Que o COI tenha coragem e não alivie no duro castigo para a Rússia



A Wada recomendou a suspensão da Rússia de todos os eventos esportivos por quatro anos (Crédito: AFP)

A segunda-feira (9) começou com uma bomba no esporte olímpico, que na realidade já era aguardada há algum tempo. A reunião do comitê executivo da Wada (Agência Mundial Antidoping) confirmou uma duríssima punição ao esporte da Rússia, ao aplicar uma suspensão de quatro anos de todas as competições. Isso inclui as edições da Olimpíada de verão de Tóquio-2020, de inverno em Pequim-2022 e dos Jogos da Juventude de Dacar-2022 e a Copa do Mundo de futebol do Qatar, também em 2022.

A punição era uma resposta ao resultado da investigação feita pela comissão de conformidade da Wada, que constatou que há indícios de que o laboratório da agência antidopagem da Rússia (Rusada) segue manipulando os dados de exames. Em outras palavras, há suspeita de que o sistema de acobertamento de casos de doping, que foi descoberto em 2015, segue firme e operante.

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Em termos práticos, é preciso que alguns pontos sejam ponderados.

Primeiro, é que a decisão da Wada é uma RECOMENDAÇÃO. Ou seja, a bola agora está com os dirigentes do COI (Comitê Olímpico Internacional). Caberá a Thomas Bach, presidente da entidade, e seus colegas, abraçarem ou não a pena severa que, para mim, o esporte russo merece passar.

Mas como o COI muitas vezes coloca a questão política quase com o mesmo peso da esportiva, não se surpreenda se uma medida paliativa sair da sede da entidade, em Lausanne (SUI).

Além disso, até o momento em que este texto foi publicado, o COI não fez nenhuma manifestação oficial a respeito da decisão. Na semana passada, porém, o próprio Bach declarou apoiar firmemente todas as medidas no combate ao doping. Uma fala genérica do dirigente e que não mostra firmeza de que ele apoiar a posição da Wada 100%.

Esportivamente falando, não vejo outro caminho que não seja cortar na própria carne do movimento olímpico para acabar com a cara de pau russa. Porém, não me surpreenderia se houvesse aquela “passada de pano” típica do COI, buscando uma solução paliativa.

“Passada de pano” que o COI fez em 2016, antes dos Jogos do Rio, quando jogou nas mãos de cada federação internacional a decisão de punir ou não os russos. Apenas a Word Athletics (Atletismo) foi rigorosa e baniu os russos completamente. O IPC (Comitê Paralímpico Internacional) também proibiu 100% a presença da Rússia na Paralimpíada do Rio.

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Um meio-termo foi feito na última edição da Olimpíada de Inverno, em PyeongChang-2018, na Coreia do Sul. Para quem não se lembra, o COI permitiu a participação de uma delegação de atletas russos sem histórico com doping de acordo com a Wada.

Eis que vimos então um total de 168 atletas russos competindo sob bandeira neutra e com a sigla OAR (Atletas Olímpicos da Rússia). Sem a bandeira ou ter o hino russo tocado no pódio nas conquistas de medalha de ouro. A mesma alternativa é proposta agora pela Wada. Seria um caminho.

Bom lembrar também que nem mesmo esta solução impediu que dois casos de doping entre estes russos “limpos” fossem detectados em PyeongChang.

Outra questão a ser definida seria a presença de equipes coletivas. Na Coreia do Sul, o time de hóquei no gelo russo pôde participar  por bandeira neutra. Talvez esta seja uma alternativa para a Rússia nas eliminatórias da Copa do Mundo do Qatar, por exemplo.

Já se pode esperar que a Rússia irá reclamar de perseguição e recorrerá à Corte Arbitral do Esporte (CAS). Faz parte do processo democrático. Assim como a luta pelo esporte limpo justifica que uma punição impiedosa como esta seja aceitável. Para o bem do esporte.