Privatização do Ibirapuera pede moderação



O complexo esportivo do Ibirapuera, que foi colocado à disposição da iniciativa provada para ser privatizado pelo governo do estado de São Paulo (Crédito: Reprodução)

Nesta quinta-feira (31), o presidente da CBAt, José Antonio Fernandes, divulgou carta aberta ao governo do estado de São Paulo. Mais precisamente, à secretaria de Esportes. O motivo: externar sua preocupação com o início do processo de concessão do complexo esportivo Constâncio Vaz Guimarães, no Ibirapuera, à iniciativa provada.

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O principal motivo do temor de Toninho, como o dirigente é conhecido, está na destinação que o futuro administrador dará à pista de atletismo do Estádio Ícaro de Castro Melo. Entre as propostas previstas, está a construção de uma arena multiuso, que poderia receber até 20 mil pessoas. Como pelas regras o futuro responsável pelo espaço terá que manter o histórico Ginásio do Ibirapuera, inaugurado em janeiro de 1957, não precisa pensar muito para saber onde seria o local de construção desta possível nova arena.

Pelo histórico de descaso no Brasil com a memória e cultura esportiva, a preocupação do dirigente é mais do que justificada. Basta lembrar o que fizeram com a saudoso Estádio Célio de Barros, localizado no complexo do Maracanã e que recebia as competições de atletismo no Rio de Janeiro. Virou estacionamento utilizado durante a Copa do Mundo de 2014.

Antes que me comecem a jogar pedras, deixo claro que é óbvia a necessidade de modernização do complexo esportivo do Ibirapuera. A começar pelo próprio ginásio Geraldo José de Almeida, que hoje em dia dificilmente consegue receber grandes eventos esportivos sem grandes problemas. A própria pista de atletismo, reformada em 2012, precisa passar por novos reparos. A área ainda tem um complexo aquático e um ginásio menor (Mauro Pinheiro). Para modernizar e manter tudo isso, é preciso de dinheiro, coisa que o governo do Estado  não tem.

Astros nacionais e internacionais

O grande problema nesta equação é que nada garante que os futuros administradores do espaço estarão preocupados na preservação deste importante espaço para a história do esporte brasileiro. No caso do atletismo, basta dizer que vários dos maiores nomes da modalidade no Brasil e alguns do nundo competiram naquela pista.

Como bem lembrou Toninho, a pista do Ibirapuera recebeu nos anos 80 e 90 as primeiras edições do Grande Prêmio Brasil. Além de ídolos nacionais como o campeão olímpico Joaquim Cruz, Robson Caeatano, Zequinha Barbossa e Maurren Maggi, mais recentemente, o Ibirapuera recebeu astros como Carl Lewis, Serguei Bubka, Edwin Moses, Evelyn Ashford, Willie Banks, Steve Ovett e até Ben Johnson. Anos antes, o saudoso João do Pulo cansou de vencer competições de salto triplo e salto em distância nesta pista.

Atualmente, sem condições de receber os principais torneios, a pista do Ibirapuera tem sido palco para torneios de veteranos. Recebe inclusive atletas que fazem parte da história olímpica brasileira. Como Wanda dos Santos, atleta olímpica em Helsinque-1952 e Roma-1960 no salto em distância e 80 metros com barreira. Aos 85 anos, ela é presença constante nestes torneios. A aflição dos velhinhos do atletismo foi registrada de forma emocionante em recente reportagem da ESPN.

Não se trata de ser contra à modernidade e às privatizações. Talvez seja o melhor caminho para administrar bens que o estado não tem capacidade de gerir. O que se pede é bom senso para que um local com tanta história não desapareça. Seria um crime à memória esportiva do Brasil.

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