“Corte nas verbas da loteria não foi punição a ninguém”, diz novo diretor do COB



O início do novo ciclo olímpico para os Jogos de Tóquio-2020 trouxe uma grande mudança no COB (Comitê Olímpico do Brasil). Após 18 anos na entidade, sendo sete deles como diretor executivo de esportes, Marcus Vinicius Freire deixou o cargo após a Rio-2016. Em seu lugar, veio um velho conhecido da entidade. Ex-atleta olímpico do atletismo, com três participações, tendo sido quarto colocado nos 800 m em Moscou-1980, Agberto Guimarães, de 59 anos, volta ao COB após ter participado diretamente da organização dos Jogos do Rio, como diretor executivo de esportes.

“Foi uma experiência única na minha vida, até pelo resultado que apresentamos, mas se me convidarem para trabalhar na preparação de outra Olimpíada, eu dispenso”, brinca Guimarães, que assumiu em 5 de outubro do ano passado e diz que agora estará do ouro lado do balcão. “Na Rio-2016, organizei a festa para os atletas competirem, agora estou aqui para trabalhar nossas equipes para representar bem o Brasil nos Jogos de Tóquio-2020”.

Em longa entrevista exclusiva ao blog, Agberto Guimarães falou sobre como está sendo retornar ao COB, onde chegou em 1999 a convite de Carlos Arthur Nuzman, presidente da entidade. O papo foi tão longo que irei dividi-lo em dois posts, hoje e nesta sexta-feira (27).

Na primeira parte, além de explicar qual será o foco da atuação de sua área de esportes neste ciclo olímpico, Guimarães comenta também como foi explicar para algumas confederações que teriam as verbas da Lei Agnelo/Piva, que dá uma porcentagem do total arrecadado nas loterias do país, cortados para 2017. “Quando apresentamos os valores para cada um dos nossos critérios, eles começaram a fazer contas e viram que não tinha como contestar. Você diminui um pouco a frustração quando apresenta números, fica mais difícil contestá-los”.

Laguna Olímpico – Como está sendo este início de trabalho, nesta nova função no COB?

Agberto Guimarães – Não tinha exercido um trabalho de gestão no COB neste nível. Em 1999, o Nuzman me chamou para vir para o Rio para tocar um projeto, que era desenvolver um plano de detecção e desenvolvimento de talentos. Era para ser executado dentro do Engenho de Dentro, na área onde foi erguido depois o Estádio Olímpico. Ali tinha uns galpões de manutenção de trem, onde o governo da época fez acordo, passando o terreno para que o COB fizesse um projeto de esportes lá dentro. Depois deste projeto, exerci uma série de funções dentro do COB e a última função antes de fazer o Pan-2007, eu cuidava do programa da Solidariedade Olímpica e também da área de ciências do esporte. A organização não é estranha para mim.

E esse cargo de agora só passou a existir depois que ganhamos a candidatura em 2009, quando Marcos Vinícius Freire assumiu como diretor executivo de esportes. Esse cargo foi criado porque o COB entendia que organizando os Jogos Olímpicos em casa, a área de esportes dentro do COB tinha que ter um papel além de identificar as modalidades com mais potencial de competir bem em Pans e Olimpíadas, era também um trabalho de embaixador. O COB tinha obrigações que saiam da esfera de competição, que era o de criar relacionamento com outros Comitês Olímpicos Nacionais, ser um interlocutor de outros países etc.

Quais tem sido os seus maiores desafios nestes quase 120 dias de trabalho?

Temos uma realidade deste novo ciclo olímpico. É o momento de olhar para dentro e ver a sua missão para os próximos quatro anos. Não sou mais o pais-sede. Meu foco de atenção passa a ser prioritariamente a área técnica esportiva, ou seja, o resultado esportivo. Nosso foco será dentro do campo de jogo, onde o atleta vive. Todo o trabalho para os próximos quatro anos é focado na preparação dos atletas, nos esportes de equipe, na identificação de atletas em potencial para que faça investimento especial na carreira deles até 2020; auxiliar as confederações no processo de gestão mais profissional, ou seja, trabalhando em parceria com elas para melhorar a governança esportiva, a gestão administrativa, prestação de contas etc.

A gente entende que na hora que melhora o processo de gestão esportiva, sem falar na parte técnica, isso se estende também à área de treinamento, de competição, organização de eventos que as confederações naturalmente fazem. Os nossos focos nos próximos quatro anos serão as áreas de gestão das confederações e a área de treinamento e competição, para que nossos atletas melhorem seus rendimentos e com isso a gente tenha a possibilidade deles nos representarem muito bem em 2020.

O novo diretor executivo de esportes do COB, Agberto Guimarães, fala aos presidentes das confederações brasileiros sobre os novos critérios da Lei Agnelo/Piva (Crédito: Rafael Bello/COB)

Agberto Guimarães diz que pretende focar em melhorar as condições de treinamento dos atletas para os Jogos de Tóquio-2020 (Crédito: Rafael Bello/COB)

Pelo que você viu neste período, o que precisa melhorar e o que pode ser mantido na área esportiva?

Quem estava aqui fazendo este trabalho antes de mim não fez nada errado. A equipe do Marcos Vinícius, especialmente nos últimos quatro anos, era altamente qualificada. Alguns profissionais que ele herdou já tinham trabalhado comigo, outros ele convidou e obviamente trouxe sua própria forma de fazer a gestão. Não peguei a área lá embaixo, o nível está muito bom. O que temos de diferente é que trabalharemos em dois focos agora, gestão das confederações e preparação dos atletas. Meu desafio pessoal agora é transmitir para esse grupo de profissionais a minha vivência, o meu conhecimento e relacionamento com as federações internacionais, especialmente com o COI, que foi muito estreito nos últimos sete anos, para fazer com que eles entendam qual é a expectativa que o mundo tem ao Comitê Olímpico do Brasil. Agora o COB não é mais um comitê qualquer.

Não encontro grandes dificuldades, mas sim desafios. E agora precisamos olhar para o foco principal da nossa missão, pois o COB por definição trata de alto rendimento. E isso, não importa quão bom gestor que eu venha a ser nos próximos quatro anos. Se eu não melhorar o resultado de nossos atletas, melhorar as condições de treinamento e de preparação deles, meu trabalho não será reconhecido como bom. Quero trazer para o COB toda a experiência que adquiri nestes anos todos, principalmente dando ênfase na preparação dos atletas, boa capacitação de treinadores, porque não há como ter bons resultados sem ter excelentes treinadores. Precisamos ter pessoas capacitadas, para que possam melhor treinar nossos atletas e que eles consequentemente possam competir melhor.

Como foi para algumas confederações ouvir que receberiam menos verba da Lei Agnelo/Piva em 2017?

Por causa da minha função da direção esportiva dos Jogos Olímpicos, me obrigava a ter um relacionamento estreito com as federações internacionais e também acabava tendo um relacionamento constante com as 28 confederações brasileiras que participaram da Olimpíada. Mesmo assim, falar de cortes e reduções nunca é bom. As pessoas têm às vezes uma reação positiva ou não. No geral, a reação não foi ruim, porque atribuímos valores mensuráveis para cada um dos critérios que a gente apresentou, explicando porque subiu e porque desceu. Por princípio, minha vida inteira foi regida por números. Venho de um esporte e de uma prova que exigia que você tivesse plano, estratégia, que treinasse muito ritmo. Tinha que passar cada ação da prova em X segundos. Se não fizesse isso, a possibilidade de sucesso nos últimos 60 ou 70 metros era quase zero.

Gosto de lidar com coisas que podem ser medidas. Nossa proposta de critérios [para aplicação dos recursos da Lei Agnelo/Piva], foi baseada em números e estatísticas. Se você tem 12 possibilidades de ganhar uma medalha e ganha duas e outro ganha três, tem como atribuir peso para isso. Quando nós apresentamos os valores para cada um dos critérios, a plateia ficou praticamente em silêncio. Eles [presidentes das confederações] começaram a olhar para o quadro e fizeram contas e tentar entender o critério. Não tinha como contestar. Com isso, você diminui um pouco a sensação de frustração, pois quando apresenta números, fica difícil de contestá-los.

O critério é perfeito? Talvez não seja, mas começamos um processo com estas atribuições e que naturalmente será mais fácil fazer daqui em diante fazer pequenos ajustes e melhorar este critério e cada vez menos ser contestado, do que o contrário. Em linhas gerais, eu diria que tudo o que apresentamos para as confederações até agora, e eles perguntam e questionam, sem problema algum, não há como brigar.

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Algum das entidades se sentiu prejudicada com esta redução?

Quem sofreu uma redução poderá recuperar uma quantidade de dinheiro se apresentar para a área de esportes do COB um plano para o planejamento estratégico mostrando como você vai aplicar esta verba, onde vai aplicar e quais são os resultados que serão alcançados da forma que você está propondo. Nós vamos avaliar se isso tecnicamente é viável e se isso está dentro do planejamento estratégico da gente para 2020. Se estiver, a gente vai lá trabalhar para que eles recuperem parte destes recursos. Mas é importante dizer que se você arrecada menos dos recursos na loteria, eu não tenho como passar mais. Se arrecado 10, não posso passar 13, 14, 15. Também é importante que isso não foi para punir ninguém. A gente quer fazer as coisas reconhecendo o mérito e o trabalho das confederações e obviamente lembrando a todos que se for necessário fazer um ajuste de curso, o COB está para ajudar, para que todos melhorem, progridam e tenham possibilidade de ter atletas medalhistas em Jogos Olímpicos. Esse é o nosso papel.

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