Quero minha São Silvestre de volta



O queniano Stalney Biwott comemora a vitória na 91ª São Silvestre. Crédito: Reginaldo Castro

O queniano Stalney Biwott comemora a vitória na pouco carismática São Silvestre 2015. Crédito: Reginaldo Castro

O último dia do ano me faz reviver uma das minhas memórias de infância mais marcantes. Enquanto boa parte da família estava comendo, bebendo e aguardando o relógio marcar meia-noite, eu estava plantando diante de uma tevê preto e branco na casa da minha avó, e mesmo com imagens um tanto embaçadas acompanhava atentamente a transmissão da TV Gazeta daquela corrida estranha, cuja largada era por volta de 23h20, 23h30, chamada São Silvestre. Ao meu lado, meu bisavô, um português da Ilha da Madeira, com seu sotaque carregado, vez ou outra me perguntava: “Quem é que está na frente? Cadê o brasileiro?”

A São Silvestre, também para muita gente, representava uma espécie de rito de passagem. Era a senha para lembrar que um ano estava acabando, às vezes um ano não muito legal, com muitas dificuldades, e que outro, cheio de esperança, estava perto de começar.

É verdade que boa parte das pessoas não acompanhava o atletismo ao longo da temporada e sequer sabia quem estava correndo, mas não deixava de parar diante da tevê e acompanhar parte da prova. É bom lembrar que nesta época “romântica” algumas lendas do atletismo correram pelas ruas de São Paulo. O tcheco Emil Zatopek foi o primeiro deles, em 1953, um ano depois de ter sido três vezes medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque (5.000 m, 10.000 m e maratona); o americano Frank Shorter, que viria a ser o campeão da maratona em Munique 1972, ganhou a São Silvestre em 1970; e a dupla portuguesa Carlos Lopes (ouro na maratona em Los Angeles 1984) e Rosa Mota (ouro na maratona em Seul 1988) também correram e venceram nas ruas de São Paulo.

O romantismo, citado no parágrafo anterior, deu lugar ao “profissionalismo”, e esta foi a primeira morte da São Silvestre. Em 1989, a edição foi realizada à tarde, já transmitida e organizada pela TV Globo. O argumento era que a prova passasse a integrar o calendário de corridas de rua da Iaaf (Associação das Federações Internacionais de Atletismo) e para isso precisaria deixar de ser noturna. Dois anos depois, o percurso foi fixado em 15 km, distância mínima exigida pela entidade.

A largada passou para às 17 horas na prova masculina, enquanto as mulheres começavam mais cedo, às 15 horas. Se o charme foi embora, pelo menos ainda terminava perto de começar a festa da virada na Avenida Paulista, e muitos aproveitavam para emendar as duas celebrações. Só que para crescer (e também se adequar melhor à grade de programação da Globo), a prova foi transferida para o período diurno, em 2012. Era o que faltava para a morte definitiva da São Silvestre, na minha opinião.

Se do ponto de vista de organização a prova pôde crescer, tanto que contou com cerca de 30 mil participantes este ano (a polícia militar vetava o aumento de corredores com a prova à tarde, por causa da festa de Réveillon na Paulista), a São Silvestre virou uma corrida absolutamente sem carisma. Aquela multidão que ficava junto às calçadas, aplaudindo e incentivando os corredores, fazendo parte da festa, hoje diminuiu bastante. Até porque às 9h50 da manhã já acabou tudo. Foi isso que senti após a vitória do queniano Stanley Biwott, ganhador da Maratona de Nova York deste ano e que faturou a 91ª edição da prova paulistana.

Muita gente ainda se diverte na São Silvestre, não dá para negar. Basta ver no semblante dos corredores anônimos que passam diante das câmeras. Há os que fazem da prova um marco de mudança de qualidade de vida e existem os que correm porque isso já faz parte de sua rotina. Só que todos estes poderiam fazer a mesma coisa em qualquer uma das centenas de corridas de rua que existem em São Paulo ao longo do ano.

O espírito da verdadeira São Silvestre não existe mais. Talvez seja sinal dos novos tempos, onde não há mais espaço para competições quase amadoras e até mesmo com segurança questionável. Talvez eu seja um saudosista incorrigível e não percebi que tudo aquilo que eu vi e senti em minha infância não passam justamente de lembranças empoeiradas.

Prefiro acreditar que na verdade muitas pessoas estão perdendo suas referências e aceitando passivamente que, sob o argumento da modernidade, algumas tradições sejam simplesmente jogadas na lata do lixo.



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