Uma reflexão necessária a cem dias da Copa



Faz um exame daqui e outro de lá. Sai de um especialista e corre para outro. No sobe e desce de consultório a consultório um exame aponta que a filha novinha de um amigo tem quase dez graus de hipermetropia.

Fico imaginando que mundo ela viu e qual mundo ela vai conhecer assim que colocar as lentes. A percepção de mundo bom que o conforto do abraço dos pais deu não vai mudar, mas todo o resto mudará.

O quarto vai ser percebido de forma diferente. O rosto dos pais e até mesmo o que ele vê no espelho vai ser compreendido com outras formas. Os cheiros serão os mesmos, mas talvez as frutas até se tornem mais agradáveis quando ela puder enxergar além daquilo que via.

Mas o que tem um Blog de futebol a ver com isso? É que estamos a cem dias de uma Copa do Mundo e no último Mundial, como se tivesse sido no último exame, foi detectado um sério problema estrutural que com óculos não se resolve.

É inegável que a seleção brasileira treinada por Tite pratica um futebol de alto nível e o mundo da bola aponta, sem muita cerimônia, o Brasil como um dos candidatos ao título. Entretanto, a seleção de Tite é um oásis no que ainda é o futebol brasileiro.

Se em campo a camisa da seleção tem dado prazer, fora dele os principais cartolas carregam suspeitas e investigações que desonram a história construída, fora dele, por gigantes como Pelé, Garrincha, Tostão, Romário e Ronaldos.

Não vai ser ganhando mais um título que tudo estará no lugar certo, mas talvez ganhando um título os erros sejam jogados mais ainda para escanteio e as punições sejam deixadas de lado. Tite representa um imenso, poderoso e simpático escudo.

É claro que o treinador da seleção brasileira e seus jogadores nada têm com isso. Eles trabalham e trabalham duro para fazer o futebol jogado em campo ser melhor, mais competitivo e atraente. Mas não é só de títulos que o futebol brasileiro precisa.

As conquistas vieram até hoje mesmo com a visão bem parcial e desfocada de nossos dirigentes. Sejam eles da CBF, das federações e até mesmo de nossos clubes, que ajudam a manter tudo como está.

O 7 a 1 foi a comprovação. Foi o resultado do exame mostrado ao mundo todo e humilhando o paciente. Já era para a o corpo, a estrutura do futebol brasileiro ter mudado e ter dado um passo em busca de um tratamento melhor e mais transparente. E é claro que o resultado da seleção era reflexo de toda uma estrutura corroída. Se um novo título vier, ele virá por causa do trabalho de uma comissão técnica competente, do talento de seus jogadores e será apesar de quem manda e não fruto e obra de quem comanda a CBF.

Nossos olhos já deveriam estar mais abertos. As lembranças daquele 7 a 1 permitem que muito se espere de Tite, mas não deveriam permitir qualquer tipo de comemoração aos patrões dele.



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