Técnicos estrangeiros também fazem a diferença no esporte olímpico



Darlan Romani, quarto no Mundial de Doha, deve muita de sua evolução a um técnico estrangeiro (Crédito: Wagner Carmo/CBAt)

A menos que você tenha acabado de chegar de Marte, não tenha rede social ou não goste de futebol, é improvável que tenha passado batido da grande discussão do momento. A revolução que o português Jorge Jesus vem fazendo à frente do Flamengo, comprova ou não a supremacia dos técnicos estrangeiros em relação aos colegas do Brasil? Bom, este não é um blog de futebol, mas creio ser possível trazer o mesmo debate para outras modalidades olímpicas no país. Neste caso, ao menos para mim, não há polêmica: os estrangeiros tiveram (e estão tendo) um papel fundamental na evolução do esporte brasileiro.

Antes de mais nada, é necessário fazer um parêntese e lembrar a qualidade do treinador brasileiro, em várias modalidades. Para ficar apenas em dois exemplos, o trabalho de Bernardo Rezende, o Bernardinho, e José Roberto Guimarães, ambos do vôlei e campeões olímpicos. Dois gênios. Recentemente, foram indicados para o Hall da Fama do COB (Comitê Olímpico do Brasil).

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Assim como Bernardinho e Zé Roberto, existem vários grandes treinadores no esporte olímpico nacional. Mas é inegável que a presença dos estrangeiros trouxe na última década uma elevação no sarrafo em várias modalidades. Os resultados nas principais competições neste período comprovam a minha tese.

Muitos dos estrangeiros foram contratados como parte do planejamento de preparar o Brasil para a Olimpíada Rio-2016, quando foi estabelecida a meta de ficar no top 10 do quadro de medalhas. A meta não foi atingida (o Brasil ficou em 13º), mas o legado do trabalho dos treinadores que vieram do exterior é mais do que evidente.

O atletismo, representado por Darlan Romani na foto que ilustra este post, talvez seja um dos melhores exemplos. Darlan viveu em 2019 talvez sua melhor temporada na carreira, tendo alcançado na Liga Diamante a melhor marca da vida (22,61 m), a 10ª melhor na história do arremesso do peso. Foi ouro no Pan de Lima e quarto colocado no Mundial de Doha, por muito pouco não chegando ao pódio.

Além de contar com todo o seu talento, Darlan conseguiu chegar até neste alto nível muito em razão do trabalho do cubano Justo Navarro, que veio naquela leva pós-2009, quando o Rio ganhou o direito de organizar os Jogos do Rio. É Navarro quem cuida do trabalho de desenvolvimento do arremesso do peso na CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo).

O milagre de Morlán

Quer outro exemplo? O que seria da canoagem velocidade do Brasil se não fosse o trabalho de outro Jesus, o falecido espanhol Jesús Morlán? Em um esporte sem nenhuma tradição por aqui, Morlán conseguiu criar um ídolo, Isaquias Queiroz, transformando-o em campeão mundial e dono de três medalhas olímpicas. Isso é ou não revolucionário?

O espanhol Jesus Morlán, ao lado de Isaquias Queiroz e Erlon de Souza, comemorando as medalhas na Rio-2016 (Crédito: COB)

O handebol feminino do Brasil entrou para a história pelas mãos de um estrangeiro. Foi sob o comando do dinamarquês Morten Soubak que a seleção feminina conquistou o Mundial de 2013, na Sérvia. Atualmente sob a batuta do espanhol Jorge Dueñas, o time já está classificado para a Olimpíada de Tóquio-2020. Já o masculino depende de um milagre para chegar lá. Isso chama-se “legado”.

A maior conquista da natação do Brasil teve grande influência de um estrangeiro. O ouro de Cesar Cielo em Pequim-2008 nos 50 m livre (além do bronze nos 100 m) veio em boa parte ao trabalho do australiano Brett Hawke. Até o mês passado, ele trabalhava com Bruno Fratus, mas a parceria foi desfeita.

Sem “reserva de mercado”

Não existe a mesma reserva de mercado” que no futebol aparece em relação a Jorge Jesus no esporte olímpico brasileiro. Especialmente porque se tem consciência das limitações do país em muitas modalidades. Não há melindre em ver um estrangeiro mais competente que chega para contribuir e fazer com que a modalidade evolua.

Pelo contrário, eles são bem-vindos até mesmo em esportes nos quais o Brasil tem tradição, como vôlei (o argentino Marcelo Mendez campeão da Superliga com o Sada/Cruzeiro) ou futebol (a sueca Pia Sundhage, agora na seleção brasileira feminina).

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Pegue qualquer modalidade olímpica do Brasil e verá ao menos um estrangeiro competente trabalhando e ajudando no desenvolvimento do esporte. É assim no basquete (Aleksandar Petrovic), judô (Yuko Fujii), ginástica artística (Valeri Liukin), levantamento de peso (Dragos Stanica), tênis de mesa (Francisco Arado), rúgbi seven (Reuben Samuel, no feminino), atletismo (Ivan Pedroso, Cristian Chocho, Rana Reider, Vitaly Petrov), badminton (Nadia Lyduch) e muitos outros.

Este choque de realidade que o futebol brasileiro sofre com a chegada de Jorge Jesus, o esporte olímpico já vive há algum tempo. Com resultados positivos, que é o mais importante.



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