Playoff da NFL já tem seu vilão. E um antigo vilão conta como isso pode machucar…



O esporte costuma criar heróis e vilões em grandes proporções. Faz parte da cultura esportiva, mesmo que eu não goste muito disso. Mas isso, às vezes, torna-se inevitável. E os playoffs da NFL são um grande criadouro destes mitos.

A pós-temporada desta temporada já tem o seu vilão: Blair Walsh, kicker do Minnesota Vikings, que errou um chute de 27 jardas que eliminou o seu time contra o Seattle Seahawks neste domingo.

Era um chute teoricamente fácil, é verdade. Mas a baixa temperatura, que chegou a -22ºC e com sensação térmica ainda mais fria, prejudicou. Já li várias entrevistas de jogadores que dizem que a bola fica parecendo um cubo maciço de gelo. Não é fácil. E o estádio aberto também tem o fator vento.

Outro fator atrapalhou: a costura da bola. Podem reparar, todos os kickers chutam na parte limpa da bola. Isso é proposital, já que a costura tira a precisão do chute. Para quem é leigo, pouco muda, mas nesse nível de competição, todos os detalhes fazem a diferença. E esse erro é culpa do holder (quem segura a bola e precisa girá-la para deixar ela na posição correta) e do long snaper (que lança a bola para trás e precisa fazer esse movimento com perfeição).

Óbvio que tudo isso não apaga o erro de Walsh. Ele mesmo admitiu que errou após o jogo. Mas não dá para achar que essa foi a pior jogada da história da NFL, sem entender que Walsh não errou sozinho.

O Vikings tem um bom time e deve evoluir até para brigar melhor em 2016. É cedo, mas gosto muito do técnico Mike Zimmer e espero bastante coisa para esta equipe.

Enfim, este texto não é para defender ou atacar Blair Walsh. Ao ver o erro dele no domingo, lembrei na hora de Brandon Bostick, que ficou marcado como o vilão da final da Conferência Nacional do ano passado. Curiosamente em um jogo contra o Seahawks. Jogando pelo Green Bay Packers, Bostick errou em um onside kick, que acabou dando a vitória a Seattle.

Não republico texto neste espaço, mas é bem interessante ler o relato de Bostick e entender o que acontece com um jogador que erra em um jogo tão importante. É bem duro. O título é “Pulei, fui atingido pela bola… e minha vida mudou para sempre”. Abaixo, parte desse relato.

Bostick era um jogador bem menos conhecido do que Walsh, que tem uma carreira sólida como kicker. Ainda está na NFL, mas somente nesta temporada passou por Vikings, Arizona Cardinals e agora está no time de treinos do New York Jets. Dificilmente terá uma carreira como protagonista na liga.

* Texto originalmente publicado no dia 26 de fevereiro de 2015

‘Vilão’ da final da Conferência Nacional da NFL conta sobre erro: ‘Pulei, fui atingido pela bola… e minha vida mudou para sempre’

Não gosto de simplesmente traduzir artigos ou notícias neste espaço. Acho que o blog é um lugar para dar opiniões e trazer debates sobre os diversos temas dos esportes americanos. Mas hoje me sinto na obrigação de abrir uma exceção.

Não vou simplesmente transcrever o texto, mas quero trazer ao leitor do blog o relato impressionante de Brandon Bostick, vilão da final da Conferência Nacional deste ano. Para quem não lembra, Bostick, que jogava pelo Green Bay Packers, soltou a bola após um onside kick e deu a chance do Seattle Seahawks conseguir a improvável virada e a passagem para o Super Bowl, quando foi derrotado pelo New England Patriots.

Bostick não era um jogador conhecido. Seu trabalho era apenas nos special teams do Packers, ajudando nos retornos e impedindo lances como o conseguido pelo Seahawks. Em seu relato, publicado no site da revista Sports Illustrated (aqui o original: http://mmqb.si.com/2015/02/26/brandon-bostick-nfc-championship-game-onside-kick/), o jogador, que em fevereiro foi dispensado do Packers – depois assinou com o Minnesota Vikings – admite que cometeu um terrível erro. Que seu trabalho na jogada era apenas bloquear o lance, mas tudo saiu errado.

Na minha opinião, o atleta foi monstruoso ao admitir que errou. Errou porque não fez o que deveria fazer. Errar uma jogada faz parte do esporte, mas um jogador de futebol americano sabe que ele tem que fazer o que pedem a ele. Sei que o instinto fala mais alto em alguns momentos, como Bostick diz que aconteceu com ele. Acredito nisso, mas acho que há a parte do inconsciente no lance. O cara nunca tocou na bola e de repente está com a bola crucial chegando nas suas mãos. É difícil pensar só no bloqueio, como era o orientado. Ele tentou acabar com a partida. E errou.

O título do texto já é dá a medida do teor da jogada: “Pulei, fui atingido pela bola… e minha vida mudou para sempre”.

Abaixo, parte do relato de Bostick. Repito, não vou colocar ele na íntegra.

“Algumas vezes, acordo de manhã e o lance é a primeira coisa que passa na minha cabeça. Há noites em que eu me debruço sobre ele antes de adormecer. Às vezes, o pensamento se arrasta para cima de mim quando estou levantando pesos, ou comendo o meu jantar, ou sentado no meu sofá em casa. Sempre há um flashback desse momento e eu posso ver a bola flutuando bem em frente de mim. Aí eu me pergunto : E se ?

Fiz besteira na final da Conferência Nacional e, acredite em mim, isso machuca. Provavelmente pensarei no meu papel naquele onside kick pelo resto da minha vida. E o lance me persegue como um pesadelo recorrente.

A maioria dos americanos não me conhecia antes do dia 18 de janeiro de 2015. Cresci em Florence, na Carolina do Sul. Joguei na Segunda Divisão do futebol americano universitário no Newberry College. Assinei com o Packers em 2012, como jogador não draftado e passei o ano inteiro no time de treinamentos. A transição para a NFL é difícil, especialmente para um cara de uma universidade pequena. Treinava, ajudava o time, mas não jogava aos domingos. Em 2013, ganhei minha chance e comecei a jogar regularmente. Mesmo que a maioria das pessoas nem soubesse quem eu era, até mesmo torcedores do Packers até aquele lance.

Ganhávamos do Seahawks por 19 a 14, quando eles tentaram o onside kick. Andrew Quarless (também jogador do Packers) se alinhou perto de mim: “Eu pego esse cara, você, aquele”, ele falou. “Você sabe a sua tarefa?”

“Sim”, eu disse. “Eu sei.”

Tinha que bloquear para Jordy Nelson (wide receiver do Packers), que estava atrás de mim. Treinamos essa jogada dezenas, talvez centenas de vezes. Mas quando a bola foi chegando a mim, flutuando no ar, me deu um branco. Esqueci de tudo que eu tinha que fazer. Não foi por causa do grande barulho do CenturyLink Field ou por eu ter sucumbido sob a pressão da situação. Foi apenas o instinto. A bola estava na minha frente e eu quis pegá-la. Pulei, fui atingido pela bola… e minha vida mudou para sempre.

Depois daquilo foi apenas uma mancha, uma experiência fora do corpo, como se estivesse vendo uma batida de trens na minha frente. Lembro de Jordy vindo falar comigo logo após Seattle pegar a bola, mas não lembro o que ele falou. Lembro de me retrair e sentar no banco de reservas. Estava entorpecido . Alguns companheiros de equipe vieram para me animar. Eles disseram para manter minha cabeça erguida. Que ainda poderia conseguir algo para melhorar.”

Depois disso, Bostick ainda conta suas experiências após o jogo, nos vestiários e depois nos dias posteriores. Admite que foi ameaçado de morte, reclama do sensacionalismo como a imprensa e as redes sociais trataram o caso. Uma pena isso ainda acontecer.

Afinal, todos cometemos erros. E esse foi um daqueles grandes, mas em um jogo. Logo menos a temporada da NFL começa e espero que Bostick tenha uma chance de ficar marcado por outras coisas. O esporte faz as coisas mudarem de um dia para o outro e o tight end agora poderá mostrar seu valor no Vikings. Que ele possa seguir em frente. Esportivamente e pessoalmente também.

Repito, vale a pena conferir o relato completo no http://mmqb.si.com/2015/02/26/brandon-bostick-nfc-championship-game-onside-kick/



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