Campeonato Mundial no Qatar é um desserviço para o atletismo



Christian Coleman (dir.) cruza a linha de chegada e vence os 100 m do Mundial de atletismo, diante de arquibancadas vazias (Crédito: Jewel Samad/AFP)

O Campeonato Mundial de atletismo completou neste domingo (29) seu terceiro dia de competições em Doha (QAT). Neste curto período, já teve alguns momentos que podem ser chamados de históricos. Por exemplo, a vitória de Christian Coleman nos 100 metros, no sábado (28) naquela que pode ser o início de uma nova dinastia na prova mais nobre da modalidade.

Ou o incrível feito da jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce, que aos 32 anos tornou-se a mais velha mulher a vencer os 100 m em Olimpíadas ou Mundiais e a primeira atleta campeã do mundo a alcançar este feito após tornar-se mãe desde Gwen Torrence, em 1995.

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Sem falar na incrível disputa do salto com vara feminino, quando a russa (que compete sob bandeira neutra) Anzhelika Sidorova levou a melhor sobre a americana Sandi Morris, ganhando no último salto com a marca 4,95 m. Quem assistiu, foi brindado com uma prova espetacular.

Pena que pouca gente viu isso de perto ao vivo.

É bizarro dizer isso, mas provavelmente esse será o Mundial de atletismo mais desprestigiado nos últimos anos. Por culpa única e exclusiva da Iaaf (Associação das Federações Internacionais de Atletismo), que aceitou levar a sede do torneio deste ano para Doha. Por diversas razões, se há algum lugar que não deveria receber esta competição seria a capital do Qatar.

Primeiro, por questões climáticas. Um calor que beira os 40 graus (fora a sensação térmica) durante quase todo o dia deveria ser fator eliminatório para receber um evento como um Mundial de atletismo. A solução foi criar um sistema de refrigeração no Estádio Internacional Khalifa. Poderosos exaustores distribuídos ao longo da arena conseguem deixar a temperatura em agradáveis 23 graus para o público e 20/21 graus na pista.

O mesmo não pode ser feito para as provas de rua. A maratona feminina, realizada na sexta-feira (27), teve cenas constrangedoras de atletas saindo de cadeira de rodas, exaustas com o calor de mais de 34 graus, mesmo com a prova sendo disputada a partir da meia-noite.

Outro ponto negativo tem sido a presença do público. Chega a ser constrangedor as imagens mostradas pela TV durante as provas, com enormes espaços vazios nas arquibancadas. Definitivamente, o Mundial não conquistou o coração do torcedor em Doha, que vem quase que ignorando solenemente o torneio.

A imprensa estrangeira que cobre o Mundial não tem perdoado a falha dos organizadores para atrair o público.

 

Tudo isso se agrava quando se sabe que há um forte cheiro de corrupção na eleição que definiu Doha como a sede deste Mundial. Quando a Iaaf ainda era chefiava por Lamine Diack (o mesmo envolvido na possível venda de votos para as eleições do Rio-2016 e Tóquio-2020), a capital do Qatar foi escolhida.

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Uma investigação feita pela Justiça da França indiciou o presidente do Paris Saint-Germain, Nasser al-Khelaifi, por corrupção passiva. Ele teria desembolsado US$ 3,5 milhões para ganhar a sede do Mundial de 2019. Al-Khelafi também comanda a Qatar Sports Investiments, empresa governamental. Seus advogados negam o envolvimento de Al-Khelafi e dizem que o dinheiro foi destinado à Dentsu, empresa japonesa que administrava os direitos de comercialização da Iaaf.

O mico dos cartolas do atletismo ao levar o Mundial 2019 para o Qatar me parece definitivo. O que pode atenuá-lo são as performances brilhantes dos atletas até o encerramento da competição, no próximo dia 6.