8 ou 80 – 22 a 29 de abril de 2001

por Mauro Beting em 28.abr.2009 às 1:30h

Toda terça-feira, o blag faz uma sessão de regressão. Volta oito anos aos meus textos publicados à época nos veículos onde trabalhava.

Em abril de 2001, escrevia uma coluna diária no “Agora São Paulo”, uma coluna semanal no portal PSN.com, canal a cabo onde trabalhava como comentarista, além de também comentar na Band.

Notas que contaM um pouco da bola que rolava então, com palpites e pitacos de época. Com todos os erros e raros acertos deste que vos tecla.

Por que oito anos? No futebol, é o tempo exato entre duas Copas do Mundo. Tempo mais que suficiente para tentarmos entender onde erramos.

Nota do Redator em 2009 – O Brasil de Leão se preparava para enfrentar o Peru, no Morumbi, pelas Eliminatórias para a Copa-02. Leão optara por uma base caseira, atendendo aos pedidos de muita gente da imprensa e da torcida.

Coluna de 22 de abril de 2001

Desespero

Para 12 jogos eliminatórios para a Copa-02, 67 (!) convocados). Seis dos 22 de Leão são calouros. É muita gente para tão pouco futebol. É causa. E é consequência. Dos 67 chamados até agora, 46 já atuaram em 11 jogos. Isso não faz um time. Forma um bando. Mudar por mexer é desarrumar. Leão exagerou na dose.

Coluna de 23 de abril de 2001

Elano

O moleque sabe das coisas. Dribla fácil, é abusado, bota a bola no devido lugar, e, logo, logo, vai ter que ganhar um lugarzinho nesse ressuscitado Santos de Geninho.

Alex

Nem tanto ao Leão, nem tanto ao Leomar. O Brasil ainda tem pé que dá pé. Pena que o meia-atacante Alex não possa ser na Seleção o que é para o Palmeiras de Celso Roth.

Não é brincadeira

Jogador que se assusta quando é convocado deveria ser imediatamente cortado da lista. Assim foi com Anderson (lateral do Grêmio). E também com Leomar (volante do Sport).

Coisa séria

Quando o convocado não esperava ser chamado, ou ele não tem futebol de seleção, ou não tem confiança no próprio pé. Ou, pior, não tem as duas coisas.

Coluna de 24 de abril de 2001

Leão trocou um time de boa técnica e pouco entrosamento por um time de técnica razoável e escasso entendimento. Exceto a saudável manutenção da iluminada base corintiana, não há muito o que louvar no Brasil que vai ao Morumbi para vencer o Peru. Já que convencer…

O perigo é a seleção ganhar bem e a ilusão da base “brasileira” expatriar de vez a base “estrangeira” da equipe. Como se os que jogam na Europa sejam criminosos, desterrados, exilados. Neste período de caça às bruxas e aos bagres, qualquer bobagem se comete. Como deixar fora da relação dos melhores profissionais aqueles que mais se destacam e que, por isso, jogam fora do país?

Virou crime ganhar em dólar. Em tempos de crise alguém tem de pagar. Mesmo que a conta seja solidária. Que todos devam se cotizar e ajudar.

A torcida também tem de dar a sua cota de sacrifício. Dar apoio nos primeiros minutos, louvar o Leomar, ter paciência com Alessandro (se é que o torcedor sabe quem são os dois), e tentar esquecer qual a cor da camisa e o berço de cada jogador. São todos brasileiros. São todos jogadores da seleção – mesmo que muitos dos escolhidos por Leão não sejam de seleção.

Vai dar para ganhar do Peru. Mas vai continuar não dando para formar o time ideal para a Copa. Vai continuar a seleção sem uma base definida, sem um esquema arrumado, sem um time confiável. Vai continuar o técnico sem segurança para fazer o seu trabalho.

Coluna de 26 de abril de 2001, publicada no dia seguinte ao jogo, antes do início da partida

Eles criam rãs e você engole sapos

Nota do Redator em 2009 – A mulher do senador Jader Barbalho (PMDB-PA) estava sendo denunciada por supostas irregularidades na administração de um ranário. Ela teria recebido indevidamente um financiamento de R$ 9 milhões para a construção dele.

A seleção é como o ranário da mulher do Jader. Muito dinheiro para pouco proveito. Você não sabe direito o que eles fazem, mas sabe muito bem o que eles têm deixado de fazer. Essa conta é sua, do Leão, do Luxemburgo, do Zagallo, e de qualquer treinador que precisa administrar o custo Brasil de dirigir a seleção do século – passado.

Entre tantos sacos que precisa carregar, o técnico da seleção precisa ter o dele para atuar a “opinião pública”, a opinião publicada, os chutes das TVs e das rádios, e as enquetes de qualquer tipo. Fosse dar bola a todas elas, ele ficaria mais maluco do que já é por aceitar tudo isso.

Fosse ouvir o que todo mundo pede (ou, pelo que indicavam as pesquisas, mais de 80% dos torcedores), Luxemburgo teria feito da seleção pré-olímpica do Brasil a seleção das Eliminatórias. Era o que oito em 10 brasileiros pediam. É o que nenhum em 10 lembra de ter pensado depois da vergonha de Camarões.

Escrevo sem saber o que deu no Morumbi. Mas imagino uma vitória, e com um bom placar. O suficiente para desencadear o “viu, não falei? Não precisa do Rivaldo, do Cafu, do Roberto Carlos, do Émerson, de ninguém de fora! Bota a meninada que joga por aqui para encher esses gringos de gol!”

Se der errado – e é difícil acontecer com defesa tão ruim como a do Peru -, os mais de 80% que não queriam ver nenhum estrangeiro pintado de verde e amarelo vão mudar de opinão como Leão mudou de escalação.

É assim que não funciona.

A derrota para a Itália em 1982 levou a CBF a mudar tudo – infelizmente. Parreira quis começar do zero, e chamou China, Betão, Márcio Rossini…

O maravilhoso time de Telê na Espanha, em 1982, “não servia”. Os estrangeiros de então não precisavam ser chamados. E tome Toninho Carlos, Carlos Alberto Borges… Parreira acabou defenestrado. Em 1984, chance para Edu Coimbra. E tome Jandir, Roberto Costa, Baideck, Arthurzinho, Delei, Marquinho, Pires…

Não aprendemos. Falcão chegou em 1990 para exorcizar o time lazarento da Itália. Nenhum estrangeiro poderia ser lembrado. E tome Paulão, Gil Baiano, Paulo Egídio, Valdeir, Cássio, Odair Bruxinha, João Santos, Lira, Mazinho Oliveira, Wilson Gottardo, Balu, Márcio, Valdir. O pior: muitos mereciam os chamados. Mas os estrangeiros alijados, também. E a seleção, muito mais.

Coluna de 27 de abril de 2001, comentando o pífio empate do Brasil com o Peru: 1 x 1, no Morumbi.

O bonde do Leão e o bando da seleção

O bom é que a gente só depende da gente para se classificar para a Copa de 2002. O ruim é que a gente só depende da gente para convocar mal, escalar pior, mexer de qualquer jeito, e continuar não dando jeito na coisa. O feio é que a gente não sabe mais o que fazer para melhorar. Mas sabe direitinho como piorar.

Basta, como sempre, não ter tempo para treinar. Mas isso não serve como escudo para a escuridão que tomou conta da seleção, como bem disse o comentarista Leão após o jogo, com o conhecimento, a categoria, a inteligência e o bom senso que o treinador não apresentou no Morumbi – e muito menos o limitado time dele. Também dá para lembrar a técnica escassa da equipe. Mas isso é diarreia da comida estragada preparada pelos donos das bolas, e pela própria comissão técnica, que requentou um fast-food insosso, em vez de usar os ingredientes e especiarias que vêm da Europa.

Acredito que quase todo mundo sabe o que deu errado. Até os nacionalistas de ocasião, aqueles que queriam o time pré-olímpico disputando as Eliminatórias e, que, agora, defendiam para a seleção um time “caseiro” como o que empatou com o quarto pior time sul-americano… Esses já devem ter esquecido o que pensavam. E continuam, como todos nós, sem saber mais o que pensar. Sem ter a menor idéia do que fazer. Mais ou menos o resumo da ópera brasileira no Morumbi.

Só torço para que eles torçam de novo pelos “estrangeiros”.

·

O presidente da CBF não entrou em campo contra o Peru. Se tem parcela de culpa pelos erros de calendário, organização e comando (sic) do futebol brasileiro, não é ele que os Pajuelos [N.R.-09 –zagueiro do Peru] da morte não respeitam mais. Os equatorianos também não sabem que estamos atolados em CPIs. Os chilenos que nos golearam em Santiago por 3 a 0, ainda com Luxemburgo, estão se lixando pelo lixo orgânico que produzimos na Copa João Havelange 2000. Os paraguaios que nos venceram em Assunção no ano passado perderam o temor e o respeito pela seleção não pela falta de respeito dos que furam as nossas bolas.

Muitos males são responsabilidade dessas malas que carregamos. Mas chega de apenas pedir “fora, treinador”, “adeus, presidente”, “bye-bye, patrocinador”. A gente tem que gritar “entrem, craques”, “venham, estrangeiros”, “sejam bem-vindos os jogadores que assumam a seleção e joguem por ela o que jogam nos clubes”.

A total falta de credibilidade, decência e organização leva tudo isso a estar do jeito que não está. Mas não são os donos das bolas e das boladas que entram em campo. São os jogadores. São eles que precisam ser cobrados.

O resto é política e futrica.

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  • cleiton de Oliveira

    MAURO, nosso povo te ama!

    Estimado jornalista/ cronista/ colunista/ comentarista (tudo que é ista) de futebol Mauro Beting:

    Há tempos atrás, cerca de um mês, eu propus o seguinte no Forum de discussões do meu amado tricolor gaúcho num site de relacionamentos: “faça o seu top 5 dos comentaristas/ colunistas esportivos”, sendo que, das 60 e poucas pessoas que responderam (tirando algumas que não chegaram a fazer a lista), em pelo menos 50 o teu nome era citado como um dos cinco e, em praticamente todas essa 50, como o ‘TOP 1’, ou seja, o melhor de todos os comentaristas/ colunistas do Brasil.
    Isso só corrobora para saber o que todos nós, amantes do futebol, sabemos que tu és o mais capacitado, informado e imparcial jornalista e cronista esportivo.
    Um abraço e que Deus siga abençoando o teu trabalho!
    Ps: o teu nome ficou na frente até do amado e idolatrado Pedro Ernesto Denardin (narrador da Rádio Gaúcha e colunista do Jornal Diário Gaúcho), que é um ícone do jornalismo gaúcho.
    Ps2: não achei o link para te mandar, pois os posts vão expirando com o passar do tempo.

    CLEITON, só posso te agradecer, e a todos que lembraram o meu nome. Mais uma vez, não tenho palavras. Abraços a todos.

  • Sidney

    Pois é Mauro… Parece que estamos vivendo o mesmo filme em relação a seleção. Hoje muita gente reclama da falta de identificação da seleção com a torcida (o que concordo plenamente) e pede a convocação de mais jogares que atuam no Brasil (também concordo, desde que tenham qualidade pra isso). Lhe pergunto: Qual será a fármula mágica pra resolver essa equação?

    Abraço.

  • Ton Cordova

    Mauro, o texto é, como sempre, brilhante, mas essa fonte é ridícula, e fica terrível para ler.

    TON, valeu, meu caro. E ela será mudada para a semana que vem.

  • Brasileiro

    Você sabe o que é uma senóide? Pois tem dias que torço para que a inteligência humana – no futebol, na política e na vida – siga uma senoidal. Mas a dias ela parece teimar em ser ciclica. Em ambas, os valores se invertem em intervalos de tempo regulares. Mas a (importante) diferença é que numa senoidal o caminho, pelo menos, pode ser seguido em frente enquanto no cíclico as coisas não evoluem.
    Viu, matemática também é filosofia de vida.

  • Ranieri

    Oras, as coisas mudaram?

    O que era d+ a 8 anos, hoje é pedido de todos. Cadê a turma que joga por aki vestindo a amarelinha?

    O que antes era cobrado, “a tal turma que ganha em euros”, hoje pedimos que seja limitado.

    O que mudou?

    Os craques ficaram por aqui e só venderam os perebas?

    Ou a seleção é contra a convocação dos craques, e só convoca os perebas estejam onde estiver? Por aqui ou por lá!

    ps: vc lê realmente todos os comentários?

    RANIERI, leio. e, de fato, cada vez mais é difícil convocar apenas os que aqui estão.

  • vicente longhini

    vicente longhini
    o palmeiras tem mais elnco que do palmeiras eo vanderlei sabe como é um matamata da libertadores coisa q nelsinho nao tem , os jogadores do pameiras ( maioria ) ja jogaram uma libertadores como diego souza , marcos , danilo , marcao , edimilson , morzat e o vanderlei