8 ou 80 – 10 a 16 de junho de 2001

por Mauro Beting em 17.jun.2009 às 17:13h

Toda terça-feira, o blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em junho de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contam um pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos.

11 de junho de 2001

NOTA DO REDATOR-2009 – Primeiro jogo da decisão da Copa do Brasil – Grêmio 2 x 2 Corinthians –

Vários jogos numa só decisão de Copa

Um clássico com vários humores. Uma só partida pareceu todo um campeonato. O Corinthians competitivo, esperando um Grêmio que não vinha no primeiro tempo. Um Timão letal, que acertou um chute e ganhou o placar nos 45 iniciais.

Bastaram mais três chances em três minutos para o Corinthians botar os pés na Copa do Brasil. Um golaço típico de Muller, e o Timão só faltava dar a volta no Olímpico. Tinha a partida aos pés, o Grêmio amuado, e o gremista, calado. Até o contrapeso de Paulo Nunes mostrar que vale mais do que pesa. Luís Mário fez um gol, e ganhou outro de Maurício (até então irrepreensível).

Reação 100% gremista. De um time comum e conformado, a um adversário temível e imprevisível. A pressão durou até Luxemburgo reacertar o Timão com Gil, e dar a Marcelinho a liberdade do atacante que fez um gol, e armou todo o lance para Muller fazer o dele. Com o Corinthians mais uma vez animado e ousado, o jogo voltou a ser alvinegro. Menos o placar. Afinal, do outro lado, tem a camisa do Grêmio para equilibrar as bolas, e reverter uma derrota anunciada. A ponto do gremista deixar o estádio com a sensação de que que não foi ruim o empate com gols em casa, até pela absurda permanência de Eduardo Costa em campo.

Não foi tão mal assim ao Grêmio, e poderia ter sido muito melhor ao Corinthians. Mas não há quem negue ao time de melhores jogadores as maiores chances de título.

12 de junho de 2001

N.R.-2009 – Leão foi demitido no aeroporto de Tóquio por Ricardo Teixeira. Há menos de um ano da Copa-02, o Brasil perdia o terceiro treinador das Eliminatórias

Quem salva um país perdido na selva?

Leão convocou 62 jogadores para 11 jogos do Brasil. São quase seis times para não formar equipe alguma. Leão não deu bola para a base (mal) formada por Luxemburgo. Fez da seleção um laboratório de cobaias em vez de uma academia de cobras. Dançou com o seu “futebol bailarino”, mais para o bate-lata do Stomp que para a graça do Bolshoi.

Vem aí um novo técnico. Poderia até ser o próprio Leão, que já não seria o mesmo. Com o boné na guilhotina, ele precisaria rever a atitude e o time. Por pressão, e pela própria intenção, Leão seria um técnico diferente desde a convocação para o Uruguai. Chamaria um time diferente. Mas tudo acabou sempre igual na CBF.

Esse novo técnico poderia ser cobrado e analisado pelos 15 dias de trabalho para pegar o Uruguai. O atual, não. Mesmo que Leão tenha se perdido, não há outro nome que venha com uma bússola, um mapa, um GPS, um manual de instruções, e, mais que tudo, um punhado de craques entrosados.

A questão de hoje é muito mais de técnica que de técnico. Ontem, sim, os treinadores têm suas culpas na formação dos times e dos boleiros da hora. Mas não serão eles que vão resolver as questões de campo. São sempre os jogadores. E será cada vez menos o técnico se seguir a sanha de cortar a goela dele a cada derrota. Não haverá treinador que aceite comandar o Brasil com tanta pressão. Não há técnico que tente mudar e ousar com tanta falta de paciência.

13 de junho de 2001

N.R.-2009 – Boca 2 x 2 Palmeiras na Bombonera, pela semifinal da Libertadores. A volta seria no Palestra. O Palmeiras de Roth precisava estar esperto com os pênaltis.

Penalidades de fato

Marcos tem dito o que aqui se fala desde 2000. O Boca sabe como o Palmeiras bate os pênaltis. O Verdão só sabe como Schelotto bate. O Palmeiras é o time que mais jogou (sete vezes) e mais ganhou (seis) disputa por pênaltis na Libertadores. “Só” perdeu para o Boca, que ganhou dois títulos assim. Na final de 2000, os batedores de pênaltis do Verdão repetiram os cantos das cobranças anteriores. O goleiro Córdoba acertou todas elas. No Mineirão-2001, três dos quatro batedores do Palmeiras que chutaram pênaltis no São Caetano repetiram os cantos contra o Cruzeiro. O time jura estar mais atento.

14 de junho de 2001

N.R.-2009 – Felipão deixou o Cruzeiro e assumiu a Seleção em crise técnica, tática, política, administrativa e moral

E a nave vai para qualquer lugar

O transatlântico bateu no fundo. Encalhou por incúria dos incompetentes do timão, por imperícia da marujada que ainda se acha a tal, por ganância dos donos da barca. Não faltaram alertas vindos dos ventos. Outras embarcações em outros mares já passaram por tormentas iguais. Todos sabiam – ou deveriam saber – dos perigos de uma rota desgovernada, de um mar que já não está mais para peixes graúdos.

A poderosa embarcação está à deriva. Vaza água por todos os cantos e ladrões. Agora não adianta mudar a tripulação, os marujos, os almirantes, as rotas. Um dia ela afunda. O casco está comprometido. Corrompido. Pode tirar espuma do convés, pode tirar a lama do porão, não tem jeito. É hora apenas de escapar da tempestade para afundar em mares mais amigos.

Ainda vai dar para chegar do outro lado do mundo. O caminho não é tão longo, os perigos, menores. Na pior das hipóteses, uma escala lá pela Oceania N.R.-2009 – se não se classificasse direto, o Brasil teria de enfrentar a Austrália na repescagem para a Copa-02 . Parada menor para quem cruzou o Oceano, mas a maior vergonha para quem era senhor de todos eles.

Uma vez em terra firme, o transatlântico irá a pique. Tempo de mudar tudo e quase todos. Afogar as mágoas. Afundar os erros. E, com eles, os errados. Os senhores do leme. Gente que, se tiver uma gota de dignidade, deve seguir com a barca até o fundo. Até o fim. Só com os ratos como companhia.

PS: o novo chefe N.R.-2009 – Scolari conhece a tropa, dorme de coturno, sabe manejar o canhão, não hesita em mandar gente para o trampolim, e coloca coisas e coisos nos lugares. Veste o uniforme sobre a camisa social, e é o único a chamar o dono do barco furado de “Ricardo”, e não de “doutor (?) Ricardo Teixeira”.

Para uma Copa do Mundo, nada melhor que um copeiro como Felipão. Um técnico que sabe treinar o time, o clube, o gandula, a torcida, a imprensa, e até a alma. Respeitado fora de campo, Felipão faz respeitar no gramado. É o chefão que arruma a bagunça, é o paizão que dá o relho no lombo ou o conselho no ouvido. Felipão arma bons times com elencos medianos, e grandes times com grupos acima da média. Defende bem, e é mais ousado e inventivo que seus detratores.

Mas Felipe também briga com quem não deve, elogia quem não merece, nem sempre joga bonito, não tem paciência, e não dá privilégios aos privilegiados.

15 de junho de 2001

N.R.-2009 – Novo 2 x 2, nova vitória do Boca Juniors sobre o Palmeiras, nos pênaltis, desta vez no Palestra

Ri por último quem o Riquelme tem

Cento e oitenta minutos de Riquelme na decisão, 90 minutos de (R)Ubaldo Aquino na Bombonera, 20 minutos de descontrole defensivo no Palestra, e mais três pênaltis perdidos numa série de cinco. Foi o fim.

O Palmeiras não foi enorme como na Argentina, mas deixou o coração na grama. Apertado pelo cerco do Boca, desarmado pela marcação inteligente dos argentinos, desarticulado pela escalação infeliz de Roth, e destronado pela atuação pavorosa de toda a defesa, o Verdão quase perdeu tudo em 20 minutos. Só foi se achar quando Juninho achou Fábio Júnior, e ele, o gol. Reação perdida por um quadrúpede que deu uma tesoura no bandeirinha, e por uma entrada animal de Alexandre. Violências que violentaram a recuperação verde.

Nem todos os erros do time e os acertos do toureiro Riquelme derrubaram o Palmeiras. O Verdão tirou força das fraquezas, driblou as limitações como Riquelme finta o mundo, e tomou a bola do Boca como se fosse o 10 argentino. Empatou na raça e na sorte dos que trabalham, e quase venceu no suor e no sangue dos que sabem. Mas ficou mesmo no 2 a 2 igual ao da Argentina, igual a tantas decisões nos pênaltis.

E, como em 2000, Córdoba sabia (quase) todos os cantos dos cobradores. O Palmeiras, nenhum. Mesmo se soubesse, o Verdão continuaria errando, como Alex bateu no mesmo canto esquerdo de sempre. Lopes e Muñoz bateram diferente e fizeram seus gols. Arce também mudou a cobrança. Mas bateu errado como Basílio.

O Palmeiras não perdeu para o Boca (como não venceu o Cruzeiro, e nem o São Caetano). Foi derrotado pelo apito de Aquino. E pelo talento de Riquelme.

16 de junho de 2001

Se não tem você, então vai tu mesmo

Tu. A segunda pessoa do singular. Felipão é a primeira pessoa a dirigir a seleção a falar tu – Falcão só vai de “tu” em papo amigo. Felipão vai com tu na coletiva, no cantão com o jogador, até na conversa com o “Ricardo”, o presidente da CBF que ele não chama de “doutor”. É o jeito do homem que veste a camisa (e o agasalho) dos times que dirige, que bebe o guaraná do patrocinador, mas que não engole qualquer coisa.

O melhor de Felipão é que ele sabe o que tem de pior. Autêntico, ele põe para fora tudo que pensa e que faz. Só não consegue, por ironia, transmitir o sujeito legal e justo que é. O seu jeito bronco impede que a pessoa amiga e fiel também apareça.

Esse é o comandante do Brasil até a Copa. O chefe dos “32” que ele já fechou. Se sou contra “grupos fechados” como a seleção lazarenta de 90, também não gosto de grupos escancarados como os 116 de Luxemburgo, ou os 62 de Leão. A Argentina de Bielsa é esse timaço aí também por ter convocado apenas 35 atletas para as eliminatórias, contra os 72 (!) chamados por Luxemburgo, Candinho, Leão e Felipão (!%$?).

Fechar um elenco com 32 opções não é o fim do mundo. É o início para reconquistá-lo. O que faltou ao Brasil até agora foi definir uma base (seja qual for), e nela insistir. Nela teimar. Tentar fazer dessa seleção um time competitivo, equilibrado, eficiente. Um time de Felipão. Nem sempre agradável de ver. Quase sempre lindo de torcer.

Uma equipe, aliás, simples como o discurso do chefe. Sem frase feita, sem marketing, sem neurolinguista, sem profissionalismo de bravata e gravata. Mas com amadorismo de agasalho no corpo e pé no chão.

BASES

Manter a base é corrigir erros e melhorar acertos. O Brasil campeão de 94 tinha 10 jogadores da seleção 9a. colocada na Itália, em 90.

A Itália bicampeã mundial em 1938 tinha 4 campeões de 34. O Brasil campeão de 58 tinha de 54 os craque Didi, Nilton Santos, Djalma Santos, Mauro e Castilho. A Argentina campeã de 78 escalou apenas 3 jogadores que fracassaram na Alemanha em 74. Mas um deles, Mario Kempes, foi o melhor da Copa. O Brasil bicampeão em 62 usou 14 jogadores campeões na Suécia, em 58. Nenhum outro campeão repetiu tanto o time. E que time! O Brasil de 70 tinha 6 que fracassaram em 66 (Pelé, Gérson, Tostão, Jairzinho, Brito e Edu). A Inglaterra campeã em 66 tinha 10 dos jogadores eliminados por nós em 62. A Alemanha-74 tinha 7 do time de 70; a Itália-82 vinha com 11 de 78; a Argentina-86 teve 4 de 82; a Alemanha de 90 jogou com 7 vices em 86.

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    Mauro!!
    Confira as orações nessa Quarta-feira Santa!! rsrs

    Oração Palmerense
    Marcos nosso que estás no céu, santificado já és vosso nome.
    Vem a nós oh K9 menino, seja gol a bola que chutastes.
    Se sem querer, ou depois de um chapéu.
    A classificação do ano nos dai hoje,
    perdoai-nos as nossas falhas de defesa,
    assim como nós perdoamos ao atacante impedido.
    Não nos deixei sair da Libertadores,
    livrai-nos dos erros do Luxa, Amém.

    Oração Corinthiana
    Fenômeno nosso largue o pão-de-mel, santificado seja vosso joelho.
    Vem a nós oh grande Dentinho, seja a vitória a única verdade.
    Assim no Pacaembu como no Beira-Rio.
    A tranquilidade para o segundo jogo nos dai hoje,
    perdoai-nos os nossos descompromissos com o Braileirão,
    assim como nós perdoamos o Souza e seus gols perdidos.
    Não nos deixei envergonhar nosso povão,
    livrai-nos da lembrança do Sport, Amém.

    Oração Gremista
    Maxi Lopéz que nos lembra Jardel, santificadas sejam vossas cabeçadas.
    Vem a nós oh Alex Mineiro, seja confirmada a nossa vantagem.
    Um olho no Olímpico outro no Pacaembu.
    A goleada contra o Caracas nos dai hoje,
    perdoai-nos as nossas trocas de técnico,
    assim como nós entendemos que na semi é que mora o perigo.
    Não nos deixei sofrer humilhação,
    livrai-nos do azar do Cuca, Amém.

    Oração do Colorado
    Dunga nosso que estás no céu, que desastrosa tua escalação.
    Volte a nós oh Nilmaravilha, seja mais forte nosso Colorado.
    Sem o D’alessandro vamos tomar créu.
    A sobrevivência contra o Corinthians nos dai hoje,
    perdoai-nos os nossos desfalques,
    assim como nós perdoamos ao nosso Dunga querido.
    Não nos deixei tomar gol do Fofão,
    livrai-nos das torcidas organizadas, Amém.

    rsrsrs legal né?
    Quem as escreveu foi o Renan Ferrari do blog Ligado na Bola
    http://www.ligadonabola.com.br

    Entre e confira!!

    Beijos