Morre-morre

por Mauro Beting em 17.abr.2009 às 12:25h

ESCREVE ANDRÉ ROCHA http://blogs.abril.com.br/futebolearte

CRONOLOGIA DE UMA ESTRANHA VERTIGEM

Primeiros dias de Janeiro. Assim como cada pessoa é inspirada pela virada no calendário e faz seus planos estabelecendo metas para os doze meses vindouros, os principais clubes brasileiros também se permitem projetar as prioridades da temporada. Na serenidade da volta ao trabalho, quando ainda nem se está pensando tanto em futebol e falta tempo para a bola rolar, dirigentes, comissão técnica e jogadores planejam e calculam racionalmente, dentro da frieza dos números e de uma visão pragmática das competições que serão disputadas no ano, o que será feito.

Começam os Estaduais e os times ainda estão buscando peças no mercado, rearmando suas equipes. Nas primeiras partidas contra os times de menor investimento, especialmente se os resultados não aparecem, o discurso invariavelmente toca na necessidade de fazer da competição regional um “laboratório” para os campeonatos nacionais e, no caso de um grupo seleto, a Libertadores da América.

Vem o início da Copa do Brasil. Contando com times de todos os cantos deste imenso país, a competição induz os principais clubes a encararem as primeiras fases como compromissos enfadonhos, sem maior interesse, apenas para buscar a goleada que vai evitar um novo encontro com aqueles outros “primos pobres” cuja folha de pagamento mensal pode ser custeada pelo seu jogador de maior salário. Um abismo curioso que mostra os contrastes do futebol jogado no país pentacampeão mundial, mas cansativo para quem está competindo e sabe que sobra.

Quem está na Libertadores, quando não encara um “grupo da morte”, se vê, na fase de grupos ou nos jogos que a antecedem, diante de adversários cujo nível técnico beira à indigência e a classificação para as oitavas-de-final se transforma em uma mera formalidade, com um ou outro desconforto, como jogar na altitude ou enfrentar um uruguaio “encardido”.

E quando chega abril, surge do nada o conflito que desnorteia, o agito que move a ilusão: de repente, aquela cidade que acompanhava o futebol com desdém ou, pelo menos, um frio desinteresse, se incendeia pela sobrevivência de um elemento milenar e que move o planeta bola: a rivalidade.

O cruzamento das fases finais dos Estaduais, que sempre contam com um ou mais clássicos tradicionais, com as iniciais das demais competições cria um paradoxo: em todos os cantos da cidade, na padaria, na banca de jornal e, especialmente, nas filas gigantescas para a compra de ingressos, só se fala no clássico do domingo que será fantástico, espetacular, emocionante, e que vai decidir…o campeonato menos importante, na teoria. Nos outros torneios, que podem levar o time a competições mais relevantes e rentáveis, disputas com agremiações que não se sabe nem o nome ou a cidade de origem.

– É domingo! Amanhã já vou comprar os ingressos…Ih! Mas peraí! Tem jogo na quarta-feira, né? E o time ainda vai ter que viajar…E se o nosso craque se machucar naquele gramado horrível? Putz! É melhor mandar os reservas, não?

Quem já não pensou isso, ainda que de relance, ou ouviu de um amigo torcedor do mesmo time ou do rival?

Resultado: na prática, tudo o que foi dito após profunda reflexão nos primeiros dias do ano cai por terra. A pressão da massa embota a visão dos profissionais, muitos deles também torcedores, e o que se vê é time reserva na Libertadores deixando três pontos pelo caminho – como o São Paulo, que classificava a competição continental em Janeiro como uma “obsessão”, contra o Independiente Medellín -; um disperso Golias tombando diante de Davi na Copa do Brasil (como o Botafogo sendo eliminado, nos pênaltis, pelo Americano no Engenhão) e toda atenção da mídia e do povo voltada para o jogo de domingo que vale taça e, o elemento essencial, a gozação da segunda-feira.

Nada mais importa quando essa estranha vertigem que torna tudo maior, épico e inesquecível toma conta de todos e inebria até os mais ponderados.

O duro é que, depois que passa a turbulência, a consciência é retomada e, muitas vezes, a inconsequência do surto e da paixão desmedida cobra tributos mais à frente. Sem o “barato” da brincadeira com o vizinho fã do arquirrival, o torcedor pensa no futuro do seu objeto adorado e o observa menor que antes, ainda que com mais um troféu estadual na coleção.

Fechando o ciclo, um corte no tempo para dezembro: no balanço final, muitas vezes a conclusão é que o saldo foi negativo. E por quê?

– Ah! Não ganhamos nada no ano. Eliminados prematuramente das competições realmente importantes e sem vaga na Libertadores pelo Brasileiro. Decepção total!

E aí surge a pergunta que agora, no “olho do furacão”, ilustra a insanidade do momento vivido pela maioria dos grandes times na temporada:

– E o Estadual?

– Ah! Esse não conta!

Pois é…

ESCREVEU ANDRÉ ROCHA http://blogs.abril.com.br/futebolearte

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  • Renan Campos de Carvalho

    Perfeito este POST, muito bem escrito e disse exatamente como nos sentimos, estou participando da mobilização alvinegra(sem hifen) para o jogo de domingo, não duvido muito que grande parte dos torcedores que foram ontem ao estádio estavam pensando em Domingo, ainda mais com essa história recente nas finais cariocas. O Botafogo vai realmente entrar mordido para o jogo de Domingo e ontem aplaudimos porque o Botafogo apesar de ter jogado na retranca no segundo tempo, coisa que acho um absurdo para o time que o Botafogo é… Teve raça e buscou o resultado sempre, tirando um(Diego) ou outro(Fahel) jogador o Botafogo realmente fez o que foi necessário, perdendo apenas na Loteria… Mas se até Zico já perdeu PENALTI em Copa do Mundo, porque seriamos isentos disso.
    Foi AZAR ou ACASO do Destino..

    Ps.: Sobre a punição a Juninho, achei uma barbaridade… Vide Fernando Henrique, goleiro do FLORminenC aquele time que perdeu para o Águia, dá um soco no jogador e só leva 1 JOGO de SUSPENSÃO, grande critério este do TJD-RJ.

  • Pedro Simonard

    Pois é, meu chapa! Quero deixar aqui minha revolta contra a incoerência do TJDs. Mais uma vez, o palhaço que se diz procurador do TJ do Rio vem tentar prejudicar o Glorioso Tri-campeão mundial. Ano passado, ele deu um gancho no Ferrero por causa de um carrinho que o árbitro da partida, supostamente a autoridade máxima do evento, não puniu. Agora, ele denuncia o Alessandro (graças a Deus ele foi punido) e o Juninho pelo mesmo lance, com base nas imagens da tevê. O primeiro já havia sido expulso durante o jogo, mas o segundo não recebeu nem amarelo. E a decisão do árbitro da partida, não vale nada? Só verei coerência nesse tipo de julgamento no dia em que, com base nas imagens da tevê, legitimadas pelos TJs como prova autêntica, os tribunais devolverem o Carioca de 2007 ao Glorioso porque o juiz marcou um empedimento inexistente quando o Dodô fez o terceiro gol do jogo e ainda o expulsou. Ou quando devolverem os pontos do Inter contra o Corinthians porque Sua Excelência não marcou pênalti no Tinga e ainda o expulsou. Ou quando alterarem qualquer outro resultado de jogo, com base nas provas televisivas. Enquanto isso não existir, esses julgamentos não passarão de pura palhaçada.

  • Sergio Siqueira

    Ainda não inventaram no futebol nada que supere em emoção um FLAXFLU, um GREXNAL ou um BAXVI decisivo. Por isso vida longa aos estaduais e aos “morre-morre”.

  • Thiago

    http://www.ricaperrone.com.br/?p=2903

    Morumbi pode ficar sem a Copa

    Arquitetos envolvidos nos projetos de arenas para a Copa de 2014 comentam que São Paulo poderá ter um novo estádio especialmente construído para o Mundial. Segundo as fontes, o projeto da arena já está sendo elaborado e será examinado pela Fifa em maio, antes do anúncio das cidades-sede.

    O estádio do Morumbi, que até agora era apontado como o palco provável para a abertura da Copa, teria desagradado aos representantes da Fifa, em sua visita a São Paulo, em janeiro passado, especialmente pelas dificuldades de acesso e de estacionamento. A direção do SPFC aposta em um novo estacionamento para 5 mil veículos, além da modernização das arquibancadas e área de imprensa. Pelo projeto do arquiteto Ruy Ohtake, a renovação do Morumbi custaria R$ 140 milhões.

    No final de 2007, o secretário estadual de esportes, Claury Alves dos Santos, e seu colega Walter Feldman (secretário municipal) propuseram a construção de um novo estádio em São Paulo, que seria do Corinthians, para abrigar os jogos da Copa, juntamente com o Morumbi. Em 2008, a direção do Corinthians chegou a divulgar ilustrações do projeto para o novo estádio, que seria construído até 2010 – ano do centenário do clube – em parceria com a empresa mineira Egesa, ao custo de R$ 350 milhões. Mas, divergências entre diretores do próprio clube retardaram as negociações e levaram à desistência da construtora. No momento, segundo a assessoria de imprensa do clube, não há qualquer projeto de estádio envolvendo o Corinthians.

    (http://www.copa2014.org.br/noticias/Noticia.aspx?noticia=169)

  • Augusto Frutuoso

    Mauro, falando em morte, você viu o afegão que foi morto com a camisa do Palmeiras? :O Oh louco… Também, com aquela camisa fosforecente do Kuait acertavam ele! Não sei como que ainda tem gente nesses países fundamentalistas!

  • Augusto Frutuoso

    Escrevi faltando vírgula… to com sono!