8 ou 80 – 6 a 19 de maio de 2001

por Mauro Beting em 19.maio.2009 às 0:14h

Terça-feira, o blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em maio de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contamum pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos.

10/05/2001

NOTA DO REDATOR-09 – Leão era o treinador da Seleção, Antonio Lopes, o coordenador. Estavam atritados. O time ia mal nas Eliminatórias, e Ricardo Teixeira driblava CPIs… A Seleção tinha Copa das Confederações na Ásia, no meio do ano. Nenhum clube queria ceder jogadores…

O que só as moscas ouviram na CBF

Sala de reuniões da comissão técnica. Leão e Antonio Lopes negam desavenças e garantem ter um só discurso, uma só língua.

– Leão, wqrtyx srtgs typgt xszv dk wwrtwrtypkghfdhhsxzpft?

– Patabuma potó, Lopes!

Ricardo Teixeira entra na sala. Está preocupado com a Copa das Confederações, a Copa América, a Copa dos Campeões, o Brasileirão, a Mercosul, o final dos estaduais. Mas não parece preocupado com as taxas de juros do mercado.

– Lopes, Leão, os finalistas não querem liberar os jogadores para a Copa da Não-sei-o-quê. Eles dizem que pagam (quando pagam, né) pelos atletas, não podem esvaziar os torneios…

– %*(+$@pqp, dr. Ricardo!

– Eu sei, mas é que…

– $$$$$$$$$, Leão….

– E também tem os atletas da Europa em fim de temporada…

Entra a secretária da CBF na sala, com uma pilha de recados.

– Dr. Ricardo, o Vasco ligou e não libera ninguém. O Flamengo, também. O Grêmio quer jogar a Mercosul, que dá mais dinheiro e pode dar uma vaga para o Mundial de Clubes de 2003. O Remo quer jogar o Brasileirão, diz que a tabela não saiu e coisa e tal. As TVs, todas, querem uma definição. Tem um chato de um preparador físico que ligou e disse que não dá para jogar tudo isso aí em um só semestre. Tem o…

– OK, OK. Depois eu ligo pra eles e peço pro Fabio Koff do Clube dos 13 decidir.

– Dr. Ricardo, também ligaram da Conmebol pra falar do jogo com o Uruguai e…

– Vixe! As Eliminatórias!!! Quando é que é, hein? … Já sei! Eu anuncio qualquer tabela, vocês convocam qualquer um (do jeitinho que vocês estão fazendo), e depois a gente vê o que faz.

– Ah, Dr. Ricardo, antes do dr. Leão e do delegado Lopes falarem, tem mais recados: o dr. Pelé ligou para apoiar tudo que foi dito. O doutor Eurico Miranda pediu para o delegado Lopes dar uma passadinha lá em São Januário. E o pessoal do TJD confirmou o happy-hour no mesmo horário e no mesmo local de sempre.

12/05/2001

N.R.-2009 – CBF e Clube dos 13 apresentavam proposta de calendário para o futebol. A milésima...

O que pode e o que não deveria poder

Que o calendário não dá para ser o que está, e nem o que foi apresentado, até Samoa sabe. O ano só tem 52 semanas (a não ser que o governo tenha acrescentado algumas em troca do fracasso da CPI do Futebol e da Nike). Tirando 4 delas paras as férias nem sempre respeitadas, mais duas para um mínimo de pré-temporada, o futebol teria 46 semanas para se esbaldar e se esfalfar.

Pelo menos mais 4 semanas por ano deveriam ser usadas para a seleção. Sobrariam, então, 42 semanas para os senhores da bola brincarem. E dá para fazer quase tudo nesse período. Menos, é claro, com 28 clubes no Brasileirão, Mercosul com 6 rodadas na primeira fase, campeonatos estaduais por todo um semestre, e ainda as copas regionais, a Copa dos Campeões…

Mas dá para resolver algumas pinimbas. A mais óbvia (porém difícil) é reduzir o número de times do Brasileirão. No máximo 20. Em turno e returno, e mais duas datas para uma decisão, por exemplo, seriam 40 datas na temporada. Com 6 rodadas por mês, o Brasileirão ocuparia quase 7 meses do calendário. Sobrariam 3 meses para os estaduais e/ou regionais. O que dá – e não sobra.

No meio disso tudo, dá para jogar a Libertadores (do jeito que está) e a Mercosul, também – esta com menos convites, e uma primeira fase menor, eliminatória, ou com grupos de apenas 3 clubes, o que daria 4 jogos na fase inicial.

Que dá, dá. Mas quem é que vai querer dar sem receber? Em nenhum país do mundo o campeonato nacional tem 28 clubes. Só no país que ainda tem campeonatos estaduais e regionais…

17/05/2001

N.R-2009 – Analisando o Botafogo de Ribeirão Preto, que decidir o SP-01 contra o Corinthians de Marcelinho e Luxemburgo.

Doni, o goleiro do Botafogo, vai longe [N.R-09 – parou em Roma e na Seleção de Dunga]. Só tem 6 jogos na carreira. Catou 4 dos 9 pênaltis batidos contra ele, e fez uma das mais difíceis defesas do SP-01, na vitória sobre a Ponte. Grava na TV lances dos rivais, e merece ter o nome gravado.

19/05/2001

N.R-2009 – Na semifinal vencida pelo Corinthians contra o Santos, 2 x 1, golaço no finzinho de Ricardinho que eliminou o Peixe, o meia paulistano usou um ponto eletrônico no ouvido, conectado com o treinador corintiano Wanderley Luxemburgo. “Inovação” descoberta dias depois e prontamente rechaçada e proibida pelas autoridades do jogo.

Um ponto que deve ser bem discutido

O princípio básico da regra do jogo é a igualdade. Qualquer dúvida no futebol deve ser respondida a partir dela. Logo, nenhuma linha precisaria ser escrita sobre o uso do ponto eletrônico por um jogador de futebol. Não pode. E ponto final.

Mas é preciso ir além. A isonomia pede que o Flamengo do Piauí tenha as mesmas condições de jogo que o Corinthians. Não se pode criar um artifício que beneficie quem pode mais, dando um bico na igualdade. Você até poderia entender que as coisas já são desiguais: a chuteira corintiana é melhor, por ter uma tecnologia de fabricação superior. OK. Mas chuteira é equipamento básico; ponto eletrônico, não. A FPF só pode pensar em liberar o ponto eletrônico se entregar um aparelho para cada equipe. A entidade precisa zelar pelo equilíbrio esportivo na disputa, e não pelo desnível econômico.

Ninguém pode usar o aparelho por ferir a regra 4 (equipamento dos jogadores). É óbvio que não está escrito que um jogador não pode atuar com uma escuta, com um foguete no calção, ou com uma adaga na cintura. Tão claro quanto o quesito “segurança” do texto: “os jogadores não utilizarão nenhum objeto ou equipamento que seja perigoso para eles mesmos ou para os demais jogadores”. Uma bolada na orelha dispensa opinião de otorrino; um dedo no ouvido metido por um animal de chuteiras no casco, também.

É necessário punir quem agiu com a intenção deliberada de obter vantagem por meio de recurso proibido. O Corinthians não pode perder os pontos contra o Santos. Mas Luxemburgo, Ricardinho e o goleiro Maurício precisam ser punidos por atitude antidesportiva e antiética.

Os três corintianos interligados não merecem ser suspensos. Mas poderiam pagar uma multa no valor de um ponto eletrônico.

Afinal, se eles acham que podem usar o ponto eletrônico, que “não há mal algum nisso”, por que o utilizaram sem que ninguém soubesse no jogo com o Santos, e sem uma consulta prévia à Federação Paulista?

A ideia merece ser discutida e pode até ser aprovada. Desde que todas as equipes de um torneio possam usar o mesmo número de pontos eletrônicos.

Mas, pensando bem, imagine você, jogador, com o Felipão berrando na sua orelha? Ou pior: com o Lazaroni lazaroniando na sua cabeça e no seu jogo… Não valeria a pena.

Por outro lado, na prática, já é algo que parece acontecer: o futebol anda tão robotizado, tão repetitivo, tão preso às ordens do banco, que tem time que parece plugado na orelha do técnico o tempo todo.

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  • Adriano Gonçalves

    Muito boa está sua iniciativa Mauro, se todos tivessem essa humildade de fazer a mesma coisa seria bem legal. Só para ver quem acertou as previsões, ou falou besteiras demais. Está de parabéns !

  • http://blogs.abril.com.br/palestra Thiago Liberal

    Confesso que ri com o jogador ”de adaga na cintura”, e concordo com muitos pontos escritos por você nessa coletânea de textos.

    Agora, na frase “Só no país que ainda tem campeonatos estaduais e regionais” algo me incomodou.

    Sei que atualmente os estaduais são praticamente uma pré-temporada para os times e que, tanto pelos clubes como torcedores, não há uma valorização do campeonato.

    Mas você não acha que faria falta, pelo menos para os torcedores, se esses campeonatos parassem de existir? Ou nós nos acostumaríamos?

    THIAGO, voltando a 2001, além do Brasileirão com 28 clubes, ainda tínhamos os estaduais e MAIS os regionais.
    defendo os estaduais. mas os racionais. ainda é muito tempo reservas 23 datas para eles.
    e gosto muito dos regionais (sul-minas, rio-são-paulo, norte-nordeste…) eles poderiam voltar, mantendo as rivalidades locais. mas, no máximo, ocupando 15 datas do calendário.