o dever adquirido de preservar o bom jogo. No mínimo, o bom futebol. Um bom passe, um ótimo lançamento, uma grande finta, um drible bem executado. Na pior das hipóteses, uma tentativa de drible, um toque mais ousado, uma finta abusada.

Não se viu no Uruguai nem uma coisa, muito menos a outra. Não houve o drible, a ginga, a finta, a magia. Não se viu não só pelos lances não terem dado certo. Não se viram jogadas assim por elas sequer terem sido cogitadas. Ninguém tentou, ninguém bolou. Parecia haver uma ordem expressa para que ninguém arriscasse nada. Para que as bolas fossem jogadas de um lado a outro, sem profundidade, sem criação. Sem futebol. Sem Seleção.

Que o Brasil se defende como um time de terceira categoria, até o Ricardo Teixeira sabe. Mas que o Brasil “cria” lances como se fosse Samoa, o mundo já começa a desconfiar.

Imprescindível?

Sou Romário de caderneta. Manteria o Baixinho até o fim do jogo com o Uruguai. Mas não sei se o mandaria a campo no próximo jogo.

Sou Rivaldo de coração. Manteria o 10 do Brasil até os 90 minutos no Uruguai. Teria colocado Alex para ajudá-lo no segundo tempo. Mas só Rivaldo mesmo pode se ajudar.

Talento

Felipão não iria, e não vai salvar pátria alguma. Felipão não vai ser o burro expiatório da vez. Nem os jogadores. Não faltou garra, vontade. Faltou – e falta – qualidade.

Obrigado

A CBF agradece à Fifa pela ampliação do número de vagas para a Copa do Mundo. Fossem só 24 países, o Brasil correria sérios riscos de cair fora. Com 32, vai dar.

5 de julho de 2001

Romário deve jogar até quando quiser

1992. Romário quer jogar a Copa de 94, ganhar o título mundial, e pendurar as chuteiras logo depois, aos 28 anos.

1994. Romário levou o Brasil ao Mundial em 93, e trouxe o mundo em 94 dos EUA. Outra Copa? Só pela TV.

1997. Por absoluta falta de concorrência, Romário volta à seleção. Nela fica até a panturrilha cortá-lo do Mundial da França. A contragosto, cumpre a promessa: vê a Copa pela TV.

2000. Romário quer o ouro olímpico. Luxemburgo não o quer. O Brasil perde a medalha, e o técnico, o emprego.

2001. O homem dos 73 gols em 2000 mantém a excepcional média de quase um gol por jogo. E não precisa fazer média com ninguém. Detona quem quer (do técnico ao presidente da CBF), escala os parceiros, e só perde para as batatas das pernas. Mas segue em campo por falta de concorrência. “O nível anda baixo”, decreta o Baixinho.

Julho de 2001. Depois de quase dois meses parado, Romário volta à seleção em Montevidéu. Não dribla nenhum adversário, não rouba uma bola em 90 minutos, finaliza apenas uma vez, e não sofre uma falta sequer das 18 cometidas pelo Uruguai.

Maio de 2002? Se depender da grita da galera, a Globo terá mais um comentarista na Copa do Mundo. Pouco importa se o baixo nível geral dá bola ao Baixinho. Poucos se dão conta que a experiência e a vontade de Romário ainda contam. Raros lembram que ele sempre foi assim. Muitos, não sem razão, sabem que o futebol de choque eletrocuta quem não se mexe. Que Mundial não é só um torneio para os melhores pés, mas, cada vez mais, para quem tem as pernas mais fortes.

Ok. Mas Romário ainda tem pé nesse time.

O problema é arrumar um time que arrume bolas para Romário. Arranjar um jeito de armar uma equipe que crie lances como o Baixinho ainda cria soluções.

X PERU – Romário chutou duas bolas contra os peruanos: uma pra fora, outro para o único gol do Brasil no Morumbi. Não fez mais nada.

X EQUADOR – Romário participou de quatro lances em Quito. Acertou uma bola na trave, mandou duas no goleiro, e uma pra fora. Mais não fez, como todo o Brasil.

X VENEZUELA – Romário participou de quatro lances no inferno de Maracaibo. Chutou quatro bolas a gol. E fez os quatro gols. Foi contra a Venezuela, sei. Mas quem mais sabe fazer isso?

X BOLÍVIA – Chutou cinco bolas no gol. Fez três, e acertou duas vezes a trave.

6 de julho de 2001

Nada como uma semana depois da…

Ele levou seis dias para fazer o mundo. A Conmebol levou outros seis para acabar com a América do Sul. Num dia decidiu o que deveria ter decidido meses antes, tirando da convulsionada Colômbia o direito adquirido (e, depois, sequestrado) de sediar a Copa América.

No dia seguinte, em vez de fazer a competição no Brasil (como pedia a lógica, e mandava quem manda), a entidade, por meio das pessoas que desmandam nela, teve a genial idéia de adiar a competição para o ano de Copa do Mundo. Brilhante. Só não se sabia se depois do banquete asiático, em agosto (o que dispensa comentário), ou em janeiro, mês de férias dos boleiros dos clubes sul-americanos, mês que nenhum clube europeu iria liberar qualquer jogador para o torneio.

Mais não seria preciso escrever. Mais é dever falar. Os mesmos cartolas que garantiram que não havia garantia na Colômbia há uma semana, agora garantem que o país é outro. Que as guerrilhas se dão com as milícias, que o presidente de plantão tem a situação sob controle, e que o cartolão que ameaçara todos os visitantes não quis dizer exatamente que “nenhum país seria bem tratado se a Copa América não fosse na Colômbia”. Imagine…

Nada como uma semana depois da outra, e algumas reuniões no meio. O que era um inferno até que não tem tantas trevas assim. O que era inadmissível pode muito bem ser admitido. O que foi perdido em uma semana pode ser recuperado sem problema. O que foi dito há sete dias já foi esquecido. Qual o problema?

Eu quero mesmo que toda a cúpula da Conmebol curta esses dias de Copa na Colômbia.

Zidane

Vale US$ 66 milhões e muito mais se Anelka valia US$ 28 milhões pegos pelo Real Madrid em 1999. Só não sei se eu pagaria tudo isso por um jogador com a idade dele.

Zagueiro

Thuram é um dos melhores zagueiros do mundo. Quando quer, também um dos melhores laterais. Mas ele vale US$ 39 milhões?

Goleiro

Buffon vai ser o melhor goleiro da Europa. Talvez venha a ser o melhor do mundo. Mas você pagaria US$ 35 milhões por um goleiro, como fez a Juventus?

Preços

Não sei se pagaria tanto por Buffon. Mas, certamente, eu daria 1,4 milhão para ter Rogério Ceni na minha meta, e fazendo uns golzinhos de falta, também. N.R.-2009 – O goleiro são-paulino estava brigando com a diretoria por conta de uma suposta proposta do Arsenal

AVISO AOS NAVEGANTES – Estou com os pés para cima até domingo. Por isso não estou liberando os comentários. Mas pode deixá-los por aqui. Muito grato pela atenção e paciência, mais uma vez.

Tags: