Esperamos que o esporte não perca sua força, diz Flavio Canto



Certa vez, uma revista quis fazer uma reportagem de capa com a Atletas pelo Brasil. A ONG, criada em 2006 para lutar pela melhoria do esporte brasileiro, vem somando importantes conquistas. Uma das mais relevantes, em 2013, quando ajudou na aprovação de uma alteração na Lei Pelé (MP 620), limitando o mandato de presidentes de confederações que recebem dinheiro público.

Recentemente, teve mais uma participação importante, atuando ativamente na reformulação do estatuto do COB, após a renúncia de Carlos Nuzman. A entidade ajudou também na mobilização da comunidade esportiva para ampliar a presença de atletas na Assembleia Geral do COB.

De volta à capa da tal revista, a proposta era colocar alguns dos membros da Atletas varrendo uma quadra. A ideia foi imediatamente rechaçada.

“Refletimos e dissemos que não queríamos passar a imagem de que estávamos querendo limpar o esporte do Brasil. Aí, fizemos uma foto numa escada, a Paula, Ana Moser e eu. Não queremos ‘limpar’ o esporte e sim ajudar a reconstruir o esporte”. O fato é relatado pelo ex-judoca Flavio Canto, um dos integrantes da Atletas pelo Brasil.

O ex-judoca Flavio Canto (à dir.), ao lado de outros integrantes da Atletas pelo Brasil, durante a discussão do novo estatuto do COB, em 2017 (Crédito: Divulgação)

A três dias do segundo turno das eleições presidenciais do Brasil, a ONG se preocupa com o futuro do esporte do país independentemente de quem vencer a disputa entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. A certeza é uma só: haverá uma forte atuação para impedir que sejam retirados direitos do esporte brasileiro.

Em entrevista ao blog, Flavio Canto analisa este momento delicado do esporte nacional e diz como a Atletas pelo Brasil pode atuar em uma possível mobilização contra a perda de importantes recursos e até sobre o fim do Ministério do Esporte.

Qual a preocupação da Atletas pelo Brasil em relação aos investimentos no esporte do país após o segundo turno das eleições?

FLAVIO CANTO – A Atletas pelo Brasil é uma revolução na história do esporte do país. Vivenciamos várias mudanças lideradas ou com participação fundamental da Atletas. A preocupação com quem vier a assumir a presidência é de que o esporte não perca força, Ao contrário, que ganhe força. Tivemos um movimento recente, perigoso, da MP 841 [que iria retirar recursos do esporte de base para a segurança pública], que acabou sendo derrubada, e foi um momento legal para ver que a gente passou a ter uma força relevante. Foi uma mudança que aconteceu com apoio da sociedade. O esporte tem uma força que não tinha antes.

Você imagina que há a possibilidade do Ministério do Esporte ser extinto ou englobado por outra pasta no próximo governo?

Tem essa possibilidade de diminuir o número de ministérios e cair o ministério do Esporte, vira uma secretária. E aí, o que vai acontecer? Acho que o mais importante é não perder espaço, pois ainda não tem a relevância necessária. Se for associado a outro ministério, correr-se o risco de não ter o protagonismo que tem hoje em dia. Não teria dentro de uma pasta como a educação, por exemplo. Mas, se for criada uma secretaria, o importante é que ela funcione adequadamente.

Como vocês da Atletas entendem que o tema do esporte, de modo geral, é tratado pelos governo?

A questão do esporte ainda precisa amadurecer no Brasil, a começar pela própria carga horária que a educação física tem em nossas escolas. Pela nossa proposta,no mundo ideal, seriam cinco horas por semana no mínimo, uma hora por dia. Temos que construir uma cultura pro-esporte e pro-atividade física, do ensino fundamental até o ensino médio. Isso acaba até refletindo no alto rendimento. Temos um resultado olímpico fraco historicamente no atletismo, para um país com mais de 200 milhões de habitantes. Isso acaba refletindo em todas as outras modalidades, porque o atletismo é a base.  Você pega Cuba, Rússia, Estados Unidos, China, onde o atletismo na escola muito forte. Com isso, você trabalha várias valências, prepara a criança para ter coordenação motora e ter habilidade para depois seguir outra modalidade.

O Paulo Wanderley, presidente do COB, disse que após a mobilização do esporte com aquela medida provisória 841, se vier alguma ação negativa ao esporte no próximo governo, a categoria como um todo vai se mobilizar de novo. Você também acha isso?

Não tenha dúvida. Isso vale também para o próprio COB, que experimentou isso recentemente. Foi um grupo de atletas que ajudou a mudar a representatividade na Assembleia do COB com direito a voto e passamos a ter 12 representantes dos atletas. Acho que ainda não é ideal. Deveríamos estar falando de 35 atletas. Mas essa mobilização também foi sentida pelo COB. O próprio Paulo Wanderley teve uma abertura para receber todo mundo. Não dá para brigar contra o que é realidade. Os atletas hoje fazem parte do processo decisório. Mas ainda estamos longe do ideal. A participação de atletas hoje em dia em confederações e federações, é nula. Temos que ter mais atletas da ativa participando e também os ex-atletas.

O Brasil vive um momento de retração de investimentos e patrocinadores no esporte. Vocês enxergam alguma saída para que estes investimentos sejam retomados ou é algo que irá acontecer aos poucos?

É fácil numa crise ter uma justificativa legítima para reduzir custos. Normalmente, em crises as empresas aproveitam para tomar medidas difíceis. Depois, reimplantar é tão difícil quanto implantar, pois você se acostuma com custos menores etc. Não dá para separar o esporte do resto do país. É necessário todo mundo cortar um pouco da própria pele, estamos vivendo um momento difícil, mas a gente tem que estar preparado para resgatar o que eventualmente estamos perdendo. O fato é que vivemos uma década de ouro no esporte. Tivemos os Jogos Sul-Americanos em 2002, depois o Pan-Americano em 2007 e a Olimpíada em 2016. Foi um movimento pró-esporte que a gente jamais havia vivido. Natural dar uma arrefecida depois.

Meu receio é que o esporte comece a ter investimentos cortados. Claro que do ponto de vista político, seria muito pior cortar na educação, o governo vai levar mais paulada. Assim, cortar no esporte irá fazer um barulho menor. E no caso da MP 841 fez um barulho bem grande. Foi um aviso. A gente vai lutar pelo esporte.



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