São Paulo 1 x 0 Liverpool – O dia que ainda não acabou

por Mauro Beting em 21.dez.2008 às 19:37h

***ESCREVE WAGNER SARMENTO***

Há cenas que o tempo não apaga. Heróis são eternos. E o mundo é de quem sabe conquistá-lo. Sonhos são como flores. Se bem cultivados, brotam impávidos, mesmo no chão duro da desconfiança. Assim foi o tricampeonato mundial do São Paulo, conquistado com sangue e suor, há exatos três anos, no Estádio Nacional de Yokohama, no Japão. Um título regado a luta e entrega, brilho e altivez, eficácia e competência. Um 18 de dezembro único. Uma manhã de domingo que fez o céu acordar azul e dormir vermelho, branco e preto. Tricolor. Multicor. Tricampeão.O São Paulo chegava para a partida após um cambaleante Brasileirão. Imerso em incertezas. Será que o time recobraria o brilho que esbanjou na impecável Libertadores? Ou o marasmo desfilado no campeonato nacional era irreversível? Entre a dúvida e a prova dos nove, noventa minutos. Vestidos de branco, onze homens e um destino.

O Brasil madrugou à espera da confirmação. O dia nasceu mais cedo. Mas, por uma hora e meia, pareceu eterno. No campo de batalha, os guerreiros e sua luta. Do outro lado da tela, uma torcida e sua espera. O oponente era imponente. Nada menos que o Liverpool, campeão europeu depois de domar o impossível, tirar três gols de diferença no segundo tempo e bater o Milan.

O São Paulo era fé. Rogério Ceni entrou em campo e fez o sinal da cruz. Em nome de Telê, amém. Um time e suas bandeiras. Passado e presente. A história por fazer.

O São Paulo era fé. Olhos fechados pra falar com Deus. Jogadores abraçados, em círculo. O São Paulo era um só. E rezou.

Mais do que nunca, o mundo era uma bola. O apito inicial do mexicano Benito Armando Archundia anunciava a guerra. Nas arquibancadas, quase 67 mil torcedores. Do outro lado do mundo, milhões de quase enfartados.

O são-paulino acordou de vez quando Amoroso tabelou com Grafite, driblou Hyypia e bateu, sem força. O torcedor acompanhou a trajetória da bola mordendo o lençol. Ensaiou os primeiros gritos: “entra!”, “vai!”, “gol!”, ouvia-se. Reina não deu ouvidos. Defendeu fácil.

O relógio rompeu a marca de 26 minutos do primeiro tempo quando o planeta voltou a ser tricolor. Aloísio, no dicionário dos nomes, significa combatente glorioso, criativo, inteligente e corajoso. Aloísio, no dicionário da vida, é o menino humilde nascido na desconhecida cidade de Atalaia, em Alagoas, que venceu na vida através do esporte. Aloísio, no dicionário da decisão, foi o atacante que dominou a bola no peito com o carinho de quem nina uma criança. Aloísio foi Ronaldinho Gaúcho: passe de gênio, de três dedos, que ludibriou o impermeável sistema defensivo inglês e achou, na cara do gol, o operário Mineiro.Quis o destino que o carregador de piano tivesse seu dia de pop star. A vida brindou Mineiro. Mineiro brindou sua nação. Mineiro, no dicionário daquele instante, era Telê, Raí e cia. Era um bendito anacronismo. Muito se falou em Gerrard. Mas nós tínhamos Mineiro, o lorde tupiniquim, o craque sem grife, o predestinado. No meio de três gigantes rubros, surgiu Mineiro, 1,69 metro, gigante pela própria natureza. O volante recebeu a bola como quem ganha um presente do destino. Àquela altura, a torcida tricolor era unhas roídas, cabelo arrancado, coração no limite. Em poucos segundos, a torcida tricolor haveria de ser explosão.

Mineiro, cara a cara com a felicidade, sorriu. De pé direito, na saída de Reina, fez sorrir. Fez chorar. Fez do mundo um império são-paulino. A bola dormiu na rede do Liverpool. Gol brasileiro: 1 a 0. Gritos. Euforia. Festa. O jogo acabou ali.

Nos quase 70 minutos restantes, os tricolores deixaram de ser jogadores de futebol. Transformaram-se em guerreiros. Defenderam, com braveza e dignidade, as cores que carregavam na alma. Deram sua vida por aquele título. O Liverpool tentou de todas as formas. Por cima, por baixo, de falta, de perto, de longe. Mas debaixo das traves tricolores havia mais que um goleiro. Quem guardava a glória são-paulina era um torcedor, uma bandeira. Rogério Ceni, o invencível.Nem que aquela guerra durasse cem anos o time inglês transporia a barreira do exército tricolor. Vermelho de sangue, branco de redenção, preto de sobriedade. Três cores, três títulos mundiais, três

anos de um dia que ainda não acabou.

***ESCREVEU WAGNER SARMENTO***

Repórter de Cidades/Jornal do Commercio

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