Os dez personagens das decisões paulistas desde 1902

por Mauro Beting em 06.maio.2009 às 12:08h

A pedido do LANCENET!, as dez figuras inesquecíveis das partidas que decidiram campeonatos paulistas

Renganeschi, zagueiro são-paulino – São Paulo 1 x 0 Palmeiras. SP-46

Foram 20 jogos sem derrota do São Paulo no SP-46. Mas, no último deles, o Choque-Rei contra o Palmeiras, no Pacaembu, era preciso vencer. O Corinthians estava na cola. O Verdão estava longe, na quinta posição. Mas era o maior rival são-paulino nos anos 40. Fora o estadual de 1941 (vencido pelo Corinthians), ou dava Tricolor (campeão paulista em 1943, 1945-46, 1948-49), ou Palmeiras (campeão em 1940, 1942, 1944 e 1947).

Desde os 13 minutos do segundo tempo, São Paulo e Palmeiras atuavam com nove. Numa briga generalizada, dois foram expulsos de cada lado. De fato, o Tricolor se arrastava com oito pelo Pacaembu: o zagueiro-esquerdo argentino Armando Renganeschi (que atuou de 1945 a 1948) estava machucado. Como apenas em 1960 a substituição de atletas passou a ser adotada no Paulistão, o zagueiro foi fazer número, aberto pela ponta esquerda.

Aos 25, Bauer cruzou uma bola que se chocou no travessão do goleiro palmeirense Oberdan. No rebote, sozinho, mesmo que mancando, Renganeschi se arrastou e empurrou para dentro o único gol do clássico. O único gol dele no SP-46. O gol do campeão.

Quinze anos depois, o argentino pagaria a “dívida” com o Palmeiras, já como treinador do clube, ao insistir na contratação do jovem meia-esquerda do Bangu chamado Ademir da Guia. Mas essa é outra brilhante história.

Armando Marques, árbitro de Santos 0 x 0 Portuguesa. SP-73

Santos de Pelé e Portuguesa de Enéas empataram sem gols nos 90 minutos em que o Rei mandou bola na trave, e o Santos, no jogo. Na prorrogação, a Lusa foi melhor e poderia ter vencido. Sobrou reclamação para o árbitro Armando Marques, que não marcou pênalti sobre o artilheiro rubro-verde Cabinho. Árbitro brasileiro na Copa-74, célebre por grandes erros, como o gol mal anulado de Leivinha, na decisão do SP-71, quando ele marcou toque de mão numa simples cabeçada do meia palmeirense contra a meta do são-paulino Sérgio Valentim.

Armando iria se superar em 1973. Como ele mesmo disse, anos depois, “comeu alfafa” naquele domingo. Na disputa por pênaltis, a primeira da história paulista, Zé Carlos bateu para o Santos e o goleiro Zecão fez grande defesa. Não superior à bola que o argentino Cejas foi pegar no ângulo, no chute de Isidoro. Cejas defenderia o segundo pênalti, mal batido por Calegari. O Santos converteu os outros dois (Carlos Alberto e Edu). No quarto chute da Lusa, Wilsinho mandou no travessão. Cejas caiu para o outro lado e, quando olhou para o árbitro, viu Armando fazer o sinal de que estava tudo acabado. O goleiro santista saiu para celebrar com os companheiros. A imprensa invadiu o campo. Os dirigentes desceram da tribuna.

Poucos perceberam o erro que só Armando até hoje expia. Se o Santos perdesse os dois pênaltis que restavam (que seriam cobrados por Léo Oliveira e Pelé), e a Lusa convertesse os dois últimos chutes (com Cabinho e Basílio), empatariam por 2 a 2. Ainda havia como a Portuguesa empatar. A disputa de pênalti não poderia ter sido encerrada. Quando foi constatada a bobagem, o Santos quis voltar a campo para bater os pênaltis que restavam. A delegação da Lusa já deixara o Morumbi sem tomar banho. Sem melhor alternativa, depois de conversar com os cartolas dos clubes, a FPF declarou os dois clubes campeões. Dividindo a taça por um erro de soma do árbitro da decisão.

Rivellino, meia-esquerda corintiano. Palmeiras 1 x 0 Corinthians. SP-74

Ele foi o melhor jogador do Corinthians de 1965 a 1974. Tricampeão pelo Brasil em 1970, se não foi tecnicamente o melhor jogador que atuou pelo Timão, é um dos maiores do Brasil em todos os tempos. Mas saiu escorraçado do Parque São Jorge por não conseguir dar um título contra o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, e o São Paulo de Pedro Rocha.

Saiu porque ele e o Corinthians não jogaram melhor que o Palmeiras da segunda academia, na decisão do SP-74. No primeiro jogo, no Pacaembu, empate por 1 a 1, o Corinthians só parou no goleiro Leão. Na decisão, marcado até pelo meia Leivinha, e preocupado pela fragilidade defensiva alvinegra, Rivellino atuou mais atrás e não foi bem. Quando tentou na bola parada, a “patada atômica” de Riva parou em outro gigante histórico, o volante Dudu, que desmaiou depois de bolada no rosto. E, mesmo assim, minutos depois, voltou para compor a barreira, como se nada tivesse ocorrido.

Com a vitória do Palmeiras por 1 a 0, gol de Ronaldo, aos 24 do segundo tempo, o maior derrotado acabou sendo Rivellino. Semanas depois ele foi vendido (praticamente enxotado) para o Fluminense, onde seria bicampeão estadual, em 1975-76, pela Máquina Tricolor. O Corinthians precisaria esperar até 1977 para ser campeão. Com um gol de Basílio, meia contratado da Portuguesa em fevereiro de 1975 para substituir o destronado Reizinho do Parque São Jorge.

Basílio, meia-direita corintiano. Corinthians 1 x 0 Ponte Preta. SP-77

No dia do terceiro jogo da decisão, Oswaldo Brandão, que treinava o Corinthians no último título estadual, conquistado 22 anos antes, em 1954, foi ao quarto da concentração para dizer ao meia-direita Basílio que ele faria o gol do título paulista naquela noite de 13 de outubro de 1977.

No primeiro jogo decisivo, um gol de rosto e de sorte de Palhinha deu a vitória ao Corinthians sobre o melhor time da Ponte Preta. Na segunda partida, o maior público da história do Morumbi (mais de 138 mil pagantes) acompanhou a brilhante virada da Ponte de Dicá por 2 a 1. No terceiro jogo, a história ficou melhor para o Timão com a expulsão – justa – do tresloucado Ruy Rey, que pediu para receber o cartão vermelho de Dulcídio Boschilia, aos 13 minutos.

A profecia (visão, pressentimento, palpite, certeza?) de Brandão se materializou aos 36 do segundo tempo. Zé Maria bateu falta da direita, Basílio relou na bola de cabeça para Vaguinho mandar no travessão. No rebote, Wladimir cabeceou sobre o zagueiro Oscar. A bola sobrou para o bate-pronto que Basílio aprendera a dar com o técnico Ipojucan, grande meia do Vasco e da Portuguesa. Eram 36 minutos. Foi o fim da fila de 22 anos, oito meses e sete dias.

Há 32 anos Basílio virou o primeiro pé angelical alvinegro. Nome de batismo de muitos meninos nascidos depois da redenção iluminada e anunciada pelo velho mestre Brandão, campeão em 1954 e 1977.

Denys, lateral-esquerdo palmeirense. Inter de Limeira 2 x 1 Palmeiras, SP-86

Havia dez anos que o Palmeiras não ganhava um título. Depois de eliminar brilhantemente o Corinthians na semifinal, ganhando por 3 x 0 na prorrogação, o time do treinador Carbone decidiria o título com a Inter de Limeira, em dois jogos no Morumbi. A experiente equipe do treinador Pepe tinha a vantagem regulamentar.

No primeiro jogo, empate sem gols, a Inter soube segurar o resultado. Na partida decisiva, Carbone escalou Mirandinha ao lado de Edmar. Os dois centroavantes não se davam, não trocavam passes, e o time definhou, mesmo melhor tecnicamente que o rival. No segundo tempo, o artilheiro Kita fez um belo gol de fora da área. Ainda mais nervoso, o Palmeiras se mandou à frente. Numa bola morta, o lateral-esquerdo Denys tentou recuar para Martorelli. Tocou fraco, o rápido ponta-direita Tato tomou a bola, passou pelo goleiro, e finalizou de canhota. Dois a zero Inter de Limeira, em pleno Morumbi.

O zagueiro Amarildo ainda descontou de cabeça. Quando Dulcídio Boschilla apitou o fim do jogo, o primeiro campeão do interior paulista fez a festa no Morumbi com a pequena torcida de Limeira presente. Alguns deles vestidos com a camisa do Palmeiras por baixo. A mesma camisa que Denys costuma usar quando ainda vai aos estádios torcer pelo clube que o revelou.

No ano seguinte, Denys foi emprestado ao São Paulo, onde foi campeão paulista em 1987. Jogou pelo Corinthians, na célebre troca envolvendo Neto por Ribamar. Nunca mais foi perdoado pelos palmeirenses. Mesmo aqueles que não trocariam sair da fila contra a Inter, em 1986, por acabar com o jejum contra o Corinthians, em 1993.

Viola, centroavante corintiano. Guarani 0 x 1 Corinthians, SP-88

Ele havia disputado apenas dois jogos pelo time principal corintiano. Comia na lanchonete do Parque São Jorge quando o treinador Jair Pereira puxou papo. Queria saber se ele se sentia bem e se poderia vestir a camisa nove corintiana na decisão do SP-88 contra o ótimo time do Guarani, em Campinas. O titular Edmar (na seleção olímpica) e o reserva Marcos Roberto (machucado) estavam fora.

Viola engoliu seco o sanduíche e a responsabilidade. Disse que topava a bucha. Jair Pereira só pediu silêncio para o atacante de apenas 19 anos. Ninguém poderia saber que ele jogaria no Brinco de Ouro contra um Guarani que passou a semana cantando vitória depois do empate por 1 a 1 no Morumbi. Com um golaço espetacular de bicicleta de Netom, futuro xodó alvinegro, a partir do ano seguinte.

Viola não falou que jogaria. Mas tinha certeza que faria a diferença. Vestiu por baixo da camisa nove uma outra camisa igual. Só para, na hora do gol, jogar a de cima para a massa alvinegra. No tempo normal, quase foi expulso por entrada violenta. Na prorrogação, deu um carrinho de canhota num chute torto de Wilson Mano, desviou de Sérgio Néri aos 4 da prorrogação, e entrou para o panteão corintiano, marcando o gol do título corintiano que desde a democracia corintiana não era conquistado.

Nem Pelé fez um gol de título estadual com apenas três jogos pela equipe principal, e o primeiro como titular. Só Viola, que foi Corinthians de 1988 a 1995. O mesmo que estreou na Copa-94 na prorrogação da final, e fez o mais belo lance da partida, preferindo servir Romário a tentar o gol espetacular.

Raí, meia são-paulino. São Paulo 3 x 0 Corinthians. SP-91

A Federação Paulista deu uma canetada aplaudida pelos próprios clubes e começou a racionalizar o calendário e o Paulistão a partir de 1990. O problema é que o São Paulo fez uma campanha bisonha e foi “rebaixado” para o grupo inferior – tecnicamente – no SP-91. Ou não se classificou para o grupo principal, ao gosto do freguês. Para piorar, o regulamento mal escrito e mal bolado do Paulistão de 1991 permitiu que uma equipe que tivesse participado de um grupo muito mais fraco tivesse vantagem regulamentar em caso de empate com equipes que disputaram o campeonato mais difícil…

Mesmo com menos vitórias e o mesmo número de pontos que o Palmeiras no quadrangular semifinal, o São Paulo eliminou o rival com um empate sem gols. Nas finais, também tinha a vantagem absurda contra o Corinthans. Mas, desta vez, não preciou usá-la. Campeão brasileiro em 1991, futuro bi paulista, bi da Libertadores e bi mundial em 193, o Tricolor de Telê já era uma equipe histórica. Como foi a atuação de Raí na primeira partida decisiva contra o Corinthians de Cilinho, no Morumbi.

No primeiro tempo, um tiro longo da intermediária acabou na gaveta do goleiro Ronaldo. Na segunda etapa, um gol de cabeça e mais um de pênalti acabaram com o jogo. Raí 3 x 0. Na partida decisiva, com o Corinthians precisando devolver o placar, o Majestoso terminou sem gols. E o Tricolor de Raí manteve o ciclo virtuoso e vitorioso que duraria até dezembro de 1993. A família entrava para a história do futebol paulista. Depois de Sócrates marcar todos os gols que eliminaram o Palmeiras na semifinal do SP-83, e anotar o gol da vitória da primeira decisão contra o São Paulo (e dar de calcanhar para Zenon o gol do bi paulista da Democracia Corinthiana, no empate no jogo do título de 1983), Raí honrava o nome genial do irmão mais velho. Mas a favor do Tricolor.

Evair, centroavante palmeirense. Palmeiras 4 x 0 Corinthians, SP-93

Fala Evair, artilheiro do Palmeiras no Paulistão:

– Naquele 12 de junho de 1993, parecia que eu não corria. Não pisava

no chão. Era um momento mágico. Tinha esperado tanto para ser campeão,

e o Palmeiras, também. Foi o título mais importante da minha vida.

Quando a bola entrou no quarto gol, eu não vi mais nada, eu não sabia

o que fazer, o que pensar, para onde correr. Nessa hora, você perde os

sentidos.

O Palmeiras ganhou o Dérbi por 3 x 0 no tempo normal, 1 x 0 na prorrogação, e ganhou o Paulistão que desde 1976 não conquistava. O Matador armou a bola para o golaço de Zinho, aos 36 minutos. Fez o segundo gol doado por Mazinho, aos 29 do segundo. Chutou na trave a bola que Edílson completou, aos 38. E marcou o quarto contra o Corinthians de pênalti. O definitivo.

No primeiro jogo da final, o Corinthians vencera por 1 a 0, golaço de Viola, que imitou um porco na celebração. Imagem que animou ainda mais a atuação palmeirense contra o maior rival. Com uma Via Láctea montada pela Parmalat, o Palmeiras mostrou sua força e goleou o Corinthians nos 90 minutos polêmicos por conta de arbitragem mais que discutível de José Aparecido de Oliveira. Quando bastava um empate na prorrogação, Evair fez o gol do título contra o Timão de Nelsinho (que o afastara do Palmeiras, em 1992). O Matador foi o melhor em campo nos 101 minutos que jogou como poucos. Como raros para quem havia ficado mais de dois meses sem atuar como titular por conta de contusão.

Raí, meia são-paulino. São Paulo 3 x 1 Corinthians. SP-98

Em janeiro de 1998, o Tricolor acertou o repatriamento do craque-bandeira Raí, que atuarara pelo clube de 1987 a 1993. Depois de cinco anos na França, ele voltaria ao Morumbi para encerrar a carreira, em 2000. Mas só estaria liberado para atuar pelo São Paulo depois do final do campeonato francês de 1997-98. Ainda assim, trabalhando bem nos bastidores, a direção tricolor conseguiu inscrevê-lo previamente na FPF mesmo com Raí atuando pelo PSG.

O suficiente para colocá-lo em condição de jogo para a finalíssima do SP-98. No primeiro jogo, no Morumbi, o Corinthians de Luxemburgo vencera por 2 x 1 o São Paulo de Nelsinho. O Timão jogava pelo empate no jogo decisivo, no estádio do rival. Era o início do timaço que se formava no Parque São Jorge (que seria bicampeão brasileiro e campeão mundial, em 2000). Párea vencê-lo, era preciso algo mais. Era Raí.

Antes de retornar, o ídolo tricolor conversou com o grupo são-paulino para saber se haveria problema de ele estrear justamente no jogo decisivo. Não houve voz que se levantasse contra. E Raí, mais uma vez, teve a vez de acabar com o sonho alvinegro, como quase sempre fizera o irmão Sócrates (mas com a outra camisa). Ele abriu o placar de cabeça, no primeiro tempo, aos 30. O golaço de empate de Didi não arrefeceu o ânimo dele e do São Paulo, no segundo tempo. Numa linda tabela com França, o artilheiro desempatou. Num Carnaval de Denílson pela ponta, França fez o segundo dele, o terceiro do Tricolor, e confirmou o primeiro estadual são-paulino desde 1992. Não por acaso quando o mesmo Raí e Cafu comandaram o show do bi paulista contra o Palmeiras.

Ronaldo, centroavante corintiano. Santos 1 x 3 Corinthians, SP-09

Ele já virara a vida e ganhara o mundo depois de ficar quase dois anos parado para voltar a campo e ser o artilheiro do Brasil campeão mundial em 2002. Mais uma contusão o deixou 13 meses parado até estrear pelo Corinthians e, no último lance contra o Palmeiras, marcar o primeiro gol alvinegro contra o rival em mais de dois anos.

Ele era dos poucos que não precisavam provar nada mais num gramado. Mas era preciso um dia jogar no palco onde Pelé nasceu e se ajoelhou para se despedir, em 1974, como atleta do Santos e do século. Era preciso decidir um título paulista pelo Corinthians que o recebera de braços e cofres abertos. Era preciso ser Ronaldo sob os olhos de Pelé, no camarote real da Vila Belmiro.

O Corinthians chutou apenas quatro bolas na meta do Santos. Três com Ronaldo. Todas com a perna menos excelente do Fenômeno. A primeira, numa matada genial, foi o segundo gol corintiano. Depois só deu Santos, só deu o goleiro corintiano Felipe salvando. Até aos 31 minutos do segundo tempo, quando Ronaldo debulhou o lateral Triguinho, e meteu uma colher na bola para encobrir Fábio Costa e acabar com a discussão.

Ele é um fenômeno. “Fez um gol de Pelé, um gol de Copa do Mundo”, comentou Edson Arantes do Nascimento, ainda no estádio depois dos 3 a 1 corintianos. Ronaldo comentou que teve um dia de rei na casa de Pelé. Quando Ronaldo fez dois gols de Ronaldo e encaminhou o 26º. estadual corintiano, conquistado no empate por 1 a 1, no Pacaembu, na finalísima.

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  • Paulo Marcelo Monteiro Barros

    ola Mauro sou MTO FÃ SEU….escuto todas as quartas ..vc na radio bandeirantes e leio vc na terça no Lance!!! gostei dos craques…mas acho q faltou o Marcelinho Carioca em 95 e principalmente o CAPETINHA EDILSON!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!EM 99 as embaixadinhas foram DEMAIS DEMAIS ..um abraçãoo

  • Fernando

    Matéria excelente e…justa.