Saída de Fredericks pode ser o bode expiatório que o COI precisava



Somente quatro dias depois da bombástica reportagem do jornal francês “Le Monde”, sobre denúncia de propina na eleição para a Olimpíada de 2016, o COI pode ter encontrado seu bode expiatório. Em apenas 48 horas, o ex-velocista Frank Fredericks, medalhista olímpico em Barcelona-1992 e Atlanta-1996, pediu demissão de dois importantes cargos no esporte olímpico. Nesta terça-feira, ele se demitiu da comissão de avaliação das cidades candidatas.

Fredericks é a primeira figura-chave na história revelada pelo jornal francês a sofrer algum tipo de consequência neste caso vergonhoso. De acordo com a reportagem, ele teria recebido US$ 300 mil (cerca de R$ 940 mil) no mesmo dia em que o Rio de Janeiro foi eleito como sede dos Jogos de 2016. O dinheiro teria sido depositado por Papa Massata Diack, filho do ex-presidente da Iaaf, Lamine Diack, membro do COI e com grande influência nos votos do continente africano.

Um dia antes, ele entrou em acordo com Sebastian Coe, presidente da Iaaf, e deixou seu cargo na força-tarefa que estudava o retorno do atletismo da Rússia às competições internacionais, por conta do escândalo do doping sistemático. Detalhe importante: a família Diack está diretamente envolvida aqui também, com acusações e investigações por recebimento de propina.

Um empresário brasileiro, Arthur Cesar Menezes Soares Filho, conhecido como “Rei Arthur”, ligado ao ex-governador Sérgio Cabral, teria sido o responsável pela oferta da propina a Diack na eleição de 2009. O comitê Rio-2016 nega qualquer irregularidade na vitória.

As renúncias de Fredericks, em um primeiro momento, caíram do céu para os dirigentes do COI. E nem é muito difícil entender o porque disso. Para começar, causa o famoso “desvio de foco”. Tudo o que a cartolagem do Comitê Olímpico não quer neste momento é ter que trabalhar com um escândalo sem precedentes, poucos meses antes de encarar uma nova eleição para sede olímpica, desta vez para definir a sede de 2024.

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E com as atenções voltadas para um ex-atleta de grande passado olímpico – o namíbio Fredericks tem quatro medalhas de prata em sua coleção, nos 100 e 200 m dos Jogos de Barcelona-92 e Atlanta-96 -, o COI poderá conduzir suas investigações internas com mais tranquilidade.

Por mais que tenha recebido a solidariedade das duas entidades que abandonou por vontade própria, Frank Fredericks colocou à cabeça a prêmio. Será investigado e quem sabe, terá seu passado manchado. Já o COI ganhará algum tempo para tentar resolver seus próprios problemas.